Mostrar mensagens com a etiqueta persistência. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta persistência. Mostrar todas as mensagens

Cores no céu

Ela gosta do Mundo. Mundo com letra maiúscula. Mundo que abriga pessoas, dessas que têm o Mundo dentro de si. E o Mundo e as pessoas confundem-se, a acrescentarem-se belezas mutuamente. Porque as pessoas onde mora o Mundo, sentam-se em diferentes lugares desse Mundo.
Parece confuso, mas não é. Porque tudo é uma coisa só.
E ela sempre com saudades. Das pessoas e do Mundo, desse todo inteiro que apenas a verdade e a entrega tornam pleno.

O caminho era novo. Não sabia o destino, mas a estrada chamava por ela. Parecia um regresso. Mas ela sabia que na vida não há regressos; tudo é uma novidade. O aqui não é o mesmo amanhã: passou-lhe o tempo e a luz, os sentires e as certezas, as memórias e os segredos.
Então seguiu, sem ver mais da estrada do que o chão que os seus pés iam pisando. No olhar, a atenção focada em ver o que o horizonte não mostrava; no coração, a segurança de pilares inabaláveis.

Como vinha de outras estradas, com outras luzes a iluminar, os seus olhos demoraram a acostumar-se, não conseguiam distinguir as cores e as tonalidades. 
Assim sem ver bem, a gente nem se sente direito. Como se a luz de fora interferisse com a luz dentro dela. Era preciso soltar o olhar, deixá-lo descobrir novos brilhos, novos raios a incandescerem o coração e o riso.

Passaram dias, muitos dias. Ou terá sido só um dia muito grande?
Só se sabe que ao amanhecer, espreitou pela janela, à procura de sinais desses que vêm do céu. E estava lá este arco-íris, a mostrar-se por cima das nuvens, a focar a atenção nele. 
Cores no céu que não iluminam, mas dão luz. Dessa luz que se bebe em suspiros de paz, em abraços de entusiasmo e fôlegos de confiança.

E ela agora segue o caminho, despreocupada com a estrada, passos serenos a descobrir ruas novas. Que os olhos ficam bem é lá no alto.



À procura

Há mesmo muita coisa que eu não sei. Mesmo muita. Nem estou a falar de factos e números. Estou a falar das coisas de dentro. Do que sinto. Do que quero. Do que sonho. E há mesmo muita coisa que eu não sei. Preciso conhecer-me melhor. Conhecer as ruas por onde passo distraída, os sítios onde me sento a descansar de olhos fechados sem ver o que está ao meu redor. 
Há tanto que eu ainda não sei. Tanto que eu não me sei.
Sei pouco. Sei-me mesmo pouco. Esse pouco que é agora o tudo que sei. Talvez deva partir daí.

Sei que não posso ficar. Mas não é altura de partir. Tenho a certeza disto. E sei-o, sinto-o, vejo-o. Não posso ficar, não quero partir. Nisto eu sei-me.
Acho que a resposta está no paradoxo de não poder ficar e não querer partir. 
Na relação entre estes dois "não's" existe todo um caminho estreito de possibilidades, mas largo de razões, imenso de entusiasmo, nú de verdades e vestido de alegrias.
É um caminho a desbravar, a asfaltar, a ligar em pontes estratégicas. 
É esse. Sim. É esse o caminho.
E não é tão paradoxal assim. O partir é o geográfico, e desse não é altura. O ficar é o conformismo, e para esse é demasiado cedo.
Não posso ficar. Não posso ficar resignada, não posso ficar alheada dos ideais pelos quais quero lutar, não posso ficar nas ações sem intenção, nos gestos vazios. Não posso ficar.
Mas não quero partir senão de mim. De mim para fora. Viagem entre gentes e não continentes.

É este o caminho.
Descobri-o agora, agorinha, no abstrato das palavras em que me concretizo.
Preciso ir além da poesia. Tudo é mais fácil na poesia. E mais difícil.

