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Outra vez.


Já não há Governo na Guiné-Bissau. Outra vez.
A luta pelo poder ganhou. Outra vez.
As pessoas estão cansadas e descrentes. Outra vez.
A ajuda internacional vai limitar drasticamente os apoios. Outra vez.
O desenvolvimento que estava a acontecer nos últimos meses vai retroceder. Outra vez.
Os agentes de cooperação verão o seu trabalho fugir num vazio repetido. Outra vez.
O coração dói-me de Guiné. Outra vez.

Estou zangada, triste, revoltada. Penso nas minhas pessoas, todos os meus pedaços de Guiné-Bissau e queria dizer-lhes que isto é tudo mentira. Não acredito que isto está a acontecer. Outra vez!
Mas não faço nada. Reclamo. Escrevo. Contesto. 
Quieta de ações.

Nas últimas duas semanas e meia, há ratinhos a passear lá em casa. Esquecem-se os problemas do mundo e tudo gira à volta desse drama doméstico e do pânico ridículo e incapacitante. Veneno aqui e acolá, várias viagens à drogaria, mais uma ratoeira. Não desisto e continuo à procura de alternativas que me possam resolver o problema definitivamente.
Se os problemas do mundo fossem ratinhos na minha casa, talvez não dormisse até os resolver; talvez procurasse todas as estratégias possíveis, pedisse ajuda à família, aos amigos e aos vizinhos e mobilizasse toda gente na procura de uma solução. 

Fico a pensar que as guerras, os conflitos, as violações dos direitos humanos, deviam todos acontecer nas divisões das nossas casas. Espécies de hologramas indesligáveis que não nos deixassem viver o dia-a-dia. Gritos de morte a acordarem-nos durante a noite; militares de cara fechada e armas apontadas a nós, bombas a explodir regularmente enquanto descansamos no sofá a ver televisão ou quando tomamos banho pela manhã.
Talvez assim nos uníssemos a sério. Talvez assim a nossa preocupação com o mundo tivesse espelho em ações concretas com repercussões efetivamente positivas. Talvez o mundo fosse Mundo.
Talvez.

E a culpa é minha. A culpa também é minha. E tua. E de todos.
Sinto a culpa e não faço nada. Reconheço a minha responsabilidade e não faço nada. Deixo os dedos saltarem no teclado do computador, mas não faço nada. É só mais um texto a divagar, sem caminhos nem soluções; um conjunto de linhas para aliviar um pouco desta angústia cá dentro que dificulta a respiração. E vou continuar sem fazer nada. Outra vez.

Migrações

Há exatamente dois meses atrás, acordei de coração pesado, duas malas cheias ao lado da cama, passaporte preparado, despedidas a fazer. Era quase Natal, mas era um Dezembro quente e cheio de sol, porque vivido nesse continente onde a humanidade nasceu.
Despedi-me da Guiné-Bissau num "até já!" de quem tem a certeza que vai voltar.
Horas depois, aterrei em Portugal. Aqui o Natal aproximava-se no meio do frio e da chuva, mas sempre o aconchego das pessoas a ser esse calor cá dentro.
 
Há cerca de dois anos e meio, saí de Portugal emigrante. Há dois meses, voltei imigrante.
Quem um dia salta para o mundo, corre o risco de nunca mais ter uma casa, de nunca mais ser inteiro.
Quem um dia arrisca novas nacionalidades, corre o risco de não ter nunca tijolos suficientes para construir um abrigo onde caibam todas as (suas) nações.
Quem um dia rompe essa corda que nos segura perto, corre o risco de nunca mais nenhuma corda a segurar em lado nenhum.
Mas são riscos que valem a pena. Afinal, corremos riscos todos os dias, desde que saímos da cama, e até mesmo sem sairmos.
Conhecidos os perigos, deslumbrados com todo esse mundo de gentes e cumplicidades, de caminhos e ideais, de costumes e formas de amar, não há nada que nos detenha.
 
Resta-nos, então, recorrer ao mais profundo da nossa criatividade e aprender novas formas de ser inteiro, mesmo que em pedaços. Um puzzle é inteiro mesmo sem estar montado. Então, que saibamos ser essas peças espalhadas que às vezes se encontram, essas partes de nós que serão sempre radar dos sítios onde iremos voltar, dos sítios de onde nunca partimos, dos sítios que moram em nós e nos guardam um cantinho para dormir nas viagens ainda sem bilhete.  O inteiro não tem que estar colado. Tem que Ser inteiro. Tem que se saber. Inteiro é o mundo. Inteira é a humanidade. Peças que encaixam.
 
Sai daqui emigrante. Voltei imigrante.
Há dias, numa reunião relacionada com o trabalho, alguém se apresentou como sendo guineense. E eu, coração de imigrante, pulei cá dentro na alegria de quem encontra um conterrâneo, de quem poderá partilhar as dificuldades de adaptação às diferenças na comunidade de acolhimento.
É engraçado como, efetivamente, ainda me sinto a adaptar e quase ando com o meu passaporte a pedir visto de residência. Parece que não é preciso, que tenho nacionalidade.
E gosto deste país, mas ainda estou a aprender a língua e os costumes. Falta-me aquele crioulo que não tem tradução no português, falta-me cumprimentar as pessoas na rua, confiar na genuinidade das ações, na pureza das intenções.
Ainda me estou a habituar à temperatura e às excessivas camadas de roupa em cima da pele. Talvez seja a roupa a pesar-me cá dentro. Ou seja apenas eu ainda a aprender-me inteira em pedaços.
 
E é com um sorriso de entusiasmo que escrevo sobre esta minha condição de imigrante. Porque, ainda que entre saudades, me alegro sempre por esses bocados de mim que, embora longe, me lembram quem sou, me inspiram, me apontam o caminho.

Fazer as malas

















Pois é... há coisas que não cabem nas malas. 

