Os avós. A filha. Os pais.

Cresci enternecida e aconhegada pelo amor dos meus avós. Mimo em exagero, colo maior que o chão, beijos que faziam luz e abraços que dão a paz que só existe nas histórias de encantar.

Ainda não me habituei verdadeiramente a viver inteira sem este amor, ainda há um vazio que grita baixinho, som de fundo que já não incomoda, mas que lembra essa ausência. E não faz mal. Trá-los perto nesse dentro onde me habitam, onde moram em tudo que me deram, me fizeram.

E é no meio desta saudade que nasce a Mafalda. Bebé muito desejado, coração a crescer ainda mais do que a barriga ao longo de 9 meses, espaço para amar mais e mais... mas afinal não é preciso espaço, porque este amor é maior que o seu tamanho, e não se mede, mas cresce sempre, voa gigante a fugir do peito e volta a descansar, o universo inteiro pousado no colo. Náo é um amor que rasga limites, porque eles simplesmente deixam de existir. 

Neste frasco tão pequenino ainda de ser humano, cado gesto parece magia, porque acontece na nossa contemplação. O verdadeiro mindfulness, em que cada segundo é a nossa existência completa. Tudo é mais denso agora, e tudo é mais leve. É a loucura e a lucidez, tudo no mesmo instante. 

Relembro o divino. Volto a acreditar. Nada nisto é mundano. Vem desse Maior que não sei explicar, faz parte desse Tudo que somos, dessa energia que nos faz matéria em uníssono.

E não posso deixar de acreditar que os meus avós habitam nela. Que fazem parte desta essência. Que nessa viagem do princípio do mundo, antes de ser vida a crescer dentro de mim, a nossa Mafalda girou em ventos que lhe sopraram a ancestralidade mais profunda de volta à terra, de volta à existência de olhares e fôlegos, de batimentos cardíacos e suor.

São amores diferentes estes. O que recebemos e demos aos nossos avós; o que recebemos e damos aos nossos filhos. E ainda assim, estão misturados e são um só. Os meus avós. A minha filha.

E a casa? Essas paredes seguras a proteger? Esses são os pais. Os meus pais. Ponto de partida todas as manhãs, horizonte de regresso a cada final do dia. Os pais são essa estrutura, esse palco onde se desenrola a ação, essas tábuas que seguram os nossos passos a cada cena. A casa que tomamos por garantida, porque nos preocupamos com móveis e decoração. Mas antes do sofá mais confortável, do tapete mais colorido, das cadeiras a combinar... estão muros e teto, está o chão, e está essa porta sempre aberta, nessa casa sempre nossa: os nossos pais.

Os meus pais... são os avós da Mafalda. A continuação desse enredo de ternura infinito.

Os meus avós. A minha filha. Os meus pais. Tanto amor a incandescer os olhos. Tanto para viver.

Que assim seja.

Mafalda

Quando nasceste, o mundo nunca mais foi o mesmo. 
Quando nasceste, o mundo ficou igual a sempre. 
Quando nasceste, o mundo deixou de ser mundo. 
Quando nasceste, o mundo passou a ser mundo.

Foi assim esse parto de tudo e de nada, e de tanto a explodir em mim, e de tanto a serenar-me. 
Foi assim esse parto da luz mais incandescente, do escuro mais profundo, da gratidão mais incrível, do medo mais avassalador. 
Foi assim este parto de amor.

É o amor. O princípio de todos os amores que há no mundo. A fonte que é água a saciar vida de todas as formas.
Ninguém precisa da maternidade para saber o que é o amor, mas agora que sou mãe, sei que é esta a matéria-prima de tudo. O amor que os nossos pais nos impregnaram um dia. Este amor assombra a humanidade de esperança e fé. Este é o amor que nos faz continuar a acreditar, continuar a caminhar. Este é o amor que nos faz sonhar a paz.

Ver-te adormecer

Ver-te adormecer é o mundo inteiro de paz. 
Este amor brutal a dar sentido, âncora segura a prender-me por entre o mundo em mar revolto, revoltado.
Os olhos entreabertos. Esse coelhinho contente que descansa na tua mão. A música suave embala o teu sono e abafa o barulho da guerra. Tudo é paz aqui ao teu lado.

Deito-me paralela a ti e és tu todo o meu horizonte. Na hora de dormir e para o resto da vida. És o mais longe que eu vejo. A paz que aspiro.

Um dia quero saber amar assim

E para onde vai este amor?

Este saudade boa que guarda a ternura e as histórias… para onde vai este amor?

Quem me atende do outro lado do telefone como se eu fosse o mundo inteiro, o antes e o depois, o sempre inteiro infinito…Quem abre a porta e sorri de encantamento e alegria pela melhor visita que podia receber?

Para onde vai este amor? Onde encontro mãos enrugadas da vida para agarrar e não deixar que me larguem nunca? E para onde vai este amor? Para onde vai? É tanto. Para onde vai?