Vidas

A vida é só uma, mas há tantas vidas. Tantas histórias, tantas relações, tantos percursos, tantas saudades, tantos amores, tantos sofrimentos, tantos caminhos.
A vida é só uma, mas nós somos muitos. Todos os que cabem no "nós". Mesmo muitos. E somos tantos, que nos esquecemos, por vezes, que a vida é só uma. A(s) nossa(s) vida(s) cruza(m)-se e permite(m)-se vida nesse cruzamento. Só num emaranhado de existências acontece Vida.

Desde criança que me inquieto acerca do que existe nas pessoas que passam anónimas nos meus dias. Na senhora da caixa do supermercado, no jovem no autocarro, nos viajantes dentro do avião que voa lá no alto.
Não conhecemos a pessoa para além da imagem do corpo. O que há dentro dos olhos, atrás de cada semblante? Desconhecemos.

Mas sempre que descobrimos as histórias dentro da imagem, aquela existência é então parte da vida, da nossa, ainda que uma só.

Tenho descoberto muitas histórias e muitas pessoas; (d)efeito profissional em espaços que se dão à partilha, quando o secreto de nós se quer libertar, quando os gritos já arranham a garganta para saltar cá para fora. Nem sempre sei o que dizer, nem sempre tenho respostas adequadas, nem sempre tenho novos caminhos a apresentar. Restam-me os olhos arregalados e os ouvidos atentos. E o coração aberto a essas existências que aumentam a vida que eu conheço.

Como agora, há pouquinho, ao ouvi-la na pequena epifania da sua vida só inteira quando misturada nas vidas nos outros, uma só afinal.
Enquanto os olhos brilhavam do que doía, o sorriso aberto e sincero confundia-me. Como se não se pudesse sorrir à dor. Mas pode-se. Assim ela até fica mais calma e retribui o sorriso em jeito de intervalo da agonia.
Falava-me de sofrimento, de clausuras da alma e do corpo, de distâncias, de vazios, de isolamento.
E aquele sorriso sempre aberto, sempre inteiro, sempre maior que a tristeza das palavras.
Contando já algumas semanas desde que a conheci, nunca adivinharia assim um cansaço de amarguras. Tal é a alegria constante, a voz firme e doce ao mesmo tempo, a energia e o entusiasmo. Afinal, pode-se sofrer a sorrir. Quem diria?

Incrível como um trabalho que paga tão pouco me enriquece tanto! 
Eu a colecionar tesouros.

Avançar

Avançar. Um pé à frente do outro. Sem pressa. Sem vontade, às vezes. Sem saber para onde ir, outras vezes.
Avançar. Não ficar parado. Caminhar. Devagar, que seja. Rápido, se assim for.
Avançar. De olhos no chão, desinteressados. Ou a olhar à volta, deslumbrados. Olhos fixos no horizonte, na certeza da direção, na miragem da meta. Qualquer que seja o teu olhar, avança.
Avança. Como puderes. Mas avança. Não te detenhas parado em ti próprio.
Avança. Porque só avançando se chega mais longe. Porque só avançando poderás sair de onde estás. Porque só avançando crias novas realidades. Porque só avançando dás novas oportunidades a ti próprio e à vida. Só avançando.
Se tiveres que chorar, fá-lo enquanto caminhas. A brisa da estrada secará as tuas lágrimas e ainda há tantas curvas a esconder surpresas e paisagens. Ainda há tantas pontes a ligar a outros caminhos. Ainda há tantas planícies para descansar. Tantos lagos de água fresca. Ainda há tantas praias para ver o sol adormecer. Tantas colinas para esperar um novo dia. Ainda há tanto, tanto, tanto para te encher o peito de tanto, tanto, tanto.
Não traves o escuro à volta, se ele existe. Aceita-o na noite que cai e descansa as energias para o novo dia. Há sempre um novo dia. E ainda há tantos dias!
Avança! Há muito à tua espera. Então vai. Confia. Segue. E aceita. Aceita que às vezes estás triste, que não te apetece, que estás cansado. Aceita e avança. Cada passo que dás estás mais perto. A cada passo que dás és mais tu, mais inteiro, mais realizado.
Aceita. Confia. Avança. Deixa o teu crescimento fazer-se sereno, deixa as aprendizagens rasgarem em ti novos rumos de alegrias. Deixa nascerem esses dias em que o sol te cega de entusiasmo, em que os risos gritam em ti a vida a acontecer, só porque não desististe de avançar.

