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Os avós. A filha. Os pais.

Cresci enternecida e aconhegada pelo amor dos meus avós. Mimo em exagero, colo maior que o chão, beijos que faziam luz e abraços que dão a paz que só existe nas histórias de encantar.

Ainda não me habituei verdadeiramente a viver inteira sem este amor, ainda há um vazio que grita baixinho, som de fundo que já não incomoda, mas que lembra essa ausência. E não faz mal. Trá-los perto nesse dentro onde me habitam, onde moram em tudo que me deram, me fizeram.

E é no meio desta saudade que nasce a Mafalda. Bebé muito desejado, coração a crescer ainda mais do que a barriga ao longo de 9 meses, espaço para amar mais e mais... mas afinal não é preciso espaço, porque este amor é maior que o seu tamanho, e não se mede, mas cresce sempre, voa gigante a fugir do peito e volta a descansar, o universo inteiro pousado no colo. Náo é um amor que rasga limites, porque eles simplesmente deixam de existir. 

Neste frasco tão pequenino ainda de ser humano, cado gesto parece magia, porque acontece na nossa contemplação. O verdadeiro mindfulness, em que cada segundo é a nossa existência completa. Tudo é mais denso agora, e tudo é mais leve. É a loucura e a lucidez, tudo no mesmo instante. 

Relembro o divino. Volto a acreditar. Nada nisto é mundano. Vem desse Maior que não sei explicar, faz parte desse Tudo que somos, dessa energia que nos faz matéria em uníssono.

E não posso deixar de acreditar que os meus avós habitam nela. Que fazem parte desta essência. Que nessa viagem do princípio do mundo, antes de ser vida a crescer dentro de mim, a nossa Mafalda girou em ventos que lhe sopraram a ancestralidade mais profunda de volta à terra, de volta à existência de olhares e fôlegos, de batimentos cardíacos e suor.

São amores diferentes estes. O que recebemos e demos aos nossos avós; o que recebemos e damos aos nossos filhos. E ainda assim, estão misturados e são um só. Os meus avós. A minha filha.

E a casa? Essas paredes seguras a proteger? Esses são os pais. Os meus pais. Ponto de partida todas as manhãs, horizonte de regresso a cada final do dia. Os pais são essa estrutura, esse palco onde se desenrola a ação, essas tábuas que seguram os nossos passos a cada cena. A casa que tomamos por garantida, porque nos preocupamos com móveis e decoração. Mas antes do sofá mais confortável, do tapete mais colorido, das cadeiras a combinar... estão muros e teto, está o chão, e está essa porta sempre aberta, nessa casa sempre nossa: os nossos pais.

Os meus pais... são os avós da Mafalda. A continuação desse enredo de ternura infinito.

Os meus avós. A minha filha. Os meus pais. Tanto amor a incandescer os olhos. Tanto para viver.

Que assim seja.

Mafalda

Quando nasceste, o mundo nunca mais foi o mesmo. 
Quando nasceste, o mundo ficou igual a sempre. 
Quando nasceste, o mundo deixou de ser mundo. 
Quando nasceste, o mundo passou a ser mundo.

Foi assim esse parto de tudo e de nada, e de tanto a explodir em mim, e de tanto a serenar-me. 
Foi assim esse parto da luz mais incandescente, do escuro mais profundo, da gratidão mais incrível, do medo mais avassalador. 
Foi assim este parto de amor.

É o amor. O princípio de todos os amores que há no mundo. A fonte que é água a saciar vida de todas as formas.
Ninguém precisa da maternidade para saber o que é o amor, mas agora que sou mãe, sei que é esta a matéria-prima de tudo. O amor que os nossos pais nos impregnaram um dia. Este amor assombra a humanidade de esperança e fé. Este é o amor que nos faz continuar a acreditar, continuar a caminhar. Este é o amor que nos faz sonhar a paz.

Ver-te adormecer

Ver-te adormecer é o mundo inteiro de paz. 
Este amor brutal a dar sentido, âncora segura a prender-me por entre o mundo em mar revolto, revoltado.
Os olhos entreabertos. Esse coelhinho contente que descansa na tua mão. A música suave embala o teu sono e abafa o barulho da guerra. Tudo é paz aqui ao teu lado.

Deito-me paralela a ti e és tu todo o meu horizonte. Na hora de dormir e para o resto da vida. És o mais longe que eu vejo. A paz que aspiro.

Um dia quero saber amar assim

E para onde vai este amor?