O vosso ficou. Está aqui inteiro. Todos os dias. Acho até que continua a crescer, a multiplicar-se, a exponenciar-se. Foi tanto que ainda é e continua.

E para onde vai este amor? Este que quero, que preciso devolver? Sou eternamente criança pequenina em egoísmo desse amor que nos eleva em pedestais de aconchego.

Não ter avós é o derradeiro teste de crescimento. É a verdadeira lição de humildade. Não somos, afinal, mais do que qualquer outro. E estávamos logo ali naquele degrau a seguir a Deus. 

Ainda que guardemos cá dentro o luxo de ter sido amados em exagero absurdo de amor, em esbanjamento de ternura e cuidado, a eternidade foge-nos das mãos.

Falta-nos a devolução. Falta-nos retribuir aos nossos avós um pouco desse imenso. Não aprendemos o invisível. Não sabemos falar-lhes nesse céu que é todo deles.

Ficam aqui dentro em amor que não pára de crescer e já não cabe em nós. Meus queridos avós.

Um dia quero saber amar assim.

meus queridos avós















O meu avô não está cá. 
Não está em lado nenhum.
É literalmente nada.
Ou uma cinza tão reduzida de gente, que mais vale aceitar esse nada inimaginável de quem foi (e ainda é) tanto amor.
O meu avô não está cá e não está em lado nenhum.
Não gosto disso.
Eu sei que é assim, que tinha 91 anos, que teve uma vida de saúde e alegrias, mas não gosto. E não quero gostar. Não tenho que gostar.
Queremos tanto seguir em frente, aceitar as nossas dores e empurrá-las bem lá para o fundo, que quase não percebemos que, mesmo que não vejamos, continua lá, a pesar-nos nesta mochila algures na nossa alma.
E fica mais difícil ignorar quando já empurrámos outras dores lá para o fundo. 

O meu avô partiu.
E com ele partiram todos os avós que foram esse amor incondicional e inesgotável. 
Sempre que um(a) avô(ó) partia, sentia que me forçava a aceitar e redirecionava toda a ternura para os que continuavam por cá. 
E o Bu Quim levou com o amor de todos no final da sua vida, mas também me amou como se todos ainda morassem nele.
E agora ele já não está cá. E agora não está cá ninguém.
E eu quero tanto que estejam.

Hoje não quero ver o lado positivo. 
Hoje não quero dizer que os meus avós são eternos em mim (que são!). 
Hoje não quero dizer que continuam vivos em tudo que deixaram em nós (que continuam!). 
Hoje não quero dizer que ainda os oiço a pulsar em cada batida do meu coração de tanto que me amaram (e, oh… se amaram!).

Hoje quero só ficar triste. 
Quero só deixar doer esta pressão absurda de saudades. 
E não faz mal. Preciso de lembrá-los. 
Preciso de rever na minha cabeça esses dias em que eles eram corpo e olhos brilhantes, abraços do melhor aconchego, certeza, paz, porto seguro, âncora, asas para voar mais alto, mar sereno, tudo e tanto, assim mesmo misturado. 
E lembrar esta imensidão é coisa que não cabe no peito. Porque é um tamanho que não foi feito para ser guardado, mas vivido. Não cabe. E por isso dói. Porque aperta, contorce, estica e rasga. 
Mas é a única forma de tê-los aqui. Então que doa. 
Vale por todas as dores que curaram.

Tantas vezes desligo a memória para evitar a dor. Hoje não. Hoje não. 
Meus queridos avós.

Beleza Colateral

É das coisas mais poderosas, mais comoventes, mais enternecedoras: a beleza que emerge da tristeza. Não a anula, não a compensa, não a justifica. Mas está lá. E tem sempre uma luz que vale a pena deixar iluminar.

Colateral é algo que acontece em simultâneo, em paralelo. Normalmente associado a uma conotação negativa: quando se fala de "efeitos colaterais", geralmente estamos a referir-nos a consequências indesejadas ou não previstas de determinado acontecimento ou circunstância.
Mas beleza colateral é mais do que isto. É estar triste ou em sofrimento e ver esse estado momentaneamente interrompido por instantes de amor, de paz, de fôlego, de alegria.

Gosto sempre de me demorar nas belezas colaterais. Há algumas que não esqueço:
a minha mãe a cantar para a minha avó nos seus últimos dias de vida, a ternura do Glodi quando me viu a acordá-lo a meio da noite, a Duda atenta ao sofrimento do pai quando o avô Eduardo partiu. Tudo pedaços de momentos de tristeza e sofrimento; tudo pedaços da essência mais bonita e pura de amor, de ser humano, ser gente, ser pessoa mais do que corpo, e certeza dessa energia que nos habita (alma, espírito? eu sei lá. eu quero lá saber. a nossa essência. qualquer que ela seja).