 

Caminhos

Os caminhos que se fazem.
Os caminhos que nos fazem.
Sou os meus caminhos e o que sou faz-me caminhar.
A estrada segue, ora com pés que a pisam, ora com pés que a desenham.
O olhar fica perto só para saborear as pequenas banalidades que dão vida à vida, mas é longe que ele mora. Sempre longe moram os meus olhos. Acompanham-me em cada instante, e é quando descanso que eles fogem por aí, a ver caminhos.
 
E porque eu sempre serei o que faço (fazendo o que sou), não sei o que fazer.
Quando decidimos a direção, parece fácil saber para onde ir. Mas nem sempre é assim. Muitas vezes, vemos o destino, mas são conhecemos o trajeto.
O importante, acredito, é não parar de caminhar. Mesmo que nos desviemos um pouco, há sempre coisas novas a aprender e descobrir, paisagens para conhecer, pessoas para encherem o nosso coração. Mesmo que doam as pernas, caminhe-se mais devagar, mas não se pare. E há tantas formas de caminhar...!
 
Então, quando surgem ruas novas, cidades que queremos conhecer, poderá ser necessário passar uma ponte, atravessar para outra estrada. Se quisermos, se for esse o nosso sentido, se assim o sentirmos.
E quase nos surpreende perceber que não podemos fazer duas coisas ao mesmo tempo, estar em dois lugares ao mesmo tempo, ser duas pessoas ao mesmo tempo... Porque queremos fazer tudo, não abdicar de nada, estar em todos os lugares, em todos os tempos, com todas as pessoas.  
As encruzilhadas dividem o nosso coração e a nossa cabeça. Se por um lado nos entusiasmam as possibilidades, por outro atormentam-nos os finais.
Despedidas nunca foram o meu forte. Sou de encontros, de partilhas, de "para sempre", de chegar, de acolher. Não sei partir. Não sei estar longe.
Apesar de estar continuamente a partir, só quero ficar.
 Apesar de estar sempre longe, só quero ser vizinha de todos.
 
O bom desta encruzilhada é que, olhando os dois caminhos, se em ambos o meu coração fica sem um pedaço, em ambos também há um mundo de coisas e pessoas que me encantam e aconchegam. Então talvez o meu problema seja apenas a abundância de graças e bênçãos.
E saber que, num caminho ou no outro, é de mim que dependem a alegria, o entusiasmo, a verdade, a entrega e a paz.
 
Num caminho ou noutro, serei eu. Em caminho. Sempre.
 
 
 

Pequenez

Tenho pensado em como preciso ser maior. 
O mundo é uma caixa de desafios e às vezes sinto-me esmagada pela complexidade de alguns. O primeiro instinto é ignorar, olhar para o lado, fingir que não percebo. Depois acabo sempre perdida em reflexões vazias de respostas e volto a fingir o meu desentendimento. Ainda que nem precise fingir muito, porque a maior parte das vezes não percebo mesmo. E quando percebo, vejo soluções tão simples, que fico a pensar que talvez não tenha compreendido realmente o problema.
Vivo entretida a tentar fazer alguma coisa, realizada por me sentir a viver o meu sonho, feliz por alguém o ter escolhido por mim, pois certamente eu não saberia escolher tão bem. Mas o sonho é maior que a sua própria vivência e eu sou mais pequena que a realidade. Tão pequena que não consigo sequer tornar real o sonho que vivo. Serei eu digna deste sonho se me limito a sonhá-lo?

Na verdade, sinto-me absolutamente inteira na minha pequenez. Então talvez me falte apenas essa humildade: reconhecer o meu tamanho enquanto o vivo em plenitude. Concentrar-me nas minhas pequenas e invisíveis tarefas e depositar nelas o entusiasmo e a dedicação de uma odisseia. Se é isto, fico tranquila na minha alegria grande de vida e prometo seguir atenta. 
Mas, ao mesmo tempo, assusta-me o quão facilmente nos contentamos com a nobreza dos nossos actos, com o "fazermos" a nossa parte". É isto que dizemos a nós próprios em momentos de frustração; é isto que dizemos aos outros quando os vemos desanimados. E a verdade é que traz sempre um efeito apaziguador. Ficamos em paz e continuamos o nosso caminho.