Estou desde ontem a enfiar coisas dentro das duas malas que me vão acompanhar até Casa, e agora, quase prontas, continuam vazias. Não de espaço, que esse está bem aproveitado. As minhas malas vão vazias do que realmente importa; vão vazias dos sentidos e das aprendizagens, vazias das mil eternidades tocadas, dos instantes em que o céu era mais perto. As minhas malas vão vazias do meu coração a explodir, das lágrimas dos meus olhos, da saudade do que ainda não passou. As minhas malas vão vazias das cores, do peso da terra, da chuva a molhar a pele, dos relâmpagos a incandescerem a alma. As minhas malas vão vazias do corpo sentado no chão, das estradas que cortam os matos, das estrelas a queimar no céu. As minhas malas vão vazias de conversas intermináveis, de gargalhadas patetas, de companheirismo, de entrega, de fascínio.
Nada nestas minhas malas... nem uma só descoberta no bolso lateral, nem um sorriso escondido debaixo duma camisola, nem mãos abraçadas em cumplicidade dentro das meias. Nada. Só roupa, acessórios, livros antigos, sandálias. Como podem estas malas tão pesadas não terem nada interessante lá dentro?
E este vazio das malas rasga em mim o corpo de sentires, nessa responsabilidade gigante de guardar tudo, de não esquecer nada.
Se as minhas malas se extraviarem no caminho, a TAP tratará de me restituir os bens perdidos. Mas e isso tudo que levo dentro de mim? Quem se responsabiliza? A quem vou reclamar se perder momentos, imagens, significados?
Devíamos poder fazer um seguro da nossa memória.

Lembra-te.

Não podes ir embora sem te lembrares. Não podes ir embora sem reveres e guardares.
Lembra-te.
E lembra-te enquanto estás aqui, nos dias que te sobram repletos de tanto, perto ainda das memórias a gravar.
Lembra-te.

Lembra-te de quando aterraste em Bissau pela primeira vez. Do ar húmido a colar no corpo, a dificuldade em respirar. Lembra-te da sede, essa saciada e sempre repetida. 
E lembra-te de te sentires em casa desde o primeiro instante; o longe a doer, o coração a pousar.

Lembra-te de cumprimentares as pessoas na rua, lembra-te de quereres saber os nomes. 
Lembra-te das pequenas coisas e da tua capacidade de vivê-las em plenitude. 
Lembra-te de procurares soluções para os problemas e de todos eles tirares um ensinamento.

Lembra-te dos banhos-de-chuva, da água completa em ti, do fresco a explodir, de risos molhados e partilhados com gente que rasga o teu coração.
Lembra-te de saltar para o rio Geba meio segundo depois de afirmares que nunca o farias.
Lembra-te das estrelas cadentes numa pickup debaixo do céu e das pessoas que estavam contigo nessa caixa aberta para o mundo.

Lembra-te de dançares como se se a tua vida dependesse disso, como se fosse a última noite.
Lembra-te de sempre ser para sempre e quereres sempre mais e, ainda assim, tudo te bastar.
Lembra-te de te sentires a crescer, sendo cada vez mais pequenina.

Lembra-te dos amigos que o serão para sempre, de como te acrescentam vida e beleza, de como aumentam o mundo que conheces e partilhas, de como são grandes no teu coração.
Lembra-te da coragem da entrega, de beijares sorrisos e experimentares o sagrado em intervalos de lucidez.

Lembra-te das cores, dos sons, dos cheiros. Fecha os olhos e vê, ouve, cheira. Sente.

Mas lembra-te também das frustrações repetidas e somadas, de quando parecia que não ias aguentar mais. Lembra-te da paciência esgotada. Lembra-te da lama e da poeira. Lembra-te dos mosquitos, dos grilos, das baratas, dos lagartos. Lembra-te dos militares, dos políticos de treta. 

Lembra-te do escuro e lembra-te das lanternas a iluminar.
Lembra a Guiné inteira em ti, no bom e no mau; e deixa-a ser esse todo que é teu, assim.
Chora. Deixa essa saudade ser recipiente que guarda tudo isto. É essa a verdade.

E lembra-te de ti na Guiné. De quem eras quando chegaste, de quem és agora que partes.
Como te disse a tua alma irmã, "lembra-te de quem és no sítio para onde vais".
Lembra-te.

Entretanto

De partida.

A Sóninha dizia há tempos que chegar à Guiné-Bissau não é um acto, é um processo. 
Partir também. Um processo lento, demorado, daqueles que se arrastam em tribunal recorrendo a todas as instâncias possíveis.
Pode parecer estranho, mas as despedidas são vivências profundamente solitárias. E só assim fazem sentido. Por mais que se materializem abraços e cartas, a verdadeira despedida é aquela que se vai fazendo em segredo no coração, nos momentos de silêncio em que todos trabalham concentrados, nos momentos de confusão e euforia em que todos dançam o corpo inteiro de paz e riso, e eu me paro em segundos demorados de contemplação. 
E estas pessoas bonitas e gigantes lá dentro de si, ficam ainda mais bonitas e mais gigantes. Eu a beber as suas belezas em solenidades que finjo banais. 
E a minha Guiné fica mais minha. Tão minha. Tão dentro de mim. Eu tão nela. Tão.
Porque vou embora, mas ainda não fui.
Entretanto, eu continuo aqui, entre tanto. Tanto!

Um dia num minuto

Café. Trabalho. Leis e organigramas. Paisagem para o rio. Mais trabalho. Caipirinha. Gente linda numa sala em Bafatá. Risos à toa. Personagens na testa. Perguntas. Mais risos. 
Era só uma. Dissemos que era só uma. Outra?
Estrelas. Muitas. Nessa banalidade luxuosa de um céu humilde na sua grandeza, inteiro na sua partilha. Carrinha de caixa aberta posicionada. Cobertores e almofadas para encostar. Olhos atentos. A estreia. Estrela que salta no céu e desaparece. Conversas tontas. Piadas sem piada que fazem rir mais do que se tivessem piada. O céu que se mexe, e nós quietos, cientistas de novas leis do universo. Uma noite de sexta-feira inventada quando amanhecerá quarta-feira. Provérbios reformulados. Madrugada. Só mais uma estrela. Afinal foram duas. 
Confiar ou não? Viver! Beijar sorrisos. Mais estrelas de olhos fechados. O céu dentro de casa. Dormir.