Nestes dias de pandemia, medo, insegurança e angústia quanto ao futuro, procuro ancorar-me em pequenas belezas colaterais: a caixa de máscaras gentilmente partilhada no escritório, as palmas à varanda, o sentido de missão dos profissionais que não podem ficar em casa, a preocupação e o cuidado uns com os outros, os rasgos de humor, o tempo extra de mimo e aconchego que nos devolve o sentido de relação.

Para estes dias de recolhimento, fica o desafio: procurar e partilhar belezas colaterais.

E que nos cuidemos. Isolados, mas mais juntos que nunca.
(outra beleza colateral)

#belezacolateral

Faltavas tu


Faltavas tu.

No fim de um caminho lento e demorado em entusiasmos, sorrisos e ternuras, percebo que ainda me falta o teu olhar. E não há como celebrar o Amor sem ti. Ainda não tinha visto o meu avô. Olhei à volta, à tua procura. E tu estavas logo ali. Logo atrás. Pertinho. E em ti, todo o nosso céu de saudades. Agora já não faltava nada.
Não contei a ninguém. Mas tu viste que te procurei. Tu viste que a festa não podia começar sem ti. E bastava sabermos os dois. 

Às vezes ainda sinto esse salto no coração a lembrar-me para te procurar com o olhar. 
Às vezes ainda rodo a cabeça, arqueio as sobrancelhas, estico o corpo...
Mas agora olho e tu não estás lá. Por mais que te procure. 

Hei-de aprender a ver-te cá dentro. 
O invisível (ainda) é muito longe.


E afinal não soubemos só nós.
Dias depois, a prima envia esta foto.
Ela sabia. Ela viu esse olhar sôfrego de ti.
E registou esse momento.
Ela já sabia a benção que era procurar
e ver a devolução do amor com o olhar.
Sempre que olho para este fotografia, vejo o teu sorriso,
o coração fica sereno e sinto que posso celebrar a vida.
Nesta fotografia, ainda consigo ver a reciprocidade do nosso amor,
essa luz dos teus olhos que é(ra) aconhego incondicional.
Nesta fotografia, ainda és. Ainda somos.

Eternidades que acordam

Naquela noite, acordaste-me várias vezes.
Foram intervalos de sono curtos onde conseguiste trazer-me baldes de alegria e gratidão. Em memórias pouco claras no limbo dessa madrugada em vigília, vi sorrisos e abraços repetidos e atropelados; senti esse amor incondicional e constante, essa ternura quase magia, essa presença divina que os avós sempre deixam no mundo. Voltava a adormecer com a tua imagem de paz, para logo a seguir acordar com as tuas mãos a aquecerem as minhas e de novo esse amor gigante a abraçar o sono. 
Ainda não sabia se estávamos em despedida, e hei-de querer-te sempre mais, mas só conseguia pensar no tanto a agradecer. No tanto da minha vida que vem de ti, no tanto de amor que somos, no tanto, tanto, tanto.
E então, partiste.
E então, és eterno.

(Até já.)

Balanço

Ubuntu. Eu sou porque tu és. Somos.
Dias em Moçambique, dias em Ubuntu, dias em Amor.
E agora sempre?

Balanço destes dias. 
E coração a balançar.
Não sabe se vai ou se fica. 
Tem a certeza da viagem, do percurso, da âncora a aguardar.
Mas balança em vento de luz, entre um e um que só são reais na intenção.
Coração balança contente de vida. Balança pesado de inspiração. 

E neste balanço, o mais importante, é partir sem ir embora.
Fazer as malas sem esquecer nada e sem ir embora.
Entrar no avião inteira sem ir embora.
Ficar.
Ficar nos dias e nas pessoas que nos impelem a ser mais e melhores. Ficar na contemplação, no cuidado de entrega, no despojamento que deixa espaço para o mais importante. Ficar em mim. Aqui. E partir assim.
(Depois desta plenitude boa, não posso ir embora de mim.)

Fecho os olhos e há um sol a iluminar. Incandescente de paz no sentir.
Na escuridão dos meus olhos fechados, há cores a dançar. Há um silêncio solene rasgado por risos contentes e logo novo silêncio de escuta. Alegria a ressoar cá dentro. Olhos em água brilhante na emoção deste encontro tão bonito.
Adormeço em sonhos das imagens dos últimos dias, bêbada de gratidão deste Tanto imenso.

Foram dias repletos de inspiração com pessoas incríveis. Mostraram-nos um Moçambique de sonhos e caminhos, de pontes largas e sólidas a ligar todas as esperanças num mapa de novas estradas.

E nos profundos, demorados e repetidos abraços da despedida, ficámos misturados nas energias felizes de quem acredita no Mundo.

(E nada disto é exagero de metáfora ou poesia. Foi assim mesmo. Coração a explodir sereno. Tanto. Tanto. Tanto!)

Ubuntu. Eu sou porque tu és. Somos.

Estamos juntos!


