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Devolução

Abriu a época de saldos.
O valor dos seres humanos parece descer cada vez mais e é preciso definir regras para gerir toda esta mercadoria de gente. 

Juntam-se alguns outros seres humanos, daqueles de melhor qualidade, mais caros. Sentam-se confortavelmente em cadeiras de pele à volta de uma mesa. Olhares consternados de quem tem sérios problemas para resolver. Imponência de quem é Deus na decisão de destinos e de vidas.
"É para devolver!"
E eles chegam. Barquinhos pequeninos a transbordar de gente que desafia a sobrevivência. Então é assim: quem não morreu na travessia nem na emoção da chegada, volta para a Turquia. Foi uma boa solução encontrada. A possível. A única possível, claro está. E todos cheios de boas intenções. Por cada criatura dita humana que se devolve, os senhores do outro lado podem mandar uma da mesma espécie, que já estivesse à espera de caminhos. Só assim se consegue gerir esta confusão desenfreada!

Ai! Era o que mais nos faltava, a nós, pobre europa, ter que resolver os problemas desta gente de outros continentes. Nós que nem temos nada a ver com isto! Já muito fazemos nós! Já muito fazemos nós!

Não trazem fatura nem um recibo agrafado na orelha. 
Cometem o crime da esperança de uma vida melhor, de fugir do terror, de sonhar com paz.
São devolvidos e trocados por outros. Cromos de uma caderneta de líderes políticos. Toma lá estes 400 e mandem então 400 dos que já estavam aí. A ver se esta gente aprende que não pode ser assim à toa. Lá porque fugiram a arriscar a vida num pedaço de plástico sobrelotado, em ondas desconhecidas e noites frias, lá porque guardam no olhar e na alma sofrimentos inimagináveis. É lamentável, de facto. Mas não há mais que se possa fazer!

Por falar nisto, ando há dias para ir devolver uma camisola... Acho que já passou o prazo. Que chatice! Lá vão os 20 euros, que aquilo não me serve. 
Pena não ter comprado uma pessoinha, dessas de pouco valor, que vêm com os amigos nos barquinhos. Era mais fácil devolver.

Quando não estiverem tão atarefados, devolvam-me a mim também, por favor.
Sou tão boa como vocês. Revolta vestida de ironia e sarcasmo, e sempre o silêncio das ações.



Outra vez.


Já não há Governo na Guiné-Bissau. Outra vez.
A luta pelo poder ganhou. Outra vez.
As pessoas estão cansadas e descrentes. Outra vez.
A ajuda internacional vai limitar drasticamente os apoios. Outra vez.
O desenvolvimento que estava a acontecer nos últimos meses vai retroceder. Outra vez.
Os agentes de cooperação verão o seu trabalho fugir num vazio repetido. Outra vez.
O coração dói-me de Guiné. Outra vez.

Estou zangada, triste, revoltada. Penso nas minhas pessoas, todos os meus pedaços de Guiné-Bissau e queria dizer-lhes que isto é tudo mentira. Não acredito que isto está a acontecer. Outra vez!
Mas não faço nada. Reclamo. Escrevo. Contesto. 
Quieta de ações.

Nas últimas duas semanas e meia, há ratinhos a passear lá em casa. Esquecem-se os problemas do mundo e tudo gira à volta desse drama doméstico e do pânico ridículo e incapacitante. Veneno aqui e acolá, várias viagens à drogaria, mais uma ratoeira. Não desisto e continuo à procura de alternativas que me possam resolver o problema definitivamente.
Se os problemas do mundo fossem ratinhos na minha casa, talvez não dormisse até os resolver; talvez procurasse todas as estratégias possíveis, pedisse ajuda à família, aos amigos e aos vizinhos e mobilizasse toda gente na procura de uma solução. 