Pedacinhos de vida

“Ganha a última equipa a chegar.” 
Terminei eu assim a explicação de um jogo que nos ocupou hoje a tarde nas Jornadas de Lançamento do ano lectivo 2013-2014 das escolas das Missões Católicas de Bafatá.
“Mas, Mónica, os últimos é que ganham??”
Ri de mim própria, e corrigi o erro. Os primeiros é que ganham, pois claro!

É assim quando se dorme pouco em noites de conversas no alpendre e dias de muito trabalho. Olhos pesados a quererem dormir, mas coração inquieto pela Guiné-Bissau em mim, pela eminência de uma despedida que se vai aproximando timidamente, pela sensação de haver ainda tanto a viver e saborear.

É preciso ousadia para ser feliz. É que pode ser mal visto, mal interpretado.
Aparentemente, sou assim algo desavergonhada nessa coisa da felicidade. É o que dizem. E parece que devia disfarçar a minha alegria, contê-la talvez, fechar a cara um pouco para ser levada a sério e não dar espaço a abusos.
N’ka nega, ma n’ka pudi! - diria no crioulo da minha Guiné-Bissau, uma espécie de “Não é que eu não queira, mas não posso / não consigo.”
Na verdade, não quero mesmo. Perdoem-me os mais austeros, mas continuarei neste exagero de sorrisos e gargalhadas. Vá, e nem é tão exagerado assim.

Dizia agorinha o Pierre: “A Mónica ri tanto, que parece que vai acabar de rir hoje; amanhã já não terá risos.” 
Tenho! É que eles multiplicam-se. É como o fogo que quanto mais queima, mais tem para queimar. O riso é essa alegria boa a arder cá dentro.
E rimos tanto esta tarde! Numa actividade em que aprenderam tanto quanto se divertiram. Afinal os adultos na Guiné-Bissau são só crianças cujo corpo envelheceu: brincam inteiros de entusiasmo e reivindicam as batotas no faz-de-conta como nunca se atreveriam no mundo real. Como foi bom vê-los soltos e confiantes, orgulhosos e empenhados. Por isso continuo a rir, o coração repleto a suspirar. 
E não estava tão errada assim: terminado o jogo, ganharam os primeiros, mas também os últimos, e os que ficaram em segundo lugar… e todos!

E ganhou o Braima. Nada a ver com o jogo. É o professor de Empada que faz sempre mais do que pode, quase a trocar a expressão guineense que referi acima: ele não pode, mas quer, então faz. Como? Eu sei lá. Já expliquei que de milagres sou apenas testemunha, nunca percebi como funcionam. 
E então o Braima hoje ganhou uma mota; doação que a FEC tinha disponível para uma escola e ele foi o feliz merecedor. Menino contente de olhos gigantes de entusiasmo, manhã de Natal em contemplação do novo brinquedo, quilómetros de vida (um pouquinho) mais fácil. 
No final da tarde, depois de todo o trabalho e de toda a brincadeira, deixei-me estar no alpendre a apreciar ao longe a devoção com que se demorava na mota. Uma imagem absolutamente encantadora! E o meu coração sempre mais cheio!
(Meu Deus, como é que eu hei-de ir embora?)

Ah, e os três estarolas no escritório? A cumplicidade é mesmo a melhor coisa do mundo. Nesta sou mera espectadora, que não apanho a maior parte do que se passa ali, mas delicio-me com as piadas que não percebo, com as conversas em meias palavras porque a outra metade é adivinhada. E mesmo sem participar, gosto de vê-los nessa construção bonita. Gosto de ver equipa outra vez; essa coisa de gente tão diferente que encontra uma forma de se encaixar e funcionar como um todo, mesmo sem se aperceberem.

E eu só assim, assistente de pedaços da vida a acontecer. 
Como podia não ter o coração a rir em explosões de paz? 
Ah! N’ka nega, ma n’ka pudi!


Relâmpagos

Banho-de-chuva. O último?

Final da tarde. Noite escura já. Trovoada ao longe avisa mais uma tempestade eminente. A chuva forte começa a cair. Forte como um ímpeto. Intensa como a vida. Uma intensidade boa, pois assim a desenhamos em nós ao recebê-la.
Nós no alpendre. Abrigadas de uma chuva que não respeitava abrigos e nos salpicava, em jeito de desafio. À nossa frente, o negro cerrado da noite rasgado por rectas de água a mergulhar na terra. O negro cerrado da noite interrompido por instantes em que os relâmpagos faziam dia.
“É a minha coisa preferida aqui!”, berra a Carmen, para que a sua voz falasse por cima do temporal. E estaríamos muito bem ali as duas nesta contemplação inquieta, não fosse a chuva gritar em nós a energia boa de quem se oferece inteiro. A chuva, tanta que só toda, pedia um acolhimento recíproco à sua dádiva. E já se sabe que nós não lhe conseguiríamos dizer que não.
Lá fomos então, primeiro a medo, que isto da chuva no escuro e dos relâmpagos a incandesceram a noite, exigia uma certa ousadia.
E à magia de receber essa água que cai do céu, junta-se a maravilha dos instantes de luz de cada relâmpago: ofuscavam os olhos e voltávamos ao escuro, à água; a roupa colada ao corpo. Os relâmpagos aproximam-se, e com eles trovões bem mais forte. Gritinhos de histeria, claro está, uma espécie de medo bom, e nós continuávamos ali. Frio, saltos para aquecer, olhos ao céu num clarão de mais um raio de luz. Vida a acontecer só porque sim.
Gritei mais do que nunca com a trovoada. Como se aquele entregar genuíno a esse momento de simples deleite limitasse a capacidade de conter os sobressaltos a cada novo ribombar.
Depois chegou a altura de caminhar no escuro de volta a casa. Entre um passo e outro, mais um relâmpago a iluminar o caminho. A seguir o banho de chuveiro, pobre imitação da aventura vivida. Depois a roupa seca no corpo e ainda o contentamento emancipado de razões.