Agora

Agora. Sem correr para o depois. Agora. Tanto espaço. Tanta Energia. Agora.

Daqui a poucos minutos (talvez não tão poucos assim, que o vôo está atrasado), estarei algures num pedaço de céu a caminho de Moçambique.

10 anos depois, vou regressar a uma terra que me ensinou a amar inteira quando eu achava que era impossível amar mais, me ensinou a amar melhor quando, entre a ingenuidade e a prepotência, achava que não havia mais a aprender.
E descobri, então, que sempre que achamos não haver nada a aprender, é quando mais precisamos de ensinamentos.

Há 11 anos, quando corri pela primeira vez para Moçambique, cheguei cheia de pressa de fazer coisas e obrigaram-me a parar. Embati num muro duro, implacável e indiferente à minha velocidade e à minha agenda. Mas não doeu. Essa parede alta era forte, mas suave, e o choque terminou numa espécie de abraço metafórico, de aconchego e novamente força a impelir. E antes de fazer o que quer que fosse, tive(mos) que aprender a estar. Estar. Coração todo ali. Consciência do tempo e do espaço. Gratidão pelas pessoas. Confiança no caminho. Entrega. Entrega total. Estar.
E depois sim, fazer. E fiz(emos) coisas tão bonitas! Porque estava(mos).
Há 10 anos, um ano depois, voltei a Moçambique, já em plenitude feliz, coração todo a explodir da magia dos reencontros.

Talvez não seja assim por acaso este regresso agora.
Os últimos tempos têm sido de fazer. Fazer imensas coisas, numa agenda preenchida e tarefas sobrepostas num castelo torto. Mas não estou. Não estou inteira em mim nem nos outros. E desta forma não faz sentido. Porque não faz sentir.
E se as minhas pessoas bonitas me aceitam assim, em pedaços de tempo contados e escassos, que não aceite eu estar tão pouco, que me lembre desse muro que me empurrou para me abraçar. 
Profundamente grata por esta rede incrível de suporte, cuidado e amor, quero aprender a guardar espaços de tempo sagrados de celebração discreta - mas atenta - da vida e dos outros
E imponho a mim própria este limite, este ponto final em malabarismos. Agora Moçambique. Outra vez. Tantos anos passaram e tanto para (re)aprender. Dias que se esperam de Luz e Amor. Quero só saber que vou aterrar inteira e permitir-me essa comunhão plena e entrega genuína.
E depois, aproveitar o balanço, e voar de volta para cá, nessa certeza de que 2018 terá que ser um ano para Fazer menos e Estar mais. Fazer melhor, mais atenta, com mais cuidado. Mas Fazer menos. Dizer que não quando for preciso, só para garantir que cada Sim é total e será vivido e desfrutado.
E Estar mais. Demorar-me nas casas e nos encontros. Ter conversas mais longas. Demorar-me menos no relógio para o compromisso seguinte e mais nas conversas que ainda esperam tantas palavras.

E agora, Moçambique.
E agora, viver agora.
Até já.


8 de Dezembro

8 de Dezembro. Um dos meus dias preferidos do ano! Dia de festa e dia de família.

Ontem ao final da tarde, parada no trânsito em direção a casa, demorei-me em viagens de memórias e saudades. Viagens sempre perigosas e turbulentas, sem cinto de seguraça nem semáforos. Aventuras para as quais saltamos num ímpeto irresistível, mas de onde nunca sabemos se voltamos mais leves pela metáfora do reencontro, ou em sofrimento pela irreversabilidade dessas ausências que gritam em nós.

Entrei no carro já a pegar no auricular para dar os Parabéns à Tia Laura. A voz do Tio Fernando do outro lado do telefone faz imaginar um miúdo de 20 anos; diz que o pessoal do telemarketing não acredita que tem 82. É fácil perceber porquê.
Passa-me à Tia Laura, que já não disfarça a idade na voz, mas mantém a ternura e o aconchego na música das suas palavras. 
Sinto-me sempre outra vez com 3 anos, a espreitar à janela do quarto dos tios, da qual os carros na autoestrada me pareciam miniaturas. 
"Tia, aqueles carros são mesmo assim tão pequeninos?" A tia respondia que sim e eu lá ficava fascinada a vê-los passar ao longe. 
Mais tarde, quando contava aos tios estas minhas viagens na sua janela, ninguém se lembrava de confirmar tal devaneio, mas é das primeiras memórias de algo que me encantasse. Depois aprendi que as coisas ao longe ficam mais pequenas e deixou de ser incrível. 
Despedi-me da tia com um "xi-coração". Queria dizer até amanhã.

Almoçávamos sempre juntos no dia 8 de Dezembro. Era o aniversário da minha avó. Sempre celebrado com o entusiasmo de uma criança. 
[Acho que herdei dela essa "infantilidade" perene. Por mais que os anos passassem, a cabeça amadurecesse, a pele enrugasse, permanecia o coração repleto de mimos e de sonhos.]
Um feriado disponível para ser aproveitado em pleno. Semanas antes já se começava a pensar onde iríamos almoçar e passear em família, e o dia acabava sempre em casa com lanchinho e petiscos. Casa cheia e a família reunida. Acho que não havia nada que ela gostasse mais!