Fico a pensar que as guerras, os conflitos, as violações dos direitos humanos, deviam todos acontecer nas divisões das nossas casas. Espécies de hologramas indesligáveis que não nos deixassem viver o dia-a-dia. Gritos de morte a acordarem-nos durante a noite; militares de cara fechada e armas apontadas a nós, bombas a explodir regularmente enquanto descansamos no sofá a ver televisão ou quando tomamos banho pela manhã.
Talvez assim nos uníssemos a sério. Talvez assim a nossa preocupação com o mundo tivesse espelho em ações concretas com repercussões efetivamente positivas. Talvez o mundo fosse Mundo.
Talvez.

E a culpa é minha. A culpa também é minha. E tua. E de todos.
Sinto a culpa e não faço nada. Reconheço a minha responsabilidade e não faço nada. Deixo os dedos saltarem no teclado do computador, mas não faço nada. É só mais um texto a divagar, sem caminhos nem soluções; um conjunto de linhas para aliviar um pouco desta angústia cá dentro que dificulta a respiração. E vou continuar sem fazer nada. Outra vez.

Ubuntu

Eu sou porque tu és.















Eles são diferentes. São tão diferentes!  Diferentes países,  idades, profissões.  Diferentes ideias, diferentes tamanhos, diferentes pronúncias.
E é essa mesma diferença que os torna absoluta e profundamente iguais. Confundem-se na alegria confiante, nos olhos sonhadores e nas mãos agitadas à procura de acções para concretizar o outro, todos os outros, razões de cada dia que amanhece, de cada pedaço de ar que inspiramos. 
Levamo-nos uns aos outros em cada célula e é só quando nos reconhecemos como família gigante que o universo nos abre as portas à vida.
Não se distinguem misturados em multidão atenta às inspirações, porque são juntos. São humanidade enquanto nação e rasgam essas fronteiras artificiais em pontes de amor.
Eu sou porque tu és.

Encontraram-se lá no alto, com o mundo aos pés, a mostrar-se bonito em ondas de mar a beijar areia, a chamá-los para esse afeto guardado em cada um à espera de explodir na comunhão dos reencontros. Porque cada pessoa que conhecemos é, afinal, um reencontro. Eu sou porque tu és.

Aqueceram a areia da noite com o calor dos corpos contentes. Conversas cruzadas, dedos a dançar em cordas.
Lá em cima as estrelas, mas o céu sentou-se mesmo ali ao lado e cantou com eles.
"Ke ki mininu na tchora?" A Guiné aqui tão perto. Depois Cabo-Verde. E afinal era o todo o mundo que cada um carregava em si!
Eu sou porque tu és.

Há instantes que agregam despedidas e reencontros, saudades e novos amores. Segundos que são todos os calendários, pessoas que nos devolvem os que não estão cá, lugares que são todos os sítios que pisamos em entrega. E a sofreguidão de viver acalma-se cá dentro, porque bebemos o mundo e há sempre mais mundo para beber. Há sempre mais mundo para conhecer e partilhar. Só para descobrir, no fim, que o mundo esteve sempre dentro de nós.
A Academia Ubuntu é esse instante. A Academia Ubuntu são essas pessoas. A Academia Ubuntu são todos esses lugares.
Eu sou porque tu és.

E ela, perdida na sua inquietude infantil, encontra-se nesse novelo de gente. E o coração deixa de doer da angústia do caminho. E volta a acreditar que é possível. O Mundo é possível! Mas só assim faz sentido. Só assim.
Como quando queremos cantar a nossa música preferida mas, desafinados que somos, não ousamos soltar a nossa voz sozinha. Erga-se um coro de vozes e lá estaremos nós a cantar também. Juntos não desafinamos. Fica uma só voz, inteira de mundo.

Ubuntu. Eu sou porque tu és.

O que é

que podemos fazer?, ela pergunta.
E pergunta como quem quer saber a resposta; não é uma pergunta retórica de quem vai dormir descansada porque afinal não há nada a fazer.
O que é que podemos fazer?
É uma pergunta de quem não deixa de dormir, mas acorda com esta preocupação.
O que é que podemos fazer?
É uma pergunta de quem não deixa de rir e dançar, mas trocaria tudo para seguir nesse caminho novo rumo a soluções.
O que é que podemos fazer?
É uma pergunta de quem não tem uma estratégia definida , mas seria a primeira a deixar tudo para tentar tudo.
O que é que podemos fazer?
É uma pergunta de quem fala baixinho, mas gritaria até ficar sem voz, chegasse a revolta para calar os tiros.
O que é que podemos fazer?
É a pergunta de quem não tem um plano, mas tem ideias; de quem não tem poder, mas tem vontade; de quem não acredita no sistema, mas confia no mundo.