O melhor da vida é mesmo fazer coisas sem sentido só porque as sentimos. Caminhar para debaixo da chuva nesse impulso infantil de querer brincar. Não esperar nada e receber como oferta essa alegria sem motivos, sem pudor, sem cerimónias. Aceitar absoluta esse efémero pedaço iluminado, e torná-lo perene pela plenitude com que foi acolhido.
E é neste relâmpago que queria demorar-me. Nesta magia de micro segundos em que a luz explode. Foram dois anos na Guiné-Bissau. Minha Guiné-Bissau. Serão mais dois meses. Depois o caminho segue. Olhos esbugalhados ao céu à procura de novos relâmpagos.

O último banho-de-chuva?

A vida são estes relâmpagos que rompem o escuro da noite debaixo da chuva. A vida não é esse escuro, mas os instantes de luz que continuam a brilhar nos nossos olhos mesmo depois de se apagarem. 
A Guiné continuará a brilhar em mim. Nos meus olhos, no meu coração, nas palavras, no caminho. A Guiné continuará a brilhar como um relâmpago que explode cá dentro. A Guiné continuará em mim. Sempre.

Faz-de-conta

Há um país onde se vive em permanente faz-de-conta
Faz de conta que estamos em Paz. 
Faz de conta que podes dizer o que quiseres. 
Faz de conta que vives em democracia. 
Faz de conta.

Não é um conto de fadas, não há princesas nem dragões. 
Há sítios encantados pelas gentes sagradas de um país que se quer inteiro a avançar, mas se vê travado e submisso. Não é um lugar do mundo da fantasia. É um chão de terra vermelha onde dançam as revoltas, onde se pisam as mágoas cansadas. É real. Mas faz de conta que não é.
É a brincar ao faz-de-conta que se vive nesse país. É a brincar que se segue pelos dias, é a brincar que se conversa nos djumbais das varandas, é a brincar que se esperam Eleições marcadas para breve. 
Ninguém diria que é uma brincadeira. Tal é a seriedade imposta neste faz-de-conta. Num jogo onde já se conhecem as regras de cor. 
Há quem não queira brincar (haverá quem queira??), mas neste jogo todos entram. Porque quando alguém se esquece do jogo, ou não quer brincar mais, e vai à sua vida normal, de verdades e preocupações, alguém vem lembrar que isto não é uma brincadeira de crianças. É um jogo de gente grande, ainda que muito pequenina. E é para levar a sério.

E sim, sim, está tudo bem. Mas estás a falar de quê? Talvez seja melhor falarmos de outra coisa...
É que eu que ainda não aprendi as regras, mas já vou brincando ao faz-de-conta. E às vezes até acredito nessa Paz fingida. Faz de conta.

Lista

Quando estamos a trabalhar longe e nos demoramos em férias por casa, voltar a partir pode ser um pouco doloroso. Foi assim que regressei há uma semana à Guiné-Bissau e me deixei surpreender depois no entusiasmo e aconchego que senti ao aterrar. 
Afinal, porque sou feliz aqui? O que me encanta neste pequeno pedaço de terra? 
Para não me voltar a esquecer, fiz uma lista.

1. Beber água
Eu gosto muito de água. É mesmo a minha bebida favorita. Mas há uma sede que só pode ser saciada em África. Talvez porque só aqui a sede seja tão intensa. Nenhuma água vai saber tão bem, porque em nenhum outro sítio tens tanta sede.
Logo no aeroporto, já cá fora, quando uma amiga me estendeu uma garrafa de água, voltei a sentir como é bom saciarmo-nos por cá. E só tinha aterrado há uma hora.

2. Noites de lua cheia
Sim, a lua é bonita em qualquer lugar do mundo. E nem precisa de estar cheia para que a fixemos, deslumbrados, no céu. Não é de beleza que falo. É de luz.
Por aqui, as noites são bem mais escuras que em Portugal. Quando é de noite, é escuro mesmo. Não há iluminação nas cidades. E não há ninguém - ninguém! - que saia de casa sem uma lanterna. A não ser - lá está - nas noites de lua cheia. 
É incrível como uma lua grande nos enche de luz. Parece sempre que é final da tarde, quase noite, porque nunca chega a escurecer por completo.
E não consigo deixar de ficar fascinada como uma lua, que nem sequer tem luz, partilha connosco esse brilho reflectido do sol.

3. Adormecer
Em nenhum outro contexto me sabe tão bem pousar a cabeça na almofada e adormecer ainda antes de terminar o meu pensamento acerca de como é bom adormecer assim.
Adormecer do cansaço bom e inteiro dos dias... É o melhor sono.
Nem quando chegamos de um dia muito atarefado, nem quando passamos a noite a dançar com os amigos. Nunca é um cansaço assim. Nunca é um adormecer assim.

4. Encontrar pessoas na rua
Sim, também é bom encontrar os amigos sem contar quando vamos ao cinema, estamos a passear na praia ou nos cruzamos no corredor de um qualquer hipermercado.
Mas nunca serás acolhido e cumprimentado com o entusiasmo que recebes aqui. E tu próprio acolhes e cumprimentas como nunca o farias num outro espaço do globo.
E porque estas pessoas te ensinam nos seus quotidianos outra forma de amar, que descobres em esconderijos de ternura, em subtilezas de quem se entrega gratuito.

5. O fresco da manhã
É quente o dia todo. Em todos os lugares. Em todos os instantes. Mas há ali um período, de manhã cedo, em que, ainda de pijama, vais até ao alpendre... O dia a amanhecer, ainda a preparar todo o calor, e sentes que está ligeiramente mais fresco do que estará depois. Não é frio, nem nada que se pareça. Mas é o melhor que terás e tu ficas ali a saborear uns minutos, antes de iniciares mais um dia. É um momento sagrado.

6. Tempo com tempo
Engane-se quem pensa que por aqui é tudo muito tranquilo e nunca há pressas ou prazos apertados no trabalho. Sim, o stress também já chegou aqui.
Ainda assim, cabe mais tempo no tempo. E há sempre tempo. 
Uma sensação boa de controlar os dias e as semanas e de fazer tudo o que  queres. O que te falta em distracções extra (televisão, centros comerciais, bares, cinemas), sobra-te em conversas e leituras.