Este saudade boa que guarda a ternura e as histórias… para onde vai este amor?

Quem me atende do outro lado do telefone como se eu fosse o mundo inteiro, o antes e o depois, o sempre inteiro infinito…Quem abre a porta e sorri de encantamento e alegria pela melhor visita que podia receber?

Para onde vai este amor? Onde encontro mãos enrugadas da vida para agarrar e não deixar que me larguem nunca? E para onde vai este amor? Para onde vai? É tanto. Para onde vai?

O vosso ficou. Está aqui inteiro. Todos os dias. Acho até que continua a crescer, a multiplicar-se, a exponenciar-se. Foi tanto que ainda é e continua.

E para onde vai este amor? Este que quero, que preciso devolver? Sou eternamente criança pequenina em egoísmo desse amor que nos eleva em pedestais de aconchego.

Não ter avós é o derradeiro teste de crescimento. É a verdadeira lição de humildade. Não somos, afinal, mais do que qualquer outro. E estávamos logo ali naquele degrau a seguir a Deus. 

Ainda que guardemos cá dentro o luxo de ter sido amados em exagero absurdo de amor, em esbanjamento de ternura e cuidado, a eternidade foge-nos das mãos.

Falta-nos a devolução. Falta-nos retribuir aos nossos avós um pouco desse imenso. Não aprendemos o invisível. Não sabemos falar-lhes nesse céu que é todo deles.

Ficam aqui dentro em amor que não pára de crescer e já não cabe em nós. Meus queridos avós.

Um dia quero saber amar assim.

meus queridos avós















O meu avô não está cá. 
Não está em lado nenhum.
É literalmente nada.
Ou uma cinza tão reduzida de gente, que mais vale aceitar esse nada inimaginável de quem foi (e ainda é) tanto amor.
O meu avô não está cá e não está em lado nenhum.
Não gosto disso.
Eu sei que é assim, que tinha 91 anos, que teve uma vida de saúde e alegrias, mas não gosto. E não quero gostar. Não tenho que gostar.
Queremos tanto seguir em frente, aceitar as nossas dores e empurrá-las bem lá para o fundo, que quase não percebemos que, mesmo que não vejamos, continua lá, a pesar-nos nesta mochila algures na nossa alma.
E fica mais difícil ignorar quando já empurrámos outras dores lá para o fundo. 

O meu avô partiu.
E com ele partiram todos os avós que foram esse amor incondicional e inesgotável. 
Sempre que um(a) avô(ó) partia, sentia que me forçava a aceitar e redirecionava toda a ternura para os que continuavam por cá. 
E o Bu Quim levou com o amor de todos no final da sua vida, mas também me amou como se todos ainda morassem nele.
E agora ele já não está cá. E agora não está cá ninguém.
E eu quero tanto que estejam.

Hoje não quero ver o lado positivo. 
Hoje não quero dizer que os meus avós são eternos em mim (que são!). 
Hoje não quero dizer que continuam vivos em tudo que deixaram em nós (que continuam!). 
Hoje não quero dizer que ainda os oiço a pulsar em cada batida do meu coração de tanto que me amaram (e, oh… se amaram!).

Hoje quero só ficar triste. 
Quero só deixar doer esta pressão absurda de saudades. 
E não faz mal. Preciso de lembrá-los. 
Preciso de rever na minha cabeça esses dias em que eles eram corpo e olhos brilhantes, abraços do melhor aconchego, certeza, paz, porto seguro, âncora, asas para voar mais alto, mar sereno, tudo e tanto, assim mesmo misturado. 
E lembrar esta imensidão é coisa que não cabe no peito. Porque é um tamanho que não foi feito para ser guardado, mas vivido. Não cabe. E por isso dói. Porque aperta, contorce, estica e rasga. 
Mas é a única forma de tê-los aqui. Então que doa. 
Vale por todas as dores que curaram.

Tantas vezes desligo a memória para evitar a dor. Hoje não. Hoje não. 
Meus queridos avós.

Faltavas tu


Faltavas tu.

No fim de um caminho lento e demorado em entusiasmos, sorrisos e ternuras, percebo que ainda me falta o teu olhar. E não há como celebrar o Amor sem ti. Ainda não tinha visto o meu avô. Olhei à volta, à tua procura. E tu estavas logo ali. Logo atrás. Pertinho. E em ti, todo o nosso céu de saudades. Agora já não faltava nada.
Não contei a ninguém. Mas tu viste que te procurei. Tu viste que a festa não podia começar sem ti. E bastava sabermos os dois. 