É esta pergunta (ainda) sem resposta que ecoa como mantra pelos dias. E é existirem pessoas que não desistem de fazer esta pergunta que me faz olhar o mundo com os olhos vidrados pelo cliché da esperança.

O Mundo é possível!
Assim o queiramos. 

Je suis Charlie



Eu sou o Charlie, porque aparentemente isso tem mais valor do que ser uma criança sem nome algures na Faixa de Gaza.
Eu sou o Charlie, porque a liberdade de imprensa é mais importante do que a liberdade religiosa.
Eu sou o Charlie, porque jornalistas apanhados desprevenidos no local de trabalho são mais importantes do que pessoas mortas numa explosão num mercado local.
Eu sou o Charlie, porque o pânico vivido nas escolas em Paris é mais grave do que o terror quotidiano que se vive na Síria.
Eu sou o Charlie, porque os jornalistas franceses são mais importantes que os jornalistas da Guiné-Bissau.
Eu sou o Charlie, porque a Paz é mais necessária em Paris do que na Nigéria.
Eu sou o Charlie, porque a morte de 12 jornalistas é mais importante do que o número mínimo de 30 mortos por dia na Síria, num total de cerca de 76 000 só no último ano.
Eu sou o Charlie, porque a destruição da redação de um jornal francês é pior do que as mais de 20 000 casas destruídas na última guerra em Gaza.

Eu sou o Charlie, porque repetidamente me esqueço que há mundo para além das fronteiras ocidentais.

Dia de África

Hoje é dia de África.
É dia da terra vermelha, do calor.
É dia do princípio do mundo, da génese da humanidade.
Hoje é dia da alegria, dos sorrisos, do acolhimento.
É dia da música e da dança.
Hoje é dia do pôr-do-sol gigante de laranja e do céu inacreditavelmente estrelado.
Hoje é dia da paz que vive dentro das pessoas.
É dia dos banhos de chuva e dos banhos de caneco.
Hoje é o dia das crianças que o são apenas no sorriso envergonhado.
É dia do amor que se descobre em surpresas, do afecto que se esquece de ser.
Hoje é dia do cheiro que ninguém explica, partilhado apenas na cumplicidade de quem sabe.
Hoje é dia da água mais saborosa, porque mata a sede como em nenhum outro lugar é possível.
É dia do mistério místico desta ligação ancestral que todos sentem, deste viciar saudável de quem experimenta.
Hoje é dia das pessoas, da simplicidade, da essência.
E hoje é um dia. É só mais um dia.
Hoje não é dia de África.
Todos os dias são. E não há intervalos. Nem férias.
Todos os dias são dias de sobrevivência e de festa, as duas em simultâneo a maior parte das vezes.
Todos os dias são dias de cantar e dar graças, mesmo que não haja voz nem motivos para agradecer. E há sempre motivos para agradecer.
Hoje não é dia de África. Todos os dias são.
Sabe-o quem está cá. Sabe-o quem veio cá. Porque nunca mais se é a mesma pessoa. Há novas cores a brilhar nos nossos olhos. E não há um dia em que isto não se celebre ou se lamente (mais uma vez, quase sempre em simultâneo).
Quem veio a África e não voltou outra pessoa, não veio a África. E esta transformação acontece desde o primeiro instante, ainda que imperceptível talvez, por ter lugar no mais profundo de nós, onde nem sempre arriscamos mergulhar.
Hoje não é dia de África. Todos os dias são.