Quanto eu tinha 8 anos, a barriga da tia Natália crescia de vida. Já de lá tinha saído o Celsinho 5 anos antes e esperávamos juntos a chegada do André. Miúdo esperto, escolheu também o 8 de Dezembro para nascer. 
E este dia bonito passou a ser partilhado em celebrações. Ao almoço com uma parte da família, à tarde com a outra (que afinal são uma só!). E dos mimos à avó Fernanda, seguíamos para brincar com o André que crescia em tamanho e amor. 
Hoje o André faz 25 anos e está a festejar com audácia de mundo dentro de si.
[Pobre miúdo, que pode ter 50 e para mim será sempre o meu primo bebé!]
A avó Fernanda já não faz anos, porque no céu o tempo celebra-se em Luz.

Saudades da minha avó. E saudades da Pequenina.
Saudades do meu avô quando ainda tinha a minha avó.
Saudades dos outros avós que partiram em sintonia.
Saudades do André com um metro de altura.
E de mim nestes tempos. Quando tudo era possível. Quando tudo iria ser possível. Quando nunca ninguém ia morrer nem crescer.
Que saudades!

Ainda nesta viagem parada no trânsito, passei dos 8 de Dezembro, para as tardes a crescer com o Celso no pátio da avó Mariazinha e do avô Fernando. Corri nos canteiros que ela nos pedia para não pisarmos, fiz barulho à porta do anexo do avô enquanto ele dormia a sesta, joguei à macaca até me cansar [definitivamente, o"desporto" no qual terei sido mais bem sucedida em toda a minha vida], rodei apoiada no pilar das cordas da roupa. E aquele sorriso enorme sempre a pairar. Hoje como há 20 anos.
Acho que é isto a eternidade.
(mas ainda não me habituei ao invisível)

Dizia a Sofia Cruz há uns anos: "Enquanto tiver memória, nunca mais vou estar sozinha."
E assim cheguei a casa ontem, com o meu Smart de 2 lugares cheio de gente, de barulho e de conversas, de amor e de vida. Abençoada pelas memórias e grata por tudo que ainda virá.


Hoje é dia 8 de Dezembro, Família.
Onde quer que cada um de nós esteja, estamos juntos.

Confundir com o Bem

Nestes últimos tempos, é fácil ficarmos confusos com todo o mal que nos é relatado. É um mal real, com muitas formas, entre o terror e a descriminação, entre o pânico e a indiferença.
A surpresa aparece quando constatamos que o "bem" se repete e multiplica num exponencial muito superior ao mal. Continuam a ser incontavelmente mais as bondades de todos os dias, e não podemos deixar de lembrá-las. 
Mais do que nunca, é importante que nos demoremos na bondade: na ação e na contemplação. Sermos bons, tanto quanto possível, o mais possível. Sermos bondade! E contemplar. Multiplicar gestos de bondade como quem comenta o mais recente acontecimento mediático.

Quanto entramos num espaço escuro, logo inventamos luz, seja no interruptor, com o telemóvel, acendendo uma vela, uma lanterna. Ninguém fica voluntariamente perdido no escuro. 
Hoje, neste mal que nos confunde, é preciso lembrar a nossa bondade, a nossa luz. Todos temos capacidade de iluminar!
E somos tantos a querer luz...! 

Vamos confundir com o bem?
Contar histórias de Paz, saborear as alegrias, desfrutar das companhias. Rir o peito cansado de entusiasmos!
Vamos lembrar os outros dessa bondade que nos humaniza, dessa igualdade que partilhamos em essência profunda de ser.
Sejamos exemplo de tolerância e compreensão, braços estendidos para pontes em construção.

Ao ódio, responder com Amor. Sempre. 

"Desconfundir" o mal e participar da confusão do bem!
Há um caminho longo pela frente. Vamos juntos?

#confundircomobem


Devolução

Abriu a época de saldos.
O valor dos seres humanos parece descer cada vez mais e é preciso definir regras para gerir toda esta mercadoria de gente. 

Juntam-se alguns outros seres humanos, daqueles de melhor qualidade, mais caros. Sentam-se confortavelmente em cadeiras de pele à volta de uma mesa. Olhares consternados de quem tem sérios problemas para resolver. Imponência de quem é Deus na decisão de destinos e de vidas.
"É para devolver!"
E eles chegam. Barquinhos pequeninos a transbordar de gente que desafia a sobrevivência. Então é assim: quem não morreu na travessia nem na emoção da chegada, volta para a Turquia. Foi uma boa solução encontrada. A possível. A única possível, claro está. E todos cheios de boas intenções. Por cada criatura dita humana que se devolve, os senhores do outro lado podem mandar uma da mesma espécie, que já estivesse à espera de caminhos. Só assim se consegue gerir esta confusão desenfreada!