Eu confesso: sinto-me tão bem nas coisas pequeninas! Que acho que procuro apenas argumentos para me manter ocupada e feliz com elas... E quando olho para o mundo, repito a mim mesma esse cliché fofinho: "Estou a fazer a minha parte." 
Depois tudo ficaria bem, não fosse essa voz que diz baixinho: "E se não for suficiente?"

Cooperação


"Os que asseguram que é impossível, não deveriam interromper os que estão a tentar."

Igualdade? Justiça? Paz?
A verdade é que, no fundo, nem mesmo nós sabemos se é possível. Mas isto é segredo, não contem a ninguém. Não sabemos, mas não queremos aceitar que não o seja. E não nos obriguem a aceitá-lo. Também vocês não têm a certeza de que é impossível. Não sabemos. Ninguém sabe.
Então, fazemos assim, meio termo encontrado para ninguém se chatear: nós não vos obrigamos a lutar por algo em que não acreditam e vocês não nos obrigam a desistir de algo em que acreditamos. E continuamos todos amigos e com muito para falar, que o que não falta são temas de conversa, e há tanto em que concordamos, e tanto mais em que as nossas discordâncias nos fazem crescer.
Mas nisto não... Nisto são vocês a repetirem que os nossos esforços são inúteis, contraproducentes até. E nós, apesar de nos debatermos no conflito permanente entre a entrega e a frustração, entre preserverar e desisitir, queremos continuar. Se fosse para desistir, já o tínhamos feito há muito. São tantos os obstáculos a ultrapassar que, transpostos estes, não são os vossos argumentos insistentes que nos vão tirar do caminho.
Há quem ache que somos os maiores do mundo, há quem ache que somos uns aventureiros apenas, há quem ache que somos sonhadores inconsequentes. Podemos apenas ser? Podemos apenas ser pessoas como outras quaisquer? Com uma profissão qualquer? Podem não se demorar em nós só para dizerem que o que fazemos é inútil? Podem parar de tentar convencer-nos que é impossível? Se não ajudam, pelo menos não atrapalhem. Se não constroem, pelo menos não destruam.
Deixem-nos encher os dias de poesia, de clichés até. Deixem-nos acreditar, deixem-nos trabalhar. Não precisam elogiar. Prefiro até que não o façam. Mas deixem-nos descansar a frustração nos exemplos que nos inspiram a continuar. Deixem as convicções e os ideais seguirem sem serem constantemente atacados.
E não se ofendam com o que digo. Não o digo apenas a vocês, mas também a mim. E uso-vos, a vocês sem nomes e sem caras, de muitos nomes e muitas caras, para defender aquilo em que acredito. Porque às vezes, quase precisamos que nos contestem para que, num impulso de defesa, aumentemos a confiança em nós próprios.
Eu, confesso, também queria acreditar, ter a certeza de que era impossível. Ai, ia ter tão mais com que me entreter! Mas não... Não consigo, não quero, ainda, não já, desistir. Preciso tentar.
Quase como os adolescentes que vemos a descobrirem o mundo e a vida. Não vamos sentar o adolescente de 15 anos, olhá-lo nos olhos e dizer-lhe: "Eu sei que estás muito apaixonado, mas olha que o mais provável é que isso não dure tanto quanto pensas e que venhas a sofrer horrores com o fim do teu primeiro amor! Mais vale termirares já essa relação." Não fazemos isso. Primeiro, porque seria demasiado cru, demasiado duro; são aprendizagens da vida que ele tem que fazer, que nós já fizemos. E, segundo, porque não temos a certeza de que não será, de facto, aquele amor a acompanhá-lo até ao fim dos seus dias. E a vida não é feita de probabilidades.
Então sim, talvez seja nesse aspecto ainda uma adolescente a descobrir o mundo. Mas, se desistir, que seja porque tentei tudo o que tinha para tentar, que dei tudo que tinha para dar. E ainda assim, esperarei, no segredo do meu coração, que um outro alguém venha a tornar possível o impossível, numa das suas muitas tentativas.
Nas últimas semanas tenho estado a estudar um pouco algumas questões da pobreza no mundo, através de uma formação à distância. E não, não tive, não tenho, nem me parece que venha a ter, respostas formidáveis e novos caminhos nunca antes pensados. Mas colecciono vontades e inspirações, novas perspectivas e novas ideias, partilhadas por pessoas que têm estudado muito tudo isto, e continuam sem certezas. Ninguém consegue provar que é possível. Ninguém consegue provar que é impossível.
Mas estas pessoas continuam a estudar e a procurar porque acreditam. E eu quero acreditar com elas.
"I believe we can.
And I hope we will."
Esther Duflo