Pequenez

Tenho pensado em como preciso ser maior. 
O mundo é uma caixa de desafios e às vezes sinto-me esmagada pela complexidade de alguns. O primeiro instinto é ignorar, olhar para o lado, fingir que não percebo. Depois acabo sempre perdida em reflexões vazias de respostas e volto a fingir o meu desentendimento. Ainda que nem precise fingir muito, porque a maior parte das vezes não percebo mesmo. E quando percebo, vejo soluções tão simples, que fico a pensar que talvez não tenha compreendido realmente o problema.
Vivo entretida a tentar fazer alguma coisa, realizada por me sentir a viver o meu sonho, feliz por alguém o ter escolhido por mim, pois certamente eu não saberia escolher tão bem. Mas o sonho é maior que a sua própria vivência e eu sou mais pequena que a realidade. Tão pequena que não consigo sequer tornar real o sonho que vivo. Serei eu digna deste sonho se me limito a sonhá-lo?

Na verdade, sinto-me absolutamente inteira na minha pequenez. Então talvez me falte apenas essa humildade: reconhecer o meu tamanho enquanto o vivo em plenitude. Concentrar-me nas minhas pequenas e invisíveis tarefas e depositar nelas o entusiasmo e a dedicação de uma odisseia. Se é isto, fico tranquila na minha alegria grande de vida e prometo seguir atenta. 
Mas, ao mesmo tempo, assusta-me o quão facilmente nos contentamos com a nobreza dos nossos actos, com o "fazermos" a nossa parte". É isto que dizemos a nós próprios em momentos de frustração; é isto que dizemos aos outros quando os vemos desanimados. E a verdade é que traz sempre um efeito apaziguador. Ficamos em paz e continuamos o nosso caminho.

Eu confesso: sinto-me tão bem nas coisas pequeninas! Que acho que procuro apenas argumentos para me manter ocupada e feliz com elas... E quando olho para o mundo, repito a mim mesma esse cliché fofinho: "Estou a fazer a minha parte." 
Depois tudo ficaria bem, não fosse essa voz que diz baixinho: "E se não for suficiente?"

Longe de utopias

Ele é piloto. Está a trabalhar para um hotel, numa ilha, num país. Transporta clientes entre a ilha e a capital. Transporta também as suas malas. Uma vez transportou não-sei-quantos quilos de ouro. O inglês "gold" e o barulho de um bar nessa capital fizeram-nos ouvir "droug". E afinal não ouvimos assim tão mal. Desconfia que, sem saber, transporte droga. Só não tem a certeza, porque assim é mais fácil dormir à noite. E porque, na verdade, está só a fazer o seu trabalho, cuja responsabilidade se encerra em pilotar um avião. 

É assim que o mundo segue. É assim que as pessoas dormem à noite. É assim que nada muda. É assim que se perpetua a pobreza e a estupidez num país que tem as melhores pessoas do mundo e os piores dirigentes, ricos por fazerem parte do mais lucrativo e destrutivo negócio do mundo.

E ele é um rapaz simpático, atraente, algo angustiado por essa "dúvida". Mas está a fazer o seu trabalho. E atira para um canto essa questão do eventual transporte de drogas, e dessa vez que transportou armas e só percebeu depois, porque em Maio vai embora, e até lá há sol e praia e piscina e vinte filmes por semana para não sobrar tempo para a consciência pesar. E porque pode sempre distrair-se com as malas dos clientes, que são apenas isso, bagagem de turistas.

No fim da noite, já perto da manhã, volto a lembrar esse rapaz que só pilota um avião. Se não fosse ele, seria outro. Mas não consigo deixar de julgá-lo por não fugir e ir pilotar outros aviões. Porque conheço as caras, os nomes, as vozes, de quem luta diariamente para sobreviver num país de gente cansada de aviões entre as ilhas e a capital, raiz da eterna instabilidade; segredo mal guardado, que ninguém é ignorante deste assunto dito apenas nas entrelinhas.
E porque me irrita a minha pequenez invisível, a minha incapacidade. Porque me dói não ser nem um pouquinho melhor do que esse jovem piloto. Porque depois desta conversa fui dançar e rir. E porque agora não consigo dormir. Porque quero outro mundo, mas não sei o caminho. Porque quero outras acções, e o meus gestos ficam-se nestes dedos sobre o teclado. Porque quero utopias e me fico pelo banal. Porque explode em mim um sonho, mas não consigo sequer adormecer para sonhá-lo. Acordam-me as pessoas. As que conheço e as que nunca vi. 
E queria só ser um pouquinho mais inconsequente, menos resguardada, e sair por aí a gritar. Mas sou só mais uma aqui no meio... Que contesta, que se revolta, que vence o cansaço a pensar neste assunto, mas acaba por se deixar vencer pelo sono.