Às vezes ainda sinto esse salto no coração a lembrar-me para te procurar com o olhar. 
Às vezes ainda rodo a cabeça, arqueio as sobrancelhas, estico o corpo...
Mas agora olho e tu não estás lá. Por mais que te procure. 

Hei-de aprender a ver-te cá dentro. 
O invisível (ainda) é muito longe.


E afinal não soubemos só nós.
Dias depois, a prima envia esta foto.
Ela sabia. Ela viu esse olhar sôfrego de ti.
E registou esse momento.
Ela já sabia a benção que era procurar
e ver a devolução do amor com o olhar.
Sempre que olho para este fotografia, vejo o teu sorriso,
o coração fica sereno e sinto que posso celebrar a vida.
Nesta fotografia, ainda consigo ver a reciprocidade do nosso amor,
essa luz dos teus olhos que é(ra) aconhego incondicional.
Nesta fotografia, ainda és. Ainda somos.

Eternidades que acordam

Naquela noite, acordaste-me várias vezes.
Foram intervalos de sono curtos onde conseguiste trazer-me baldes de alegria e gratidão. Em memórias pouco claras no limbo dessa madrugada em vigília, vi sorrisos e abraços repetidos e atropelados; senti esse amor incondicional e constante, essa ternura quase magia, essa presença divina que os avós sempre deixam no mundo. Voltava a adormecer com a tua imagem de paz, para logo a seguir acordar com as tuas mãos a aquecerem as minhas e de novo esse amor gigante a abraçar o sono. 
Ainda não sabia se estávamos em despedida, e hei-de querer-te sempre mais, mas só conseguia pensar no tanto a agradecer. No tanto da minha vida que vem de ti, no tanto de amor que somos, no tanto, tanto, tanto.
E então, partiste.
E então, és eterno.

(Até já.)

Balanço

Ubuntu. Eu sou porque tu és. Somos.
Dias em Moçambique, dias em Ubuntu, dias em Amor.
E agora sempre?

Balanço destes dias. 
E coração a balançar.
Não sabe se vai ou se fica. 
Tem a certeza da viagem, do percurso, da âncora a aguardar.
Mas balança em vento de luz, entre um lá e um cá que só são reais na intenção.
Coração balança contente de vida. Balança pesado de inspiração. 

E neste balanço, o mais importante, é partir sem ir embora.
Fazer as malas sem esquecer nada e sem ir embora.
Entrar no avião inteira sem ir embora.
Ficar.
Ficar nos dias e nas pessoas que nos impelem a ser mais e melhores. Ficar na contemplação, no cuidado de entrega, no despojamento que deixa espaço para o mais importante. Ficar em mim. Aqui. E partir assim.
(Depois desta plenitude boa, não posso ir embora de mim.)

Fecho os olhos e há um sol a iluminar. Incandescente de paz no sentir.
Na escuridão dos meus olhos fechados, há cores a dançar. Há um silêncio solene rasgado por risos contentes e logo novo silêncio de escuta. Alegria a ressoar cá dentro. Olhos em água brilhante na emoção deste encontro tão bonito.
Adormeço em sonhos das imagens dos últimos dias, bêbada de gratidão deste Tanto imenso.

Foram dias repletos de inspiração com pessoas incríveis. Mostraram-nos um Moçambique de sonhos e caminhos, de pontes largas e sólidas a ligar todas as esperanças num mapa de novas estradas.

E nos profundos, demorados e repetidos abraços da despedida, ficámos misturados nas energias felizes de quem acredita no Mundo.

(E nada disto é exagero de metáfora ou poesia. Foi assim mesmo. Coração a explodir sereno. Tanto. Tanto. Tanto!)

Ubuntu. Eu sou porque tu és. Somos.

Estamos juntos!


segundos de Amor

Poucos dias e muito segundos (quando as histórias ainda são pequeninas, precisamos de segundos... são a única escala que lhes faz justiça), conversas à procura de conteúdo, repletas de intenção de amar, de intensidade no simples estar junto . Havia tanto para dizer, mas mais para sentir!