Ai! Era o que mais nos faltava, a nós, pobre europa, ter que resolver os problemas desta gente de outros continentes. Nós que nem temos nada a ver com isto! Já muito fazemos nós! Já muito fazemos nós!

Não trazem fatura nem um recibo agrafado na orelha. 
Cometem o crime da esperança de uma vida melhor, de fugir do terror, de sonhar com paz.
São devolvidos e trocados por outros. Cromos de uma caderneta de líderes políticos. Toma lá estes 400 e mandem então 400 dos que já estavam aí. A ver se esta gente aprende que não pode ser assim à toa. Lá porque fugiram a arriscar a vida num pedaço de plástico sobrelotado, em ondas desconhecidas e noites frias, lá porque guardam no olhar e na alma sofrimentos inimagináveis. É lamentável, de facto. Mas não há mais que se possa fazer!

Por falar nisto, ando há dias para ir devolver uma camisola... Acho que já passou o prazo. Que chatice! Lá vão os 20 euros, que aquilo não me serve. 
Pena não ter comprado uma pessoinha, dessas de pouco valor, que vêm com os amigos nos barquinhos. Era mais fácil devolver.

Quando não estiverem tão atarefados, devolvam-me a mim também, por favor.
Sou tão boa como vocês. Revolta vestida de ironia e sarcasmo, e sempre o silêncio das ações.



segundos de Amor

Poucos dias e muito segundos (quando as histórias ainda são pequeninas, precisamos de segundos... são a única escala que lhes faz justiça), conversas à procura de conteúdo, repletas de intenção de amar, de intensidade no simples estar junto . Havia tanto para dizer, mas mais para sentir!

As conversas aumentaram de tamanho, a confundir a simplicidade boa de amar em plenitude.
É que ela tinha medo. Tanto! Do escuro, do bicho-papão, dos ladrões, dos fins, das guerras. Tinha medos com palavras que ele não percebia, com sinónimos que não vinham no dicionário, sentidos inventados de tudo o que ela ia misturando lá dentro. 
Cordas emaranhadas e ele a tentar construir um novelo. Ela em pesadelos de fantasmas de quem nunca sequer morreu, ele a segurar, a acalmar, a proteger.
Ela disse muitas coisas, tantas palavras. Ele ouviu sempre com atenção, tentou perceber tudo e no fim só percebeu que não havia nada para perceber. Só ela assim, desajeitada de coisas a doerem lá dentro, alegrias em risos histéricos e entusiasmos nos olhos arregalados. Tempestade de chuva quente, com trovoadas e arco-íris. E a magia dos abraços. Esses abraços em que ele se entrega inteiro e ela é toda Paz. 

O barco à deriva, cansado de navegar, deixa-se então cair quieto, agarrado a essa corda que o segura preso no fundo da terra. Porque o Amor é a melhor âncora para nos guardar na Vida.

Às vezes, ela ainda nem acredita nesta surpresa. O primeiro encontro não estava marcado e ela chegou distraída. Nem sonhava no seu coração prestes a explodir.

Ela ainda nem acredita no aconchego bom, na cumplicidade a crescer, no prazer a unir. Ela ainda nem acredita que sente tanta coisa boa lá dentro. Às vezes, quando ela fica no olhar dele, ainda nem acredita que é o Amor a acontecer.

E tudo começou naquele primeiro abraço:
- Obrigado por teres esperado por mim., ele disse;
- Obrigada por teres vindo., ela respondeu.
Afinal, já estavam à espera um do outro há tanto tempo...!



Desfazem-se os nós e ficamos nós.

Quantos segundos nos sobram?
Quero todos!


Ondas de vida

Um dia, saiu de Casa. 
Foi Lá e sentiu-se em casa. 

Regressou a casa. 
Mais ou menos.
Um regresso implica voltar ao mesmo lugar.
E nada, nunca mais, foi esse lugar.
A Casa de onde partiu recebeu-a sem paredes e sem chão. Janela inteira a lembrar o mundo. Portas abertas a novas viagens.
Voltou a sair de Casa rumo a um outro Lá que também era casa; e depois outro e outro.

Não sabe explicar, porque não percebe. Encontra-se, às vezes, na poesia que dá sentido a todos os longes; segura-se nessas palavras que dão beleza à dor que incomoda lá dentro. Quando dói bonito, parece que dói menos. 

É feliz nas ondas que embalam a vida. Segue nesse barco de palavras escritas e lidas; palavras que desenham caminho, caminhos que seguem as palavras.
Nenhum ano é igual ao outro. Novas pessoas e novos lugares. Coração a reinventar-se em si mesmo. Saudades e sempre esse longe a gritar. Ondas de efémeras proximidades.
E sempre as estrelas lá no alto. Sempre luzes bonitas em todas as viagens. 