Calar

Às vezes é preciso calar. O medo faz engolir palavras, mudar de assunto. 
É uma sensação estranha. Deixar de dizer. Ler nos olhos do outro as palavras que cala. E sentir nele uma calma imposta por uma resignação forçada, por um cansaço repetido e gasto, porque não "vale a pena" e há uma família para sustentar e um dia-a-dia para gerir o pouco, sempre demasiado perto de fronteiras com o nada.

Quando me perguntam como vão as coisas por aqui, digo que está tudo tranquilo. Depois de meses em que um simples grupo de jovens a correr na rua nos fazia saltar o coração, em que os militares na estrada nos faziam baixar a cabeça e obedecer a ordens ridículas pelo peso da arma comprida pendurada no ombro... Contentamo-nos com a tranquilidade, mesmo que isso não traga nada de bom à vida das pessoas e ao desenvolvimento do país.
Já não há grupos de militares a pararem-nos no caminho entre e Bafatá e Bissau umas quatro vezes. Mas o que mudou mesmo foi a nossa postura. Desistimos de actualizar os blogs do costume várias vezes ao dia e abolimos das conversas as horas intermináveis de análises e especulação. Não o fizemos por leviandade, mas porque percebemos que isso não nos acrescentava nada de bom. Aos poucos, (re)centrando o nosso olhar e o nosso esforço no trabalho que nos trouxe aqui, nas pessoas que nos dão sentido aos dias, dedicamo-nos ao que realmente podemos fazer, pouco que seja, sempre maior que o vazio das contestações em círculo  que não sabemos transformar em algo útil e produtivo.

Nestes últimos dias, em sessões de formação em que discutíamos o sistema de ensino na Guiné-Bissau e os principais constrangimentos que o fragilizam, a conversa caiu inevitavelmente nos problemas de sempre, que os formandos evocavam em meias palavras, em quase-frases, prolongadas apenas com a extensão que lembra que "não podemos dizer tudo", "isto é melhor não dizer em público", acompanhadas de expressões de frustração já perdida de sentido e caminhos. 
Mas quando a revolta é maior do que o medo, e as coisas se dizem, parece que querem rapidamente voltar ao silêncio. O alivio de quem desabafou e gritou perde a batalha com a tristeza do confronto com a realidade nua, sem as roupas meio esfarrapadas que lhe vestimos para tapar o que nos choca. Porque dizer as coisas que todos sabem escondido em si, torna real o que fingimos ignorar, desmascara a paz em que  nos "ingenuizamos"  para acreditar. 
Então fazemos um intervalo - metafórico e literal ao mesmo tempo - e regressamos ao investimento no possível e a saborear a tranquilidade que se vive, independentemente do que ela esconde. 
Porque quando não há paz verdadeira, até uma de faz-de-conta nos serve.

Cooperação


"Os que asseguram que é impossível, não deveriam interromper os que estão a tentar."

