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Beleza Colateral

É das coisas mais poderosas, mais comoventes, mais enternecedoras: a beleza que emerge da tristeza. Não a anula, não a compensa, não a justifica. Mas está lá. E tem sempre uma luz que vale a pena deixar iluminar.

Colateral é algo que acontece em simultâneo, em paralelo. Normalmente associado a uma conotação negativa: quando se fala de "efeitos colaterais", geralmente estamos a referir-nos a consequências indesejadas ou não previstas de determinado acontecimento ou circunstância.
Mas beleza colateral é mais do que isto. É estar triste ou em sofrimento e ver esse estado momentaneamente interrompido por instantes de amor, de paz, de fôlego, de alegria.

Gosto sempre de me demorar nas belezas colaterais. Há algumas que não esqueço:
a minha mãe a cantar para a minha avó nos seus últimos dias de vida, a ternura do Glodi quando me viu a acordá-lo a meio da noite, a Duda atenta ao sofrimento do pai quando o avô Eduardo partiu. Tudo pedaços de momentos de tristeza e sofrimento; tudo pedaços da essência mais bonita e pura de amor, de ser humano, ser gente, ser pessoa mais do que corpo, e certeza dessa energia que nos habita (alma, espírito? eu sei lá. eu quero lá saber. a nossa essência. qualquer que ela seja).

Nestes dias de pandemia, medo, insegurança e angústia quanto ao futuro, procuro ancorar-me em pequenas belezas colaterais: a caixa de máscaras gentilmente partilhada no escritório, as palmas à varanda, o sentido de missão dos profissionais que não podem ficar em casa, a preocupação e o cuidado uns com os outros, os rasgos de humor, o tempo extra de mimo e aconchego que nos devolve o sentido de relação.

Para estes dias de recolhimento, fica o desafio: procurar e partilhar belezas colaterais.

E que nos cuidemos. Isolados, mas mais juntos que nunca.
(outra beleza colateral)

#belezacolateral

Balanço

Ubuntu. Eu sou porque tu és. Somos.
Dias em Moçambique, dias em Ubuntu, dias em Amor.
E agora sempre?

Balanço destes dias. 
E coração a balançar.
Não sabe se vai ou se fica. 
Tem a certeza da viagem, do percurso, da âncora a aguardar.
Mas balança em vento de luz, entre um e um que só são reais na intenção.
Coração balança contente de vida. Balança pesado de inspiração. 

E neste balanço, o mais importante, é partir sem ir embora.
Fazer as malas sem esquecer nada e sem ir embora.
Entrar no avião inteira sem ir embora.
Ficar.
Ficar nos dias e nas pessoas que nos impelem a ser mais e melhores. Ficar na contemplação, no cuidado de entrega, no despojamento que deixa espaço para o mais importante. Ficar em mim. Aqui. E partir assim.
(Depois desta plenitude boa, não posso ir embora de mim.)

Fecho os olhos e há um sol a iluminar. Incandescente de paz no sentir.
Na escuridão dos meus olhos fechados, há cores a dançar. Há um silêncio solene rasgado por risos contentes e logo novo silêncio de escuta. Alegria a ressoar cá dentro. Olhos em água brilhante na emoção deste encontro tão bonito.
Adormeço em sonhos das imagens dos últimos dias, bêbada de gratidão deste Tanto imenso.

Foram dias repletos de inspiração com pessoas incríveis. Mostraram-nos um Moçambique de sonhos e caminhos, de pontes largas e sólidas a ligar todas as esperanças num mapa de novas estradas.

E nos profundos, demorados e repetidos abraços da despedida, ficámos misturados nas energias felizes de quem acredita no Mundo.

(E nada disto é exagero de metáfora ou poesia. Foi assim mesmo. Coração a explodir sereno. Tanto. Tanto. Tanto!)

Ubuntu. Eu sou porque tu és. Somos.

Estamos juntos!


Devolução

Abriu a época de saldos.
O valor dos seres humanos parece descer cada vez mais e é preciso definir regras para gerir toda esta mercadoria de gente. 

Juntam-se alguns outros seres humanos, daqueles de melhor qualidade, mais caros. Sentam-se confortavelmente em cadeiras de pele à volta de uma mesa. Olhares consternados de quem tem sérios problemas para resolver. Imponência de quem é Deus na decisão de destinos e de vidas.
"É para devolver!"
E eles chegam. Barquinhos pequeninos a transbordar de gente que desafia a sobrevivência. Então é assim: quem não morreu na travessia nem na emoção da chegada, volta para a Turquia. Foi uma boa solução encontrada. A possível. A única possível, claro está. E todos cheios de boas intenções. Por cada criatura dita humana que se devolve, os senhores do outro lado podem mandar uma da mesma espécie, que já estivesse à espera de caminhos. Só assim se consegue gerir esta confusão desenfreada!

Ai! Era o que mais nos faltava, a nós, pobre europa, ter que resolver os problemas desta gente de outros continentes. Nós que nem temos nada a ver com isto! Já muito fazemos nós! Já muito fazemos nós!