Um céu a emoldurar novos trajetos... e o que ela anseia é mesmo um regresso, mas já não sabe o caminho. O que ela quer mesmo, é descer desse barco de poesias de mundo e ser inteira naquele lugar de onde já nem sabe que (se?) partiu.
Lançar a âncora, prendê-la bem fundo. Pisar terra firme, sem calendários a marcar a próxima partida. Sorrir, respirar e ir devagar. Ficar.

Das Línguas

Chovia de leve; constante e sem ameaçar parar, a chuva era a banda sonora que lembrava esse choro dorido de quem já gastou demasiada energia a sofrer.

O palco abrigado e eles para contarem uma história. Refugiados. Gente sem terra numa Terra que é de todos. E guerras. Guerras de ninguém. Guerras de todos!

A chuva continua a cair num ritmo que embala a história e envolve o palco. Refugiados. É teatro, mas antes que te expliquem, percebes que é real. Uma autenticidade assim não vai lá com ensaios!
Usaram palavras portuguesas, mas vestiram-nas de diferentes pronúncias desses lugares que deixaram de ser casa. E cada palavra era mais mundo.
Também disseram coisas que eu não entendi; outras línguas nas quais não fui capaz de reconhecer significados, mas bebi o sentido nas lágrimas que se misturaram na chuva.

E depois a identidade. A pertença. As roupas que vestimos nas personagens que são reais, em palcos que são vida a sério sem encenação.
De que língua é a tua identidade?

Mais do que uma língua para comunicar, precisamos do silêncio que olha no fundo dos olhos de qualquer pessoa e se encontra inteiro lá dentro.
Há algo em nós, seres humanos, que será sempre encontro sagrado. Somos uns nos outros. Somos uns pelos outros. E somos outros. Somos. 

Agora

E as ondas do mar trazem-me à praia. Morta. 
As ondas do mar trazem gente, essência da minha, eu deles, nós todos uns dos outros.
Somos todos nós a seguir embalados pelas ondas do mar. Todos nós. 
uma Humanidade: é a minha Humanidade, é a tua Humanidade, é a Humanidade que partilhamos. Todos. E é nela que morremos em ondas que embalam vidas mortas, em ondas que entregam à praia o sofrimento que vem lá desses outros continentes. 
Demoramo-nos nestas imagens, mas o mais grave não é sequer o que está a acontecer nas marés do Mediterrâneo. O mais grave continua a acontecer nesse longe de onde as pessoas fogem.
E ainda bem que fogem. Ainda bem que se querem salvar. Ainda bem que não desistem da vida. E ainda bem que nos incomodam no seu caminho de sobrevivência. Talvez um dia não precisem fugir.

E é o mar o grande herói. Que traz as pessoas para perto. Que traz a morte e o sofrimento para um continente que fingia ignorar o que se passa ali ao lado. As ondas do mar são como binóculos. Obrigada, mar. Agora é quase impossível ignorar.
Já quase ninguém aguenta novas imagens de famílias desesperadas. Já quase ninguém aguenta ver-se a morrer enquanto humanidade numa praia qualquer. Já quase ninguém aguenta o medo no momento da fuga. Quase, porque ainda há quem se sente confortável na sua vida, sem angústias de mundo na alma. Mas esses não nos importam agora. Já quase ninguém aguenta. Que bom! Era preciso um dia deixarmos de aguentar.
Mas este mar é também berço, maternidade. Poderá ser. Poderá ser este o momento de se sentir Humanidade. É que tudo nos dói aqui tão perto e, afinal, somos tão comuns! 

E não importa o que falhou até aqui, não faz mal ser só agora esta atenção ao outro, não faz mal termos demorado tanto. Não faz mal; já passou. Se é agora, que seja agora. 

Outra vez.


Já não há Governo na Guiné-Bissau. Outra vez.
A luta pelo poder ganhou. Outra vez.
As pessoas estão cansadas e descrentes. Outra vez.
A ajuda internacional vai limitar drasticamente os apoios. Outra vez.
O desenvolvimento que estava a acontecer nos últimos meses vai retroceder. Outra vez.
Os agentes de cooperação verão o seu trabalho fugir num vazio repetido. Outra vez.
O coração dói-me de Guiné. Outra vez.

Estou zangada, triste, revoltada. Penso nas minhas pessoas, todos os meus pedaços de Guiné-Bissau e queria dizer-lhes que isto é tudo mentira. Não acredito que isto está a acontecer. Outra vez!
Mas não faço nada. Reclamo. Escrevo. Contesto. 
Quieta de ações.