Igualdade? Justiça? Paz?
A verdade é que, no fundo, nem mesmo nós sabemos se é possível. Mas isto é segredo, não contem a ninguém. Não sabemos, mas não queremos aceitar que não o seja. E não nos obriguem a aceitá-lo. Também vocês não têm a certeza de que é impossível. Não sabemos. Ninguém sabe.
Então, fazemos assim, meio termo encontrado para ninguém se chatear: nós não vos obrigamos a lutar por algo em que não acreditam e vocês não nos obrigam a desistir de algo em que acreditamos. E continuamos todos amigos e com muito para falar, que o que não falta são temas de conversa, e há tanto em que concordamos, e tanto mais em que as nossas discordâncias nos fazem crescer.
Mas nisto não... Nisto são vocês a repetirem que os nossos esforços são inúteis, contraproducentes até. E nós, apesar de nos debatermos no conflito permanente entre a entrega e a frustração, entre preserverar e desisitir, queremos continuar. Se fosse para desistir, já o tínhamos feito há muito. São tantos os obstáculos a ultrapassar que, transpostos estes, não são os vossos argumentos insistentes que nos vão tirar do caminho.
Há quem ache que somos os maiores do mundo, há quem ache que somos uns aventureiros apenas, há quem ache que somos sonhadores inconsequentes. Podemos apenas ser? Podemos apenas ser pessoas como outras quaisquer? Com uma profissão qualquer? Podem não se demorar em nós só para dizerem que o que fazemos é inútil? Podem parar de tentar convencer-nos que é impossível? Se não ajudam, pelo menos não atrapalhem. Se não constroem, pelo menos não destruam.
Deixem-nos encher os dias de poesia, de clichés até. Deixem-nos acreditar, deixem-nos trabalhar. Não precisam elogiar. Prefiro até que não o façam. Mas deixem-nos descansar a frustração nos exemplos que nos inspiram a continuar. Deixem as convicções e os ideais seguirem sem serem constantemente atacados.
E não se ofendam com o que digo. Não o digo apenas a vocês, mas também a mim. E uso-vos, a vocês sem nomes e sem caras, de muitos nomes e muitas caras, para defender aquilo em que acredito. Porque às vezes, quase precisamos que nos contestem para que, num impulso de defesa, aumentemos a confiança em nós próprios.
Eu, confesso, também queria acreditar, ter a certeza de que era impossível. Ai, ia ter tão mais com que me entreter! Mas não... Não consigo, não quero, ainda, não já, desistir. Preciso tentar.
Quase como os adolescentes que vemos a descobrirem o mundo e a vida. Não vamos sentar o adolescente de 15 anos, olhá-lo nos olhos e dizer-lhe: "Eu sei que estás muito apaixonado, mas olha que o mais provável é que isso não dure tanto quanto pensas e que venhas a sofrer horrores com o fim do teu primeiro amor! Mais vale termirares já essa relação." Não fazemos isso. Primeiro, porque seria demasiado cru, demasiado duro; são aprendizagens da vida que ele tem que fazer, que nós já fizemos. E, segundo, porque não temos a certeza de que não será, de facto, aquele amor a acompanhá-lo até ao fim dos seus dias. E a vida não é feita de probabilidades.
Então sim, talvez seja nesse aspecto ainda uma adolescente a descobrir o mundo. Mas, se desistir, que seja porque tentei tudo o que tinha para tentar, que dei tudo que tinha para dar. E ainda assim, esperarei, no segredo do meu coração, que um outro alguém venha a tornar possível o impossível, numa das suas muitas tentativas.
Nas últimas semanas tenho estado a estudar um pouco algumas questões da pobreza no mundo, através de uma formação à distância. E não, não tive, não tenho, nem me parece que venha a ter, respostas formidáveis e novos caminhos nunca antes pensados. Mas colecciono vontades e inspirações, novas perspectivas e novas ideias, partilhadas por pessoas que têm estudado muito tudo isto, e continuam sem certezas. Ninguém consegue provar que é possível. Ninguém consegue provar que é impossível.
Mas estas pessoas continuam a estudar e a procurar porque acreditam. E eu quero acreditar com elas.
"I believe we can.
And I hope we will."
Esther Duflo