Não trazem fatura nem um recibo agrafado na orelha. 
Cometem o crime da esperança de uma vida melhor, de fugir do terror, de sonhar com paz.
São devolvidos e trocados por outros. Cromos de uma caderneta de líderes políticos. Toma lá estes 400 e mandem então 400 dos que já estavam aí. A ver se esta gente aprende que não pode ser assim à toa. Lá porque fugiram a arriscar a vida num pedaço de plástico sobrelotado, em ondas desconhecidas e noites frias, lá porque guardam no olhar e na alma sofrimentos inimagináveis. É lamentável, de facto. Mas não há mais que se possa fazer!

Por falar nisto, ando há dias para ir devolver uma camisola... Acho que já passou o prazo. Que chatice! Lá vão os 20 euros, que aquilo não me serve. 
Pena não ter comprado uma pessoinha, dessas de pouco valor, que vêm com os amigos nos barquinhos. Era mais fácil devolver.

Quando não estiverem tão atarefados, devolvam-me a mim também, por favor.
Sou tão boa como vocês. Revolta vestida de ironia e sarcasmo, e sempre o silêncio das ações.



Das Línguas

Chovia de leve; constante e sem ameaçar parar, a chuva era a banda sonora que lembrava esse choro dorido de quem já gastou demasiada energia a sofrer.

O palco abrigado e eles para contarem uma história. Refugiados. Gente sem terra numa Terra que é de todos. E guerras. Guerras de ninguém. Guerras de todos!

A chuva continua a cair num ritmo que embala a história e envolve o palco. Refugiados. É teatro, mas antes que te expliquem, percebes que é real. Uma autenticidade assim não vai lá com ensaios!
Usaram palavras portuguesas, mas vestiram-nas de diferentes pronúncias desses lugares que deixaram de ser casa. E cada palavra era mais mundo.
Também disseram coisas que eu não entendi; outras línguas nas quais não fui capaz de reconhecer significados, mas bebi o sentido nas lágrimas que se misturaram na chuva.

E depois a identidade. A pertença. As roupas que vestimos nas personagens que são reais, em palcos que são vida a sério sem encenação.
De que língua é a tua identidade?

Mais do que uma língua para comunicar, precisamos do silêncio que olha no fundo dos olhos de qualquer pessoa e se encontra inteiro lá dentro.
Há algo em nós, seres humanos, que será sempre encontro sagrado. Somos uns nos outros. Somos uns pelos outros. E somos outros. Somos. 

Agora

E as ondas do mar trazem-me à praia. Morta. 
As ondas do mar trazem gente, essência da minha, eu deles, nós todos uns dos outros.
Somos todos nós a seguir embalados pelas ondas do mar. Todos nós. 
uma Humanidade: é a minha Humanidade, é a tua Humanidade, é a Humanidade que partilhamos. Todos. E é nela que morremos em ondas que embalam vidas mortas, em ondas que entregam à praia o sofrimento que vem lá desses outros continentes. 
Demoramo-nos nestas imagens, mas o mais grave não é sequer o que está a acontecer nas marés do Mediterrâneo. O mais grave continua a acontecer nesse longe de onde as pessoas fogem.
E ainda bem que fogem. Ainda bem que se querem salvar. Ainda bem que não desistem da vida. E ainda bem que nos incomodam no seu caminho de sobrevivência. Talvez um dia não precisem fugir.

E é o mar o grande herói. Que traz as pessoas para perto. Que traz a morte e o sofrimento para um continente que fingia ignorar o que se passa ali ao lado. As ondas do mar são como binóculos. Obrigada, mar. Agora é quase impossível ignorar.
Já quase ninguém aguenta novas imagens de famílias desesperadas. Já quase ninguém aguenta ver-se a morrer enquanto humanidade numa praia qualquer. Já quase ninguém aguenta o medo no momento da fuga. Quase, porque ainda há quem se sente confortável na sua vida, sem angústias de mundo na alma. Mas esses não nos importam agora. Já quase ninguém aguenta. Que bom! Era preciso um dia deixarmos de aguentar.
Mas este mar é também berço, maternidade. Poderá ser. Poderá ser este o momento de se sentir Humanidade. É que tudo nos dói aqui tão perto e, afinal, somos tão comuns! 

E não importa o que falhou até aqui, não faz mal ser só agora esta atenção ao outro, não faz mal termos demorado tanto. Não faz mal; já passou. Se é agora, que seja agora. 

Outra vez.


Já não há Governo na Guiné-Bissau. Outra vez.
A luta pelo poder ganhou. Outra vez.
As pessoas estão cansadas e descrentes. Outra vez.
A ajuda internacional vai limitar drasticamente os apoios. Outra vez.
O desenvolvimento que estava a acontecer nos últimos meses vai retroceder. Outra vez.
Os agentes de cooperação verão o seu trabalho fugir num vazio repetido. Outra vez.
O coração dói-me de Guiné. Outra vez.

Estou zangada, triste, revoltada. Penso nas minhas pessoas, todos os meus pedaços de Guiné-Bissau e queria dizer-lhes que isto é tudo mentira. Não acredito que isto está a acontecer. Outra vez!
Mas não faço nada. Reclamo. Escrevo. Contesto. 
Quieta de ações.