As conversas aumentaram de tamanho, a confundir a simplicidade boa de amar em plenitude.
É que ela tinha medo. Tanto! Do escuro, do bicho-papão, dos ladrões, dos fins, das guerras. Tinha medos com palavras que ele não percebia, com sinónimos que não vinham no dicionário, sentidos inventados de tudo o que ela ia misturando lá dentro. 
Cordas emaranhadas e ele a tentar construir um novelo. Ela em pesadelos de fantasmas de quem nunca sequer morreu, ele a segurar, a acalmar, a proteger.
Ela disse muitas coisas, tantas palavras. Ele ouviu sempre com atenção, tentou perceber tudo e no fim só percebeu que não havia nada para perceber. Só ela assim, desajeitada de coisas a doerem lá dentro, alegrias em risos histéricos e entusiasmos nos olhos arregalados. Tempestade de chuva quente, com trovoadas e arco-íris. E a magia dos abraços. Esses abraços em que ele se entrega inteiro e ela é toda Paz. 

O barco à deriva, cansado de navegar, deixa-se então cair quieto, agarrado a essa corda que o segura preso no fundo da terra. Porque o Amor é a melhor âncora para nos guardar na Vida.

Às vezes, ela ainda nem acredita nesta surpresa. O primeiro encontro não estava marcado e ela chegou distraída. Nem sonhava no seu coração prestes a explodir.

Ela ainda nem acredita no aconchego bom, na cumplicidade a crescer, no prazer a unir. Ela ainda nem acredita que sente tanta coisa boa lá dentro. Às vezes, quando ela fica no olhar dele, ainda nem acredita que é o Amor a acontecer.

E tudo começou naquele primeiro abraço:
- Obrigado por teres esperado por mim., ele disse;
- Obrigada por teres vindo., ela respondeu.
Afinal, já estavam à espera um do outro há tanto tempo...!



Desfazem-se os nós e ficamos nós.

Quantos segundos nos sobram?
Quero todos!


Sempre

Abuso da palavra sempre. E abuso sempre. Quem me conhece já percebe o sentido. Quem não me conhece, não percebe bem o que eu quero dizer.
O sempre não existe. Pelo menos não esse literal. Esse da eternidade que se concretiza apenas na poesia, na intensidade, nos instantes (por vezes até os mais breves).

Como a história de Amor mais bonita do mundo. Não. Aqui não estou a exagerar nas palavras. É mesmo Amor. E é mesmo o Maior.
Sempre é tudo que tem Amor. Tudo que é incondicional. Sempre.

Lembro-me de nas primeiras aulas de Religião e Moral, no 5ºano, fazermos um trabalho intitulado "Eu, uma história de amor". E lembro-me de sentir orgulho nos meus pais e de me sentir, realmente, uma história de amor.
Mas ele é uma história de amor maior. Tão inexplicavelmente desejado. Tão profundamente amado. Não foi a vida que o trouxe. Foi ele que trouxe Vida.
E agora, a celebrar 10 anos de calendário duma gravidez que nos cresceu na alma, alguém me perguntava: "Parece que foi ontem, não?"
Não. Parece que foi sempre.

Ubuntu

Eu sou porque tu és.















Eles são diferentes. São tão diferentes!  Diferentes países,  idades, profissões.  Diferentes ideias, diferentes tamanhos, diferentes pronúncias.
E é essa mesma diferença que os torna absoluta e profundamente iguais. Confundem-se na alegria confiante, nos olhos sonhadores e nas mãos agitadas à procura de acções para concretizar o outro, todos os outros, razões de cada dia que amanhece, de cada pedaço de ar que inspiramos. 
Levamo-nos uns aos outros em cada célula e é só quando nos reconhecemos como família gigante que o universo nos abre as portas à vida.
Não se distinguem misturados em multidão atenta às inspirações, porque são juntos. São humanidade enquanto nação e rasgam essas fronteiras artificiais em pontes de amor.
Eu sou porque tu és.

Encontraram-se lá no alto, com o mundo aos pés, a mostrar-se bonito em ondas de mar a beijar areia, a chamá-los para esse afeto guardado em cada um à espera de explodir na comunhão dos reencontros. Porque cada pessoa que conhecemos é, afinal, um reencontro. Eu sou porque tu és.

Aqueceram a areia da noite com o calor dos corpos contentes. Conversas cruzadas, dedos a dançar em cordas.
Lá em cima as estrelas, mas o céu sentou-se mesmo ali ao lado e cantou com eles.
"Ke ki mininu na tchora?" A Guiné aqui tão perto. Depois Cabo-Verde. E afinal era o todo o mundo que cada um carregava em si!
Eu sou porque tu és.