Nas últimas duas semanas e meia, há ratinhos a passear lá em casa. Esquecem-se os problemas do mundo e tudo gira à volta desse drama doméstico e do pânico ridículo e incapacitante. Veneno aqui e acolá, várias viagens à drogaria, mais uma ratoeira. Não desisto e continuo à procura de alternativas que me possam resolver o problema definitivamente.
Se os problemas do mundo fossem ratinhos na minha casa, talvez não dormisse até os resolver; talvez procurasse todas as estratégias possíveis, pedisse ajuda à família, aos amigos e aos vizinhos e mobilizasse toda gente na procura de uma solução. 

Fico a pensar que as guerras, os conflitos, as violações dos direitos humanos, deviam todos acontecer nas divisões das nossas casas. Espécies de hologramas indesligáveis que não nos deixassem viver o dia-a-dia. Gritos de morte a acordarem-nos durante a noite; militares de cara fechada e armas apontadas a nós, bombas a explodir regularmente enquanto descansamos no sofá a ver televisão ou quando tomamos banho pela manhã.
Talvez assim nos uníssemos a sério. Talvez assim a nossa preocupação com o mundo tivesse espelho em ações concretas com repercussões efetivamente positivas. Talvez o mundo fosse Mundo.
Talvez.

E a culpa é minha. A culpa também é minha. E tua. E de todos.
Sinto a culpa e não faço nada. Reconheço a minha responsabilidade e não faço nada. Deixo os dedos saltarem no teclado do computador, mas não faço nada. É só mais um texto a divagar, sem caminhos nem soluções; um conjunto de linhas para aliviar um pouco desta angústia cá dentro que dificulta a respiração. E vou continuar sem fazer nada. Outra vez.

Ubuntu

Ubuntu.
Eu sou porque tu és.

Viver em sociedade implica pisar o mesmo palco que muitos outros atores, sem que haja possibilidade de estudar o “guião” previamente. Quem é, afinal, o Outro com o qual me cruzo no palco? Qual é a sua essência? E de que tamanho é este palco? É sociedade enquanto cidade? Nação? Humanidade?
Antes, respondamos a uma questão ainda mais básica:
Porque tenho que me relacionar com o Outro?
Será que é possível viver individualmente? Sem qualquer relação com Outro?
No limite, a relação com o Outro explica-se pelo próprio egoísmo da felicidade; e a felicidade basta-se pela relação com o Outro. Qual será, na verdade, a maior vantagem que posso obter desta relação? Não serão a cumplicidade e o afeto? Não reside no Outro a verdade da minha humanidade? Parece claro que sim. É intuitiva a semelhança que nos aproxima de todos os seres humanos e as diferenças que nos fazem iguais na medida de cada diferença.
A humanidade do Outro coincide com a minha e reforça-a. Sem o Outro, posso viver, posso viver a vida biológica, mas não posso viver humanamente.
Toda a vida humana é relação com o Outro.
Fora do contexto relacional, a vida humana perde a sua consistência. O homem só se cumpre e adquire realidade humana quando participa de relações recíprocas.

Ubuntu.
Eu sou porque tu és.

Como deve, então, ser esta participação? Como posso salvaguardar a diferença do Outro na minha relação com ele?
A humanidade partilhada pelos homens, deve lembrar que eu não sou mais humano que ninguém. O respeito pelo outro implica, antes de mais, permitir que ele seja diferente de mim.

Sou parte de um Nós, maior do que Eu e maior do que o Outro; e este Nós deve ser expandido, paralelamente a uma solidariedade que evolui, em consequência do acolhimento de diferenças culturais, religiosas e raciais. Dentro desse Nós cabem todas as diferenças que os seres humanos comportam. O Nós está, aliás, muito mais nas diferenças do que nas semelhanças, porque é um conjunto, uma reunião, não de mesmos, mas de outros. E é essa a verdadeira riqueza: a diversidade, a mistura, a compreensão, o respeito, a cumplicidade. A Humanidade.

Ubuntu.
Eu sou porque tu és.

Sempre

Abuso da palavra sempre. E abuso sempre. Quem me conhece já percebe o sentido. Quem não me conhece, não percebe bem o que eu quero dizer.
O sempre não existe. Pelo menos não esse literal. Esse da eternidade que se concretiza apenas na poesia, na intensidade, nos instantes (por vezes até os mais breves).

Como a história de Amor mais bonita do mundo. Não. Aqui não estou a exagerar nas palavras. É mesmo Amor. E é mesmo o Maior.
Sempre é tudo que tem Amor. Tudo que é incondicional. Sempre.

Lembro-me de nas primeiras aulas de Religião e Moral, no 5ºano, fazermos um trabalho intitulado "Eu, uma história de amor". E lembro-me de sentir orgulho nos meus pais e de me sentir, realmente, uma história de amor.
Mas ele é uma história de amor maior. Tão inexplicavelmente desejado. Tão profundamente amado. Não foi a vida que o trouxe. Foi ele que trouxe Vida.
E agora, a celebrar 10 anos de calendário duma gravidez que nos cresceu na alma, alguém me perguntava: "Parece que foi ontem, não?"
Não. Parece que foi sempre.