Mais. Melhor.


É tanto o que quero ser e tão pouco o que, de facto, faz parte de mim na plenitude inquestionável de quem é. Mas é para lá que caminho. Digo eu. Escudo-me na afirmação do passos que dou pela estrada que é a certa, desvalorizando, ainda que inconscientemente, a lentidão dos passos, as hesitações, o tempo passado a colher flores, a olhar o céu, adiando, de forma consciente, mesmo que não propositada, a caminhada efectiva, a intencionalidade dos ideais cuja utopia quero despir.
Falta-me a pureza das intenções e a persistência das acções. Falta-me a humildade e o desprendimento necessários para não me regozijar com os passos que se seguiram firmes na etapa anterior… Falta-me olhar em frente e ser mais forte que as distracções. Mais forte que eu. O eu que ainda não é do tamanho que quero.
Crescer mais, aprender mais, amar mais, dar mais. Crescer melhor, aprender melhor, amar melhor, dar melhor. Ambições sempre insatisfeitas, esforço sempre insuficiente.
 
E, ainda assim, alegria da vida e de mim, a querer mais, sempre mais, mas inteira de paz.
 
 

A magia dos princípios


Último dia do ano.
Esperamos 2013 com a alegria infantil de primeiro dia de aulas. Mochila nova a estrear, lápis, canetas e cadernos que ainda brilham. A promessa interior de maior dedicação aos estudos, de concentração, de organização irrepreensível.
Todos os princípios têm este poder bonito, esta sensação boa de que vamos fazer melhor, vamos ser melhores. No princípio da semana. No princípio do mês. No princípio do ano letivo. No princípio do ano civil.
Princípios. Aparecem-nos sempre como novas oportunidades. Como um começar de novo e ter hipótese de fazer tudo melhor, mais bonito. Como a folha branca que esperamos ansiosos para preencher com letra cuidada, sem rabiscos nem erros ortográficos.
Que entremos em 2013 com a confiança do aluno que segura a mochila nova nas costas. Que os dias sejam cadernos em branco que preenchemos com cuidado.
E que este poder dos princípios seja renovado a cada dia, numa confiança continuada em nós e no mundo. Em nós no mundo.