Há instantes que agregam despedidas e reencontros, saudades e novos amores. Segundos que são todos os calendários, pessoas que nos devolvem os que não estão cá, lugares que são todos os sítios que pisamos em entrega. E a sofreguidão de viver acalma-se cá dentro, porque bebemos o mundo e há sempre mais mundo para beber. Há sempre mais mundo para conhecer e partilhar. Só para descobrir, no fim, que o mundo esteve sempre dentro de nós.
A Academia Ubuntu é esse instante. A Academia Ubuntu são essas pessoas. A Academia Ubuntu são todos esses lugares.
Eu sou porque tu és.

E ela, perdida na sua inquietude infantil, encontra-se nesse novelo de gente. E o coração deixa de doer da angústia do caminho. E volta a acreditar que é possível. O Mundo é possível! Mas só assim faz sentido. Só assim.
Como quando queremos cantar a nossa música preferida mas, desafinados que somos, não ousamos soltar a nossa voz sozinha. Erga-se um coro de vozes e lá estaremos nós a cantar também. Juntos não desafinamos. Fica uma só voz, inteira de mundo.

Ubuntu. Eu sou porque tu és.

Demorar


Assim só. Simples assim.
Não te demores.
Se chegaste por engano, volta ao teu caminho. Se foste porque achavas que havia mais, aceita e integra. Senta-te lá um pouco até essa dor passar. Mas não, não te demores.

Sentes o teu coração? O que ele te pede?
Então vai. Procura. Corre. Inventa caminhos.
Cada dia que te demoras onde não podes amar, é um dia a menos onde podes.
É melhor seguir a caminhar, ainda sem saber para onde, do que ficar onde não faz sentido. Onde não sentes. Onde não te sentem.
A estrada encarregar-se-á de te dar pistas, o percurso é ele próprio um alimento do amor em ti, de preparação para partilha disso que te habita.


"Onde não puderes amar, não te demores."

Surpresa de amor

Ela estava de saída. Ele veio para ficar. 
Doce ironia, irrecusável entrega.

"Quando menos esperares...", diziam. Cliché dos clichés, não é que foi mesmo assim?

E ela aprendeu a beijar sorrisos que não se fechavam. Aprendeu que os corpos podem ser mais do que o prazer, nesse sagrado sublime, espécie de ascese inconsciente. Aprendeu a ler os abraços e os suspiros que falam no silêncio denso de sentidos. Aprendeu o segredo do que se sente e as palavras não dizem, e aprendeu que quando as palavras o dizem, o sentir fica maior que o mundo, como que libertado pelo verbo. 

E assim, sem contar, nesse céu de estrelas cadentes, choviam sagrados e eternidades. Ele distraído, via apenas as luzes brilhantes. Ela corria a apanhar os pedaços dessa magia, a guardar no bolso esses bocadinhos de um divino tocado. Ah, sem exagero. Mas onde se concretizará o divino senão nesse recíproco desejo de alguém? 

Pois, mas é bom não nos envolvermos nesta história, porque ela estava de saída. Já tinha comprado o bilhete. E foi. Viagem demorada, que começou antes do início e continua mesmo depois do fim. 
Parece que toda esta história é apenas essa viagem. A sua preparação, a sua conclusão. 
E não é a vida uma viagem? 
Não é o amor uma viagem ao outro? E que viagem! Não vem no mapa esse destino, não há coordenadas GPS, esquerda ou direita. Apenas uma total desorientação boa de sentir. Uma entrega a esse caminho desconhecido e sempre novo, sempre surpreendente.

Foi uma surpresa. Ninguém estava a contar. Ela já nem sabia amar. Ou não sabia que sabia. Ou não sabia que podia. Foi uma surpresa.
Ainda é.
Às vezes, lá dentro da saudade, ainda fala mais alto essa surpresa de amor. 




Aterrar

Hoje acordei com a chuva a cair de leve na clarabóia do meu quarto. Como um acolhimento da vida, um aconchego da saudade a doer.
Tudo em mim é intenso. Tudo em mim grita. A gratidão que abraça. A distância que sufoca.
E essa suave chuva matinal a lembrar a serenidade à tempestade cá dentro.

É vida. O riso e a saudade, os reencontros e a distância, o para sempre e o nunca mais. Vida a acontecer. 
Hoje eu sei. E não queria que fosse de outra forma. É vida. Esse desassossego na respiração, essa turbulência nos sonhos que ainda não nos acordaram, nas vontades não satisfeitas, nas sedes que ainda não têm água, nos fins que não aceitamos definitivos. É vida. Essa gente que amamos, esses abraços que nos acolhem, as surpresas que não esperávamos, a paz que se impõe em nós no meio de fogo cruzado nos sentimentos. É vida.