Um pouco mais que nada

Há uma semana atrás, por esta hora, regressava de mais uns dias pelas escolas do Sul da Guiné, desta vez em Empada.
Há uma semana atrás, por esta hora, vinha no caminho cansada dos dias de trabalho e formação, corpo dorido da estrada de terra vermelha inacreditavelmente esburacada, e coração pleno de paz.
Há uma semana atrás, por esta hora, não adormeci na viagem; pensava em tudo que melhorou nestas escolas, em como tinha corrido bem o trabalho e em como, ainda assim, continuava a ser preciso fazer tanto mais, tanto melhor.
Há uma semana atrás, por esta hora, chegava a casa com a sensação de que me ia lançar ao computador e escrever, escrever… mas paralisou-me a sensação de que, afinal, tinha feito tão pouco.
Há uma semana atrás, e nos dias que se seguiram, fui lembrando o Professor Braima, “sozinho na escola”, que nos recebeu no portão da escola tranquilo e sorridente. 
Consciente de todas as carências do professor e do meio escolar onde está, confesso que não esperava grandes melhorias. E que boa surpresa! Fez tudo bem. Quase tudo. Tanta coisa! Até o mapa de docentes onde só o seu nome consta, até o registo de assiduidade de professores onde só ele assina e só ele controla.
Se sonhassem as dificuldades que ele passa, as condições daquela escola, a casa onde ele mora, o salário ridículo que ele recebe, vocês também iam achar que era importante escrever sobre isso. Fez tudo o que lhe expliquei na última visita, pôs em prática tudo o que foi trabalhado na formação.
E perante tamanha superação, tamanha entrega, tamanha dedicação, fica ainda menor o que damos, o que eu dou. O que fazemos, o que eu faço.

É só um pouco mais que nada. E é tão pouco que às vezes é mesmo quase nada. Mas nunca é nada. Apenas pouco.
Mesmo quando acreditamos muito, quando trabalhamos muito, quando pensamos muito, quando desejamos muito, quando procuramos muito, quando amamos muito. É pouco.
Como gotas. Gotas de água que se somam num compasso demasiado lento.
Não matam a sede.
Nem sequer a minha.
Tudo é tão pouco.
É preciso mais.
Mas eu não sei o quê. Ainda.
É preciso uma chuva de gotas. Um torrente de acções, de entrega.
Somar gotas não é suficiente. É preciso multiplicá-las.
Tenho sede.
Tenho tanta sede…

Ainda assim, nestes dias não há nada melhor - nada melhor! - do que chegar à noite feliz pelo cansaço no corpo e na mente. Cansaço bom de quem deu tudo e fica ainda mais repleta, cansaço de energias gastas e coração cheio. Pela paz serena e pela certeza do caminho. E inquietude. Sempre inquietude.

Há uma semana atrás, por esta hora, era assim que esvaziava a mochila de roupa e papéis. A cabeça cheia a pensar no pouco que foi o tudo de mim. Coração inquieto a querer mais.

Erradicação da pobreza

Hoje é o dia da Erradicação da Pobreza.
É só mais um dia?