7. Paz
Isto é um cliché, mas - provavelmente por isso mesmo - é a maior das verdades. 
Há uma paz inexplicável que se sente por aqui. Não falo de paz política - porque com essa, a Guiné-Bissau ainda só sonha - mas de paz interior.
Não que todos os teus problemas fiquem miraculosamente resolvidos assim que pisas solo guineense, nem que deixes de ter inquietações, angústias ou sofrimento. Mas tudo isso é sempre envolvido por uma sensação de paz. Uma serenidade que não sabes de onde vem, mas se impõe em ti.

8. Banhos-de-chuva
Pois claro que não podiam faltar os banhos-de-chuva tropicais!
Repetindo o que não me canso de dizer: não há nada (ou quase nada) que a água não limpe. E uma chuva forte a cair em ti tem o poder de acalmar o calor tórrido dos dias, de te renovar, de fazer explodir em ti entusiasmos e energias. Depois de um bom banho-de-chuva, há uma parte de ti que renasce.
Água é vida. E a água que cai lá do alto e te molha quando a recebes inteira, é uma espécie de ligação entre o céu e a terra. Por momentos, tudo faz sentido.

9. Cores
As cores em África são mais vivas, mais brilhantes. Os olhos vibram e todos nós estremecemos um pouco. São os sorrisos brancos que saltam do castanho dos corpos. É o verde das árvores no laranja da terra. São os muros das casas, as pinturas dos carros. Tudo é cor. Sem acessórios de luxo, é  a cor que enfeita a vida.

10. Simplicidade
A simplicidade das pequenas coisas que em nenhum outro lugar do mundo te lembras sequer de saborear. E aqui, sendo tudo o que tens, ainda que pouco, são tanto e são tudo. 

Entre casas

Ontem saí de Casa. Hoje cheguei a casa. 
Esta última tem letra minúscula, mas é já grande em mim.

Depois de quase dois meses em Portugal preenchidos de pessoas e aconchegos, regressar à Guiné-Bissau traz aquele desconforto de uma dor que não sei bem identificar, daquelas que não matam mas moem. E distraída que vinha nessa espécie de mal-estar, fui surpreendida pelo meu coração que saltou contente ao aterrar em Bissau. 
Logo a descer as escadas do avião, o calor húmido envolveu-me e colou-me a esta terra, como que em jeito de acolhimento, quase que a lembrar-me que também lhe pertenço. Suspirei e sorri sozinha. Tinha-me esquecido que sou feliz por aqui. Tinha-me esquecido - no meio da confusão das despedidas - das pessoas que ia (re)encontrar por cá. Tinha-me esquecido, naquela ingratidão de quem vê os seus desejos atendidos, que este trabalho e esta vivência são o meu sonho. 
E é incrível, e até paradoxal, como neste país de eterna instabilidade política e militar, a primeira coisa que sinto com uma força extasiante mas serena, é a mais firme sensação de paz. 
Paz. Foi em paz que me senti enquanto caminhava os primeiros metros nesta terra. E seguia de sorriso no rosto, confusa pelo regresso tão sofrido e, afinal, tão arrebatador.
Continuei a suspirar e a tentar equilibrar em mim esse entusiasmo da chegada com a angústia da distância que já se fazia sentir.
Ainda estou a reaprender a respirar. Literal e metafóricamente. Depois de oito semanas fora, demora até que os pulmões se adaptem à humidade que bebem. Depois de oito semanas fora, demora até que o coração fique leve e se passeie nessa ponte entre a Guiné-Bissau e Portugal.

Suspiro mais uma vez e confio à noite esta dualidade de sentires. Demoro-me nesta alegria boa que não sei explicar. Descanso o longe nesse espaço sagrado em mim.

Djumbai

Djumbai é uma palavra do crioulo da Guiné-Bissau utilizada para descrever convívio, encontro de pessoas, troca de ideias e pensamentos, conversas. É um "estar" inteiro , estar com, estar ali, estar com as pessoas, nelas, e deixar que elas estejam em nós. Ouvir e falar. Estar em silêncio também. É estar. Esse estar onde somos nos outros e os outros são em nós. Sem a poesia da expressão; apenas a naturalidade da companhia dos que comungam num mesmo espaço do mundo
Nenhum guineense te explicará este termo com tantas palavras. Porque foi assim que cresceram: em djumbais de alpendres onde todas as casas são tuas, em sombras de cajueiros que amenizam o calor tórrido. É onde a vida acontece e se aprende, sem saberes que a vida está a acontecer, sem consciência dos ensinamentos. É permanecer nos momentos e partilhá-los.


Resolvi importar o conceito, porque é um conceito que importa. Importa conhecer. Importa aprender. Estar com os outros sem esforço e sem cerimónias. Não trouxe a sombra do cajueiro nem os alpendres que circundam as casas nas tabancas da Guiné-Bissau. Trouxe a vontade de estar.

Depois de tanto tempo longe, as férias estão a ser passadas em djumbais. E sempre que vem a tão repetida pergunta "O que tens feito?", djumbai é a resposta, ainda que use palavras mais completas para o explicar a quem não conhece o termo. Não tenho feito nada de especial e tenho feito o que há de mais especial: estar com as pessoas. Era o que mais tinha vontade de fazer antes de vir, é o que me continua a apetecer fazer: estar. Porque bem mais que os luxos e os confortos, são elas que me fazem falta quando estou longe. Não apenas a presença, mas a certeza dessa proximidade à distância de um telefonema ou 15 minutos de carro.
Djumbai. Foi este o nome que dei a um convívio de amigos que fiz há dias cá em casa. (Casa! Outra palavra que me enche o coração!) E acho que nenhum deles percebeu como aquela deliciosa banalidade de uma noite de Verão entre amigos na minha casa me fez sentir tão preenchida. Porque estar com alguém nunca é banal, mesmo que as conversas sejam corriqueiras, mesmo que se repitam os lugares, mesmo que seja sair para dançar. O encontro com o outro - quem quer que ele seja - nunca é banal. É sempre uma novidade e uma aventura, uma descoberta e uma confirmação. São essas partes de nós que nos dão corpo e é dessa soma de instantes que a vida resulta.
 