Cheguei. O coração a aterrar devagar, com medo de pousar, como se continuar em viagem adiasse a concretização de um adeus. 
Mas cheguei. E o coração pousou. Um pouco forçado, agarrado por uma corda. Mas está aqui, comigo. Ri e chora nessa plenitude de sentir. Explode num fogo misturado de mundos e gentes. Inteiro de amor.
Cheguei.

Fazer as malas

















Pois é... há coisas que não cabem nas malas. 

Estou desde ontem a enfiar coisas dentro das duas malas que me vão acompanhar até Casa, e agora, quase prontas, continuam vazias. Não de espaço, que esse está bem aproveitado. As minhas malas vão vazias do que realmente importa; vão vazias dos sentidos e das aprendizagens, vazias das mil eternidades tocadas, dos instantes em que o céu era mais perto. As minhas malas vão vazias do meu coração a explodir, das lágrimas dos meus olhos, da saudade do que ainda não passou. As minhas malas vão vazias das cores, do peso da terra, da chuva a molhar a pele, dos relâmpagos a incandescerem a alma. As minhas malas vão vazias do corpo sentado no chão, das estradas que cortam os matos, das estrelas a queimar no céu. As minhas malas vão vazias de conversas intermináveis, de gargalhadas patetas, de companheirismo, de entrega, de fascínio.
Nada nestas minhas malas... nem uma só descoberta no bolso lateral, nem um sorriso escondido debaixo duma camisola, nem mãos abraçadas em cumplicidade dentro das meias. Nada. Só roupa, acessórios, livros antigos, sandálias. Como podem estas malas tão pesadas não terem nada interessante lá dentro?
E este vazio das malas rasga em mim o corpo de sentires, nessa responsabilidade gigante de guardar tudo, de não esquecer nada.
Se as minhas malas se extraviarem no caminho, a TAP tratará de me restituir os bens perdidos. Mas e isso tudo que levo dentro de mim? Quem se responsabiliza? A quem vou reclamar se perder momentos, imagens, significados?
Devíamos poder fazer um seguro da nossa memória.

Lembra-te.

Não podes ir embora sem te lembrares. Não podes ir embora sem reveres e guardares.
Lembra-te.
E lembra-te enquanto estás aqui, nos dias que te sobram repletos de tanto, perto ainda das memórias a gravar.
Lembra-te.

Lembra-te de quando aterraste em Bissau pela primeira vez. Do ar húmido a colar no corpo, a dificuldade em respirar. Lembra-te da sede, essa saciada e sempre repetida. 
E lembra-te de te sentires em casa desde o primeiro instante; o longe a doer, o coração a pousar.

Lembra-te de cumprimentares as pessoas na rua, lembra-te de quereres saber os nomes. 
Lembra-te das pequenas coisas e da tua capacidade de vivê-las em plenitude. 
Lembra-te de procurares soluções para os problemas e de todos eles tirares um ensinamento.

Lembra-te dos banhos-de-chuva, da água completa em ti, do fresco a explodir, de risos molhados e partilhados com gente que rasga o teu coração.
Lembra-te de saltar para o rio Geba meio segundo depois de afirmares que nunca o farias.
Lembra-te das estrelas cadentes numa pickup debaixo do céu e das pessoas que estavam contigo nessa caixa aberta para o mundo.

Lembra-te de dançares como se se a tua vida dependesse disso, como se fosse a última noite.
Lembra-te de sempre ser para sempre e quereres sempre mais e, ainda assim, tudo te bastar.
Lembra-te de te sentires a crescer, sendo cada vez mais pequenina.

Lembra-te dos amigos que o serão para sempre, de como te acrescentam vida e beleza, de como aumentam o mundo que conheces e partilhas, de como são grandes no teu coração.
Lembra-te da coragem da entrega, de beijares sorrisos e experimentares o sagrado em intervalos de lucidez.

Lembra-te das cores, dos sons, dos cheiros. Fecha os olhos e vê, ouve, cheira. Sente.

Mas lembra-te também das frustrações repetidas e somadas, de quando parecia que não ias aguentar mais. Lembra-te da paciência esgotada. Lembra-te da lama e da poeira. Lembra-te dos mosquitos, dos grilos, das baratas, dos lagartos. Lembra-te dos militares, dos políticos de treta. 