Num mundo de crise económica, de aumento do preço de combustíveis, de acréscimos constantes em tudo que é imposto, de desemprego, de insatisfação social profunda... a pobreza torna-se mais evidente, mais próxima, mais real.
O que fazer na nova pobreza que está a surgir?
Talvez responder a isto ajude a resolver também a pobreza mais antiga, mais profunda.
E hoje, provavelmente por todo mundo, há eventos apropriados ao dia, há seminários a discutir o assunto, há sessões de sensibilização. Nenhum pobre fica menos pobre. Ou ficará?
Mas é bom que se pare e pense. Nem que se repitam as reflexões, nem que parecem impossíveis conclusões. Quando tudo o que se pode fazer é pouco, que se faça esse pouco. Nunca nada!
Um dia, depois de tanto andarmos em círculos, depois de tanto escrevermos as mesmas teorias, um dia, depois de mais umas quantas manifestações, de outras tantas imagens chocantes nos telejornais, um dia, depois de tantos outros dias, somados todos os esforços, vamos estar mais perto...
Até lá, continuemos, como podemos. E quando isso não for suficiente, continuemos como não podemos.
É... o mundo parece não ter muitas razões para nos animar nos dias que correm.
E logo aqui começa a nossa responsabilidade: vamos nós animar o mundo!
Tudo começa com um pouco de bom humor que ajuda a relativizar; com um sorriso que desenha outros, com uma ação motivada que convida mais braços a erguerem-se. 
Enfrentemos as dificuldades com seriedade, mas de sorriso no rosto. Exijamos mais, mas não só para nós, para o mundo. Mas exijamos!
Falo de contentamento, mas não de nos contentarmos. Isso nunca!
Agora, vamos pensar: atravessar as dificuldade de mau humor, cabisbaixos, sem esperança? Ou atravessá-las em boa companhia, com boas conversas, com gargalhadas soltas e contagiantes? O caminho é o mesmo, mas os passos seguirão mais ritmados.
Até a montanha mais alta tem o seu cume. E se caminharmos juntos, será um passeio!  Há conversas para partilhar, paisagens para contemplar... Tudo isto enquanto seguimos de passos firmes. Mas nada nos obrigada a caminhar sozinhos, sérios e calados encosta acima.
Reclamar pelas pedras maiores que temos que escalar só nos faz gastar energias desnecessárias e lentifica o nosso andar.
Sigamos de sorrisos no rosto,
Quem não quer caminhar feliz, que invente outro caminho, que ponha mãos ao trabalho e fure a montanha num túnel para o outro lado.
Alternativas, sim. Mau humor, não. Só atrasa. Só cansa.
Eu também queria (oh, se queria!) outro caminho. Um mais fácil. Um mais justo. Não estes em que uns vão a pé sem nem terem tomado o pequeno-almoço e outros seguem tranquilos num helicóptero.
Eu também queria... Continuo a acreditar que um dia vai ser possível. Continuo a dormir e a acordar com a responsabilidade de fazer algo concreto, real, com impacto positivo a longo prazo na Vida. Não na minha vida, não na tua vida, não na vida de alguns. Na Vida.
Enquanto não consigo - e sem saber se algum dia conseguirei, se terei a preservança suficiente, a inteligência suficiente, a audácia suficiente, a criatividade suficiente - sigo pela montanha como consigo. Cheia de sorte pelos que caminham comigo e sempre a tentar encher o coração de coisas boas, para que o resto não tenha espaço.
Hoje é o dia da Erradicação da Pobreza.
Um dia não vai ser dia.

Utopia na palma da mão

O que é possível?
O que é impossível?

Alguém disse uma vez: "Se consegues imaginar, é real."
E é ainda mais real quando sabemos, no mais fundo e verdadeiro de nós, que é possível.
É difícil, oh sim, é muiiito difícil. Mas é possível.
E não é isso que nos faz acordar de manhã e seguir pelos dias feliz e confiante? A mim é.

Mas às vezes não chega pensar, desejar. É preciso agir.
O que fazer quando não sabemos o que fazer?
A minha resposta foi: escrever!
E porquê?
Acima de tudo para não esquecer.

Um dia, pedi à minha mãe: "Por favor, se algum dia vires que me estou a acomodar, lembra-me dos meus ideais, lembra-me de quando eu acreditava que era possível lutar por um mundo melhor. Não deixes que me esqueça. Nunca me permitas que desista."

Atirar-lhe esta responsabilidade deixou-me mais tranquila. Mas a verdade é que tem que começar em mim.

Utopia na palma da mão é isso mesmo. Essa coisa quase imaginária, mas real, se o quisermos. Se formos ainda mais a querer.
Às vezes, quando estou muito atenta, vejo utopias que deixam de o ser, vejo o esboço de caminhos seguros... Mas depois vem a  vida, e distrai-me.
E outros dias, mesmo distraída, sou surpreendida pelas belezas mais inexplicáveis.

Quero aqui pensar sobre essas utopias, esses caminhos. Quero aqui partilhar os pequenos milagres do dia-a-dia que são ponte para novos sonhos, que não inspiração para novas lutas.

Se não conseguir mudar nada, que nunca seja porque deixei de acreditar, que nunca seja porque deixei de tentar.