 

 
 

 

No colo da chuva

Eu sei que parece que não desperdiçamos uma oportunidade de correr debaixo da chuva. Mas não é bem assim. A maior parte das vezes, comportamo-nos como pessoas normais que se abrigam e resguardam. Mas esta coisa da normalidade precisa de intervalos, daqueles que permitem renovar energias e encantos.
Foi assim na primeira chuva de 2013. Eu, como a natureza por aqui, tinha já sede dessa água e recebi-a como quem acolhe nos braços uma saudade comprida. Depois, voltei aos abrigos e a contentar-me com o barulho da chuva a refrescar as noites e embalar os meus sonos.
Até, devo confessar, começava a ficar um pouco cansada desta época, não pela chuva em si, mas pelos bichos, bicharocos e bichinhos que ela traz. Hóspedes não convidados que nos invadem a casa com um à-vontade escandalizante e nos infernizam a vida no lar.

Hoje fiz as pazes com a chuva.
Começou um vento forte que se ouvia antes de ver e sentir, longe que ele vinha. Logo começaram as danças das árvores, a terra pelo ar, o som grave. Adivinhámos a tempestade e corremos para casa. Ainda demorou a começar a chover e eu e a Carmen sentámo-nos confortavelmente no alpendre extasiadas por aquele grito do céu, pela beleza da tormenta, pelo fresco que acalmava o calor do dia. 
E a chuva começa a cair como se o equilíbrio do ecossistema dependesse da sua intensidade, como se fosse o último dia para dar à terra toda a água guardada no céu. 
Foi quando, do ar sereno da Carmen, sai um sorriso de desafio, os olhos entusiasmados:
- Um banho de chuva??
Hesitei. Estava tão bem como espectadora, que me apetecia continuar ali confortável na plateia. Mas um desafio da Carmen não podia ficar sem resposta!
Enchemo-nos de coragem e corremos até a chuva deixar de ser fria em nós e passar apenas a esse aconchego bom que reconforta e dá paz. E depois foi o ritual espontâneo destes momentos: os olhos que se erguem ao céu, os risos desajeitados, o andar à toa feliz sem saber de onde vem essa alegria... Corremos até à zona onde se vê Bafatá a descer para o rio, mas mesmo aí vimos só nuvens e mais chuva a cair ao longe. Voltámos para casa. No caminho, alguém que, abrigado, tentava perceber o que estávamos nós a fazer e outro alguém, também protegido da chuva, com perguntas banais de corredor de um qualquer edifício, fingindo ignorar a água que escorria no nosso corpo.

E é, mais uma vez, deste tédio dos tempos sem tempo em Bafatá, que nascem encontros perfeitos com o mundo e connosco próprios, e nos rendemos à simplicidade da vida e dos tesouros que verdadeiramente nos enriquecem.
Hoje fiz as pazes com a chuva. E no colo dela embalei o meu coração que não pára de cantar saudades e contar dias. Daqui a nada estou em casa. E por hoje a chuva ajudou a lembrar que aqui também estou em família.





Falar mantenhas

"Falar mantenhas" é uma expressão do crioulo da Guiné-Bissau que quer dizer algo como "cumprimentar" ou "mandar cumprimentos", dependendo do contexto em que é empregue.

Hoje, depois duma curta visita ali ao nosso alpendre de um amigo meu que trabalha nos escritórios da Cúria, a Helena - em jeito de desabafo indignado - disse:
- Es i ka ta fala mantenha!
(Este nunca cumprimenta!)

E continuou, a explicar que um dia destes estava a limpar o nosso escritório e ele entrou e perguntou: "Nundé Momi?"
(Onde está a Momi?)
E ela indignadíssima, a dizer que só tinha perguntado por mim e "calado a boca". Porque não é assim que se faz! Ele deveria entrar, dizer bom-dia, ou boa-tarde, e, depois sim, explicar que estava à procura da Momi.
 
De facto, as "mantenhas" iniciam qualquer tipo de contacto por aqui. Tudo começa por esse cumprimento e, mesmo que seja só de passagem, prolonga-se quase sempre num "Kuma ku mansi? Kuma di corpo?" (Como amanheceste? Como te sentes?)
E sim, as pessoas respondem, perguntam-te de volta e esperam o que tens a dizer. Por vezes, pode até nem haver um sorriso a acompanhar. O que nunca falta é o interesse e o cuidado.
 
Concordei com ela, mas diverti-me imenso com a sua indignação. Não pela piada em si. Mas pela ternura escondida nos gestos e no trato que sempre me surpreende nos guineenses.
Pouco antes, alguém se tinha aproximado do alpendre para perguntar onde era a Rádio Sol Mansi. Antes, porém, disse boa-tarde. E a Helena respondeu a este "boa-tarde" com tal indiferença, que nunca me passaria pela cabeça que a incomodasse tanto se a pergunta não tivesse sido antecedida pelo cumprimento.

É como, às vezes, quando a vejo falar com o Malaquias, seu filho de 7 anos. Parece sempre falar com frieza e até alguma distância. Isto para mim, que estou habituada à imagem das crianças a serem tratadas com todo o carinho e em cada frase que lhe é dirigida haver sempre a sensação de que naquelas palavras transborda uma espécie de doçura falada, fazia-me alguma confusão. Mas tenho vindo a perceber como há uma preocupação constante, um interesse e um cuidado permanente. E isto acontece de forma prática e objectiva.
Eu é que gosto tanto de pormenores, de miminhos e ternuras, que nem sempre consigo ver para além da dureza dos dias e da vida. Mas um olhar mais atento faz descobrir esse amor que não se sabe mas é corpo nessa entrega quase automática, que não é pensada, num cuidar tão natural e genuíno, que se despe de quaisquer acessórios que o pudessem embelezar.
E não deixo de ficar absolutamente enternecida com esta forma de amar. Invisível de tão evidente.
 