Lembra-te do escuro e lembra-te das lanternas a iluminar.
Lembra a Guiné inteira em ti, no bom e no mau; e deixa-a ser esse todo que é teu, assim.
Chora. Deixa essa saudade ser recipiente que guarda tudo isto. É essa a verdade.

E lembra-te de ti na Guiné. De quem eras quando chegaste, de quem és agora que partes.
Como te disse a tua alma irmã, "lembra-te de quem és no sítio para onde vais".
Lembra-te.

Sagrado

Como se reconhece o sagrado? O que é sagrado?

Acho que o sagrado está para além de qualquer religião, ainda que eventualmente transversal a todas elas. O sagrado está na vida, e aparece de surpresa, quando menos contamos.

Aparece no mais mundano dos prazeres, no mais profundo e mais intenso dos prazeres, rasgando-o, superando-o. Sem pedir licença, sem avisar, sem se fazer notar. E assim distraídos nesse deleite sensitivo, quando parece não haver mais nada a sentir, eis que o sagrado ocorre. Como identificá-lo? Ah! Pudera eu preservar sequer a memória de o ter vivido! É que é tão intangível, que não há como gravá-lo num qualquer modelo conceptual. Não, claro que não dá para descrever. E olhem que eu tentei! Olhem que eu me demorei em viagens de vocabulário para conseguir concretizar isto numa qualquer palavra, ainda uma que inventasse num novo desenho de letras. Mas este sagrado é duma transcendência que até senti-lo nos foge. É um sagrado que não é nosso, não nos pertence. Desce nessa dádiva inesperada de explosão serena de um elemento desconhecido, pedaço divino de viver, instante imaculado de razão.

Loucura

- Mónica, nós somos doidos?
- Como, Irmã?
- Nós somos doidos?
- Nós quem, Irmã? Nós "todas as pessoas do mundo"?
- Nós, todos os que saímos dos nossos países! Não somos doidos??
- Somos sim, Irmã! Somos sim!
- Não somos normais, pois não?
- Não! Mas também a Irmã não queria ser normal, de certeza!
- É... É isso que estou falando! É bom não ser normal. 
(...) 
Se bem que, de vez em quando, eu queria ser normal. 
Estou com saudades. 
(...) 
Vai passar.

Ah! É preciso ser doido mesmo! Ser doido para sair de casa, ser mais doido ainda para voltar. Ser doido para conhecer, partilhar. É preciso ser muito doido para amar. Ninguém no seu juízo perfeito se põe a amar pessoas assim à toa. É que isso dói. Só doido, bêbado talvez, um alguém se permite a desvarios dessa ordem. Pois claro!
Mas há momentos em que bate aquela vontadezinha de ser normal, simples, de experimentar tédios de rotinas e lugares, de não cansar o riso de entusiasmos, de não atormentar o coração de despedidas. E logo passa. Cedemos sempre ao encantamento da loucura, à constante inconstância, à saudade, às borboletas na barriga. Cedemos sempre à Vida. Vivemos. Não, não somos normais. Somos doidos. Que bom!

Os loucos, os verdadeiramente loucos, permitem-se essa loucura, escolhem essa loucura.
Os loucos, os verdadeiramente loucos, guardam na loucura a força para continuarem a ser loucos num mundo de lucidez cega, de sensatez insípida.
Os loucos, os verdadeiramente loucos, aprendem de cor o bom-senso da normalidade e representam-no em qualquer palco; como quem brinca ao faz-de-conta, eles brincam à seriedade e à prudência, intervalos da sua saudável demência.
Os loucos, os verdadeiramente loucos, acreditam, confiam, entregam-se, lutam. Só sendo louco mesmo...

Neste mundo é preciso seres louco. Se não, vais enlouquecer.

Entre a Casa e o Mundo

Os últimos dias têm sido passados a saborear a banalidade deliciosa de "estar em casa", de participar das rotinas, de fingir a normalidade do contexto familiar onde sou ausente o resto do ano.
 
A viagem foi feita em compassos de magia, em tempos que o relógio não mede, nesse céu que me guarda inteira no mundo.
E aterrei com o coração ainda a voar, à espera de olhar e abraçar. E foi tão bom! Mas o mais incrível é que, desde a primeira manhã que acordei em casa, volta a sensação de nunca ter saído.
Como os momentos com os amigos que tenho estado a rever: parece sempre que tínhamos estado juntos no dia anterior. Depois de abraços apertados e de sorrisos abertos pela alegria do reencontro, é como se existisse uma capacidade de actualização imediata que permite a cumplicidade de quem não precisa dizer nada, mas insiste em dizer tudo em conversas prolongadas.
 