Cenouras


Magia.
Preciso de magia. Preciso de ver coisas que façam os meus olhos brilharem. Preciso que os meus olhos brilhem. Nem que para isso tenha que ser eu a fazer a magia. A aprender truques e ensaiá-los. Mas preciso de magia. Mesmo que eu saiba o segredo por trás. Preciso de magia que semeie esperança no meu coração. Preciso de magia que me faça acreditar que tudo é possível. Porque se eu deixar de acreditar, nada mais é possível. E ainda é muito cedo para desistir.
Mas às vezes fico cansada, sem motivação, sem vontade. E ainda bem que me sinto assim, porque me obrigo a ultrapassar e crio mecanismos novos.
Estar pelo segundo ano na Guiné-Bissau é partilhar de cumplicidades construídas, de uma comunhão bonita com as pessoas, de uma aprendizagem profunda de tantas coisas que as palavras não conseguem abraçar. É já saber o caminho de cor e, mesmo assim, deixar-me deslumbrar pelas belezas repetidas, sem deixar que percam a intensidade que senti a primeira vez que as vi. Mas é difícil. É mais difícil.
Aceitar os constrangimentos diários constantes e multiplicados, lidar com os mesmos problemas já com menos paciência, o calor absolutamente insuportável, a dificuldade de fazer as coisas mais simples e a impossibilidade de fazer as mais elaboradas, as saudades de casa e dos meus, os bichos por todo lado, a instabilidade política e militar que nos mantém num clima de incerteza e insegurança perene…
Às vezes sinto-me como o burro que segue caminho a perseguir aquela cenoura que alguém pendura à sua frente. Com a diferença de que sou eu própria que coloco a cenoura à minha frente.
Porque quando os estímulos exteriores são, de todos os lados, no sentido de parar, ou seguir por outro caminho, lutar pelas nossas convicções, ou até lutar simplesmente pelo nosso bem-estar, implica voluntariamente seguir cenouras penduradas. E fazê-lo diariamente. Várias vezes ao dia até.
Não sei, de facto, se isto é teimosia ou perseverança. Mas chamemos-lhe perseverança. É mais bonito. Soa melhor.
Voltando às cenouras, a verdade é que me têm ajudado a seguir com o entusiasmo do qual não abdico. Frases que vou encontrando, imagens que alguém partilha, um livro, uma série que me faça rir com vontade. Tudo que possa promover o optimismo e a acção empenhada, dinâmica, criativa. Coisas que me obrigam a parar, a pensar no sentido mais profundo dos acontecimentos, a reflectir e construir paz bem dentro de mim. E a verdade é que sempre chego ao ponto em que consigo ultrapassar os obstáculos que inicialmente me pareciam intransponíveis, chego sempre à conclusão que afinal não era assim tão complicado, não era assim tão grave. Sempre reconhecendo infindáveis bênçãos nos meus dias e rendida a uma sensação de gratidão plena.
Claro que não demora muito até uma nova situação perturbar a serenidade alcançada, mas já sei o caminho para reconquistá-la rapidamente. 
É uma questão de treino.
O sorriso, a alegria, a boa disposição, não têm que ser sempre espontâneos. O optimismo treina-se.  E como tudo aquilo que treinamos, vamos ficando cada vez melhores, e ser feliz cada vez é mais fácil. E não, não são as circunstâncias que decidem. Somos nós. Sou eu. És tu.
E é difícil, claro que sim. É preciso treinar!
É preciso abrir bem os olhos e procurar na paisagem impulsos de alegria para seguir; é preciso saber encontrar nos dias os rasgos de humor, é preciso saber brincar sem pensar na desarrumação, é preciso jogar sem pensar em ganhar.

É preciso um quintal repleto de cenouras para colocarmos à nossa frente.
Se não temos cenouras, talvez esteja na altura de começar a semear.

Erradicação da pobreza

Hoje é o dia da Erradicação da Pobreza.
É só mais um dia?