Como no pequeno Malaquias, que no exacto momento em que escrevo, dorme numa cadeira ao meu lado.
Porque gosta de mim, mas não sabe transmiti-lo. Porque quer estar comigo, mas não sabe como dizê-lo. Então vem até ao escritório e inventa motivos. Ou espera que eu os invente.
- Queres fazer um desenho?
Acena que sim com a cabeça e senta-se ao meu lado. Termina e fica a olhar para mim. Elogio o desenho e pergunto se quer outra folha. Diz que não. Pega na cadeira e senta-se mais perto de mim. E fica só a ver-me trabalhar. Olha para o teclado, para o monitor, a tentar perceber o que raio estarei eu a fazer. Os olhos começam a ficar pequeninos de sono.
- Malaquias, não queres ir descansar?
Responde que não, convicto. Os olhos cada vez mais pequenos, o corpo a amolecer. Volto a perguntar-lhe e ele endireita-se na cadeira, tenta arregalar os olhos.
Sei que o seu dia começou cedo e que a esta hora costuma estar caído em sono profundo algures na nossa casa, enquanto espera a mãe terminar o trabalho. Mas reconheço, nesta subtileza infantil, o esforço de viver este dia assim. As aulas terminaram hoje. Pelo que, a partir de agora, ficará em casa, com os irmãos. E eu vou de férias daqui a 3 semanas. Então o pequeno Malaquias continua a debater-se com o sono. E eu não insisto. Finjo que não percebo e deixo-o adormecer tranquilo. Porque agora os meus olhos já sabem descobrir os esconderijos da ternura.




Sombra di mamé

O Barra Siga é motorista na FEC. Mas mais do que nos levar pelos caminhos da Guiné-Bissau, conduz-nos muitas vezes por histórias e tradições, metáforas e provérbios desta terra e deste povo. E, às vezes, é também um pouco médico e acerta, quase certeiro, nas maleitas que nos atrapalham por aqui.
Ontem uma febre, a terceira de toda uma existência de 29 anos, levou-me até Bissau. Bem, na verdade, quem me levou foi o Barra. A mim e à Sandra, que também estava doente. Dizia-nos que os brancos ficam doentes mais facilmente, que não nos acostumamos à temperatura e às comidas, que a nossa pele é mais fraca. Mas que, se falarmos bem crioulo, já não ficámos doentes, porque a Guiné já nos conhece.
- A falar como estás a falar, já não vais ficar mais doente, Momi. - dizia-me.
E eu, a brincar, respondia-lhe que isto era só mimo, que estava com saudades de casa e já a contar os dias para as férias. Pois ele respondeu-me, convicto:
- Corpo disdja tera! Si i na bai djubi si tera, i na bim más mindjor!
(O corpo tem saudades da terra. Se vai visitar a sua terra, depois já volta melhor.)
 
- Que bonito, Barra!, disse-lhe, emocionada. E confessei-me já perdida de saudades de casa e dos meus.
 
Hoje, já absolutamente restabelecida e a trabalhar em Bafatá, explicou-me que só ir a Bissau me fez bem. Segundo ele, Bissau foi a primeira cidade que me viu quando cheguei à Guiné. Então, em Bissau estou mais perto de casa e o meu corpo também.
E continuou:
- Sabes, o corpo precisa da alma. E a alma está em casa. As casas não são só o branco ou o cinzento das paredes, também são a nossa alma. E quando o corpo está tanto tempo longe, começa a sentir falta da alma. É só chegar a casa, que fica logo bem.
Sombra di mamé i ta djudau.
(A sombra da mãe ajuda-te.)
 
Tão bonito este dizer: só a sombra da mãe já ajuda.
E não duvido. Estar perto das pessoas que mais amamos, das pessoas que mais nos amam tem, certamente, um poder inexplicável. Ou então muito simples de explicar, como fez o Barra.

É mesmo isso que eu preciso: a sombra da mãe, a sombra do pai, a sombra dos irmãos, dos avós... Preciso das sombras da família e dos amigos.

O que eu queria mesmo era esta coisa impossível de conciliar o inconciliável, de todos os lugares serem um só. Pois ainda que o sejam dentro de mim, cá fora há distâncias que o tempo aprofunda e intensifica. E eu, sendo esses lugares repartidos, vou esticando até doer um bocadinho. Agora, não o corpo (que esse está mais que saudável) mas o coração, precisa sim dessa presença que cura, dessas pessoas que basta estarem perto para nos encherem de vida, de luz.
O coração precisa dessa sombra de amor.

Na chuva que não caiu


"Aqui, realmente, somos felizes com pouco... De tudo fazemos festa!"

Era hora de almoço. Barriga cheia, mas a alma a precisar de mais. Talvez de aconchego, de casa, de família, de distração. E como nada está aqui, é necessário criar. Porque há alturas em que é preciso encher o tempo. Dias assim, em que nos pesa mais a saudade, as ausências. Então corremos a inventar alegrias, a sonhar encontros. E a lembrar, na verdade, porque somos felizes aqui.

- Preciso de um café expresso!, disse alguém.
Outra coisa que, em Bafatá, só inventando...
E entramos as três no carro para regressar ao escritório,  embora ainda nos sobrasse uma hora até voltarmos ao trabalho. A acompanhar, o céu escuro de nuvens acalmava o calor que continuava a suar em nós.

- Ai... Vamos passear! Vamos a algum lado!, disse outro alguém.
Pois "algum lado" também teria que ser inventado por aqui...
De repente, lembramo-nos do rio... Vamos ao rio!, gritámos.
E, quase em uníssono, responde-nos o vento forte que anuncia a chuva. A poeira começa a voar e as árvores a dançar em compassos soprados perto do céu.
- É mesmo isto que precisamos, um banho de chuva na ponte nova!