Deslumbrada e inquieta. É assim que me sinto. A saborear pequenos luxos e confortos que voltei a experimentar e - a melhor parte! - a desfrutar da presença e da proximidade das pessoas que me enchem o coração. Ainda não abracei todas. Mas o amor não rouba tempo ao tempo; antes estende as horas, sem pressas nem horários.
Mas é este amor, este aconchego, que me traz a inquietude. Porque me sei a partir novamente em Setembro. E, ainda que sendo o meu caminho, parece - às vezes - não fazer sentido. Como se o caminho não fosse a estrada em si, mas as pessoas. Todas as pessoas, de todos os caminhos.
 
"Desta vez ficas, certo?" 
Passou pouco mais de uma semana e já tive que responder a esta questão demasiadas vezes. E sempre na resposta o misto estranho de angústia por saber que vou voltar a partir e de paz por esse outro cantinho de mundo já tão meu.
 
Querer mundo e querer casa ao mesmo tempo. Ainda não sei como. Mas sei que é esta a minha procura. Porque é isto que o meu coração me pede. Num pedido sem palavras, sem gritos, apenas a certeza de querer ficar sem nunca deixar de sair para o mundo. Um dia vou encontrar um equilíbrio. Um dia vou construir uma ponte.
Porque quando estou em casa, preciso do mundo. Mas quando saio para o mundo, preciso de casa. E é a casa a minha essência. É a casa que me permite sair para o mundo. Se não fosse esta casa, não tinha de onde sair. Não tinha para onde voltar. Mas este ninho merece-me mais do que a certeza de lhe pertencer. Merece-me inteira, ainda que aceite os meus pedaços incompletos.
 
E eu não sei mais o que dizer, o que pensar, nem o que sentir. Porque me perco nestas estradas que se cruzam, mas não chegam a ser uma só. Porque me perco em expedições de novos atalhos. Porque insisto em querer tudo.
Mas bem, é agora altura de me parar por este cantinho. E há ainda tanto para me demorar! O coração encontrará a sua paz ou aprenderá a viver nesse sobressalto partilhado.
Agora é tempo de ficar.

Encontro de amor

Sou absoluta e profundamente grata pelas minhas pessoas. Pela minha família. Pelos meus amigos. Tenho mesmo sorte pelas pessoas com quem partilho os dias aqui e imensa sorte pelas pessoas que me fazem falta porque estão longe.
Sinto-me imensuravelmente grata por estas pessoas que me tornam maior e mais bonita, que me fazem sentir protegida e amada, que se interessam e me cuidam. Sou uma miúda de sorte, todos os dias me lembro disso!

E a única coisa má de gostar taaaanto de algumas pessoas e de as sentirmos gostarem-nos igual, são mesmo as saudades, os dias que se somam sem momentos banais de partilhas e encontros.

É hoje. Naquilo que mais se aproxima de um mundo encantado de fantasia: voar. Voar de um continente para o outro. Entrar num avião depois de passos em Bissau e sair do avião a calcar Lisboa. Depois o Porto. Depois a minha casa. É hoje.

Se fechar os olhos, já me imagino a rasgar o céu, nesses instantes em que não estamos em lugar nenhum, mas todos os lugares cabem em nós. Porque estamos nesse céu que guarda o mundo, todos os mundos e todas as pessoas. Sinto-me sempre em paz dentro de um avião. Como se tudo fosse possível. Estou a voar! E porque sempre o destino nos acolhe o coração mesmo antes de aterrar.

Mas o destino de hoje é e será sempre o mais importante: a minha casa, o meu ninho, o meu pilar, as pessoas que mais amo e que mais que amam. A incondicionalidade deste amor é o destino mais certo. E é para ele que hoje voo.

Borboletas no estômago, coração apertado - ou solto, nem percebo bem -, nervoso miudinho e uma ansiedade enorme. Confessava-me assim, há dias, a uma amiga e disse-lhe:
- Parece que vou ter um encontro de amor!
- E vais!, disse-me ela.

E vou. O maior dos amores. O mais bonito. O mais seguro. O mais inteiro. Sinto-me absolutamente privilegiada por poder vivê-lo desta forma, por poder amar tanto as pessoas cuja presença é, normalmente, transversal aos dias, e pela saudade me obrigar a demorar neste bem-querer .
É uma sensação de festa dentro de mim. É hoje!