Num mundo de crise económica, de aumento do preço de combustíveis, de acréscimos constantes em tudo que é imposto, de desemprego, de insatisfação social profunda... a pobreza torna-se mais evidente, mais próxima, mais real.
O que fazer na nova pobreza que está a surgir?
Talvez responder a isto ajude a resolver também a pobreza mais antiga, mais profunda.
E hoje, provavelmente por todo mundo, há eventos apropriados ao dia, há seminários a discutir o assunto, há sessões de sensibilização. Nenhum pobre fica menos pobre. Ou ficará?
Mas é bom que se pare e pense. Nem que se repitam as reflexões, nem que parecem impossíveis conclusões. Quando tudo o que se pode fazer é pouco, que se faça esse pouco. Nunca nada!
Um dia, depois de tanto andarmos em círculos, depois de tanto escrevermos as mesmas teorias, um dia, depois de mais umas quantas manifestações, de outras tantas imagens chocantes nos telejornais, um dia, depois de tantos outros dias, somados todos os esforços, vamos estar mais perto...
Até lá, continuemos, como podemos. E quando isso não for suficiente, continuemos como não podemos.
É... o mundo parece não ter muitas razões para nos animar nos dias que correm.
E logo aqui começa a nossa responsabilidade: vamos nós animar o mundo!
Tudo começa com um pouco de bom humor que ajuda a relativizar; com um sorriso que desenha outros, com uma ação motivada que convida mais braços a erguerem-se. 
Enfrentemos as dificuldades com seriedade, mas de sorriso no rosto. Exijamos mais, mas não só para nós, para o mundo. Mas exijamos!
Falo de contentamento, mas não de nos contentarmos. Isso nunca!
Agora, vamos pensar: atravessar as dificuldade de mau humor, cabisbaixos, sem esperança? Ou atravessá-las em boa companhia, com boas conversas, com gargalhadas soltas e contagiantes? O caminho é o mesmo, mas os passos seguirão mais ritmados.
Até a montanha mais alta tem o seu cume. E se caminharmos juntos, será um passeio!  Há conversas para partilhar, paisagens para contemplar... Tudo isto enquanto seguimos de passos firmes. Mas nada nos obrigada a caminhar sozinhos, sérios e calados encosta acima.
Reclamar pelas pedras maiores que temos que escalar só nos faz gastar energias desnecessárias e lentifica o nosso andar.
Sigamos de sorrisos no rosto,
Quem não quer caminhar feliz, que invente outro caminho, que ponha mãos ao trabalho e fure a montanha num túnel para o outro lado.
Alternativas, sim. Mau humor, não. Só atrasa. Só cansa.
Eu também queria (oh, se queria!) outro caminho. Um mais fácil. Um mais justo. Não estes em que uns vão a pé sem nem terem tomado o pequeno-almoço e outros seguem tranquilos num helicóptero.
Eu também queria... Continuo a acreditar que um dia vai ser possível. Continuo a dormir e a acordar com a responsabilidade de fazer algo concreto, real, com impacto positivo a longo prazo na Vida. Não na minha vida, não na tua vida, não na vida de alguns. Na Vida.
Enquanto não consigo - e sem saber se algum dia conseguirei, se terei a preservança suficiente, a inteligência suficiente, a audácia suficiente, a criatividade suficiente - sigo pela montanha como consigo. Cheia de sorte pelos que caminham comigo e sempre a tentar encher o coração de coisas boas, para que o resto não tenha espaço.
Hoje é o dia da Erradicação da Pobreza.
Um dia não vai ser dia.

Utopia na palma da mão

O que é possível?
O que é impossível?

Alguém disse uma vez: "Se consegues imaginar, é real."
E é ainda mais real quando sabemos, no mais fundo e verdadeiro de nós, que é possível.
É difícil, oh sim, é muiiito difícil. Mas é possível.
E não é isso que nos faz acordar de manhã e seguir pelos dias feliz e confiante? A mim é.

Mas às vezes não chega pensar, desejar. É preciso agir.
O que fazer quando não sabemos o que fazer?
A minha resposta foi: escrever!
E porquê?
Acima de tudo para não esquecer.

Um dia, pedi à minha mãe: "Por favor, se algum dia vires que me estou a acomodar, lembra-me dos meus ideais, lembra-me de quando eu acreditava que era possível lutar por um mundo melhor. Não deixes que me esqueça. Nunca me permitas que desista."

Atirar-lhe esta responsabilidade deixou-me mais tranquila. Mas a verdade é que tem que começar em mim.

Utopia na palma da mão é isso mesmo. Essa coisa quase imaginária, mas real, se o quisermos. Se formos ainda mais a querer.
Às vezes, quando estou muito atenta, vejo utopias que deixam de o ser, vejo o esboço de caminhos seguros... Mas depois vem a  vida, e distrai-me.
E outros dias, mesmo distraída, sou surpreendida pelas belezas mais inexplicáveis.

Quero aqui pensar sobre essas utopias, esses caminhos. Quero aqui partilhar os pequenos milagres do dia-a-dia que são ponte para novos sonhos, que não inspiração para novas lutas.

Se não conseguir mudar nada, que nunca seja porque deixei de acreditar, que nunca seja porque deixei de tentar.