Seguimos num entusiasmo pleno de alegria, os saltos na estrada de terra batida, os meninos a acenarem no caminho. Nós contentes. Contentes de vida! Contentes pela chuva que ia cair mas não nos tinha ainda nem molhado. Contentes como se, por magia, tivéssemos bebido esse café expresso na companhia dos que estão longe e nos faltam.
Chegamos à ponte nova com o vento cada vez mais forte e corremos para olhar o rio, as nuvens carregadas que sentíamos já acolher em nós. Riamos plenas daquele sentir que não se explica, porque se sente mais profundo que as palavras, mais simples que qualquer verbo ou adjectivo, essa alegria inteira de comunhão com o mundo.
A paisagem enchia-nos o olhar naqueles que acreditávamos serem os últimos instantes ainda sem chuva. 
Caem então as primeiras gotas, mas a chuva não se demora em nós. O vento continua a correr e empurra as nuvens até quase limpar o céu.
E não houve chuva nem banho, mas nesta espera molhou-nos a energia e a paz, e voltámos, renovadas, para mais uma tarde de trabalho.

Foi já ao final do dia que a nossa Angie, ao rever as fotos dessa espera pela água que não caiu, concluiu, em espelho dos sorrisos gravados:
"Aqui, realmente, somos felizes com pouco... De tudo fazemos festa!"


Às vezes, o pouco é quase nada. Mas, a maior parte das vezes, o pouco é quase tudo.









Poeira

Passamos a vida a arrumar, limpar e lavar. De manhã vestimos roupa lavada e limpa e é assim que ela chega a casa no final do dia. O contrário só acontece em episódios que fogem à nossa vontade: a nódoa que cai à hora de almoço, a poça de água que pisamos distraídos, algo contra o qual esbarramos...
E a paz de quem se suja despreocupado?
Isto podia ser uma campanha de marketing para um detergente, mas não. É publicidade à vida, à espontaneidade, à simplicidade. Esplendores tão fora de moda nos dias de hoje...
 
Depois desta última semana passada entre tabancas de cajus e mangas, o castanho dos pés trazia ainda poeira de longe. A roupa na mala vinha mais pesada do pó entranhado. As t-shirts mais claras chegaram docemente manchadas dos abraços de meninos sorridentes, de crianças repletas de energia boa de quem se sabe sujar e de barrigas cheias de manga que ainda sobra nas mãos lambuzadas.
Não me comecei a sujar assim à toa, não. Mas, de facto, era tanta poeira, que a dada altura me cansei de sacudir e ter cuidado e decidi deixar de me preocupar com o quão suja iria chegar ao final do dia. E é absolutamente incrível a paz plena que se sente da simplicidade que vivemos quando não estamos a pensar se nos vamos sujar ou não.
 
Às vezes é preciso fazer um intervalo das roupas limpas, e sentar na terra. E permitir que a terra se sente em nós. Resistir ao impulso de sacudir as calças a cada instante e deixar que vão ganhando nova cor, confiantes no simples processo da água e do sabão horas mais tarde.
Há já demasiadas coisas sérias e difíceis nos dias, para nos perdermos em preocupações com roupa suja, problemas que a água limpa sem esforço. De vez em quando, que tal sujarmo-nos?
Para um bom equilíbrio, temos sempre a velha máxima: "Nem sempre, nem nunca". Então, por favor, aí pelo meio, sentem-se no chão, encostem-se a uma árvore, pintem com as mãos. Sujem-se. Porque a poeira sai e vida fica.
 
De regresso, a abrir a mala de roupa suja, guardo só a memória entranhada das pessoas, do pó que a estrada levanta com os nossos passos, de sentar no chão na melhor companhia do mundo e rir já sem saber de quê, coração contente de vida.

Encontro perfeito

com a chuva.















Os últimos dias foram demorados pelo Sul profundo desta Guiné-Bissau. Escolas, crianças, professores, pais, comunidades. Muitas escolas, muitos quilómetros percorridos. Corpo cansado dos caminhos que nunca viram estrada, costas doridas de um todo-terreno experiente da Guiné e dos saltos constantes em intervalos de terra que se abrem pelo mato.
Dia 15 foi o dia oficial do início da época das chuvas, aqui já aguardada com alguma ansiedade depois de meio ano em que o sol não descansou de brilhar. Mas o dia chegou sem água a cair do céu. Só nuvens fortes, a avisar que já não falta muito. E eu já a sonhar com a paz contente de correr em poças de água enquanto as nuvens se desfazem sobre a terra.
Hoje, no caminho de regresso, absolutamente exausta de cinco dias de trabalho bom e intenso, cruzamo-nos com vestígios de uma chuva que já tinha caído e inaugurado o cheiro inconfundível da terra molhada. E eu vinha a saborear e a respirar a sensação boa dos dias terminados, repleta de vozes, olhares e sorrisos misturados com o novo tom cinzento dos dias, em que o sol se substitui pela luz das pessoas inexplicavelmente bonitas que preencheram esta semana.
Chegada a Bafatá, o aconchego bom de estar em casa. Chuva, nem perto. O céu azul, só algumas nuvens a brincar distraídas. E era hora de descanso. Luxo bom do corpo na cadeira, os pés a descansarem no beiral do alpendre, a internet a relembrar esse mundo grande de gente e de saudades. E vem assim de surpresa, como o final perfeito num descanso esperado, aquele vento forte que anuncia a chuva. Criança feliz em mim, não tenho tempo nem de pensar, corro a sentir o vento fresco que levanta a poeira que a chuva ainda não acalmou e fico sem saber se será desta que virá fazer lama. O vento acalma e parece que foi só de passagem. Mas não; já de regresso a casa, começam pequenas pingas. A primeira chuva de 2013. Ainda sem pensar muito, tenho apenas tempo para partilhar a alegria quase ridícula (quase?)  num instante impulsivo.
E depois? Ah! Depois foi só sentir a chuva! A água a cair. O banho inundado de luz, de renovação. A sede da terra que soltava o calor guardado nos últimos meses. E foi assim até as mãos ficarem enrugadas, como a criança que não quer sair da piscina numa tarde de Verão.
Começou a época das chuvas da Guiné-Bissau. O sol continuará a brilhar em intervalos de arco-íris. E eu continuarei a aprender e a viver a magia de cada instante.