Nas últimas duas semanas e meia, há ratinhos a passear lá em casa. Esquecem-se os problemas do mundo e tudo gira à volta desse drama doméstico e do pânico ridículo e incapacitante. Veneno aqui e acolá, várias viagens à drogaria, mais uma ratoeira. Não desisto e continuo à procura de alternativas que me possam resolver o problema definitivamente.
Se os problemas do mundo fossem ratinhos na minha casa, talvez não dormisse até os resolver; talvez procurasse todas as estratégias possíveis, pedisse ajuda à família, aos amigos e aos vizinhos e mobilizasse toda gente na procura de uma solução. 

Fico a pensar que as guerras, os conflitos, as violações dos direitos humanos, deviam todos acontecer nas divisões das nossas casas. Espécies de hologramas indesligáveis que não nos deixassem viver o dia-a-dia. Gritos de morte a acordarem-nos durante a noite; militares de cara fechada e armas apontadas a nós, bombas a explodir regularmente enquanto descansamos no sofá a ver televisão ou quando tomamos banho pela manhã.
Talvez assim nos uníssemos a sério. Talvez assim a nossa preocupação com o mundo tivesse espelho em ações concretas com repercussões efetivamente positivas. Talvez o mundo fosse Mundo.
Talvez.

E a culpa é minha. A culpa também é minha. E tua. E de todos.
Sinto a culpa e não faço nada. Reconheço a minha responsabilidade e não faço nada. Deixo os dedos saltarem no teclado do computador, mas não faço nada. É só mais um texto a divagar, sem caminhos nem soluções; um conjunto de linhas para aliviar um pouco desta angústia cá dentro que dificulta a respiração. E vou continuar sem fazer nada. Outra vez.

Ubuntu

Ubuntu.
Eu sou porque tu és.

Viver em sociedade implica pisar o mesmo palco que muitos outros atores, sem que haja possibilidade de estudar o “guião” previamente. Quem é, afinal, o Outro com o qual me cruzo no palco? Qual é a sua essência? E de que tamanho é este palco? É sociedade enquanto cidade? Nação? Humanidade?
Antes, respondamos a uma questão ainda mais básica:
Porque tenho que me relacionar com o Outro?
Será que é possível viver individualmente? Sem qualquer relação com Outro?
No limite, a relação com o Outro explica-se pelo próprio egoísmo da felicidade; e a felicidade basta-se pela relação com o Outro. Qual será, na verdade, a maior vantagem que posso obter desta relação? Não serão a cumplicidade e o afeto? Não reside no Outro a verdade da minha humanidade? Parece claro que sim. É intuitiva a semelhança que nos aproxima de todos os seres humanos e as diferenças que nos fazem iguais na medida de cada diferença.
A humanidade do Outro coincide com a minha e reforça-a. Sem o Outro, posso viver, posso viver a vida biológica, mas não posso viver humanamente.
Toda a vida humana é relação com o Outro.
Fora do contexto relacional, a vida humana perde a sua consistência. O homem só se cumpre e adquire realidade humana quando participa de relações recíprocas.

Ubuntu.
Eu sou porque tu és.

Como deve, então, ser esta participação? Como posso salvaguardar a diferença do Outro na minha relação com ele?
A humanidade partilhada pelos homens, deve lembrar que eu não sou mais humano que ninguém. O respeito pelo outro implica, antes de mais, permitir que ele seja diferente de mim.

Sou parte de um Nós, maior do que Eu e maior do que o Outro; e este Nós deve ser expandido, paralelamente a uma solidariedade que evolui, em consequência do acolhimento de diferenças culturais, religiosas e raciais. Dentro desse Nós cabem todas as diferenças que os seres humanos comportam. O Nós está, aliás, muito mais nas diferenças do que nas semelhanças, porque é um conjunto, uma reunião, não de mesmos, mas de outros. E é essa a verdadeira riqueza: a diversidade, a mistura, a compreensão, o respeito, a cumplicidade. A Humanidade.

Ubuntu.
Eu sou porque tu és.

Ubuntu

Eu sou porque tu és.















Eles são diferentes. São tão diferentes!  Diferentes países,  idades, profissões.  Diferentes ideias, diferentes tamanhos, diferentes pronúncias.
E é essa mesma diferença que os torna absoluta e profundamente iguais. Confundem-se na alegria confiante, nos olhos sonhadores e nas mãos agitadas à procura de acções para concretizar o outro, todos os outros, razões de cada dia que amanhece, de cada pedaço de ar que inspiramos. 
Levamo-nos uns aos outros em cada célula e é só quando nos reconhecemos como família gigante que o universo nos abre as portas à vida.
Não se distinguem misturados em multidão atenta às inspirações, porque são juntos. São humanidade enquanto nação e rasgam essas fronteiras artificiais em pontes de amor.
Eu sou porque tu és.

Encontraram-se lá no alto, com o mundo aos pés, a mostrar-se bonito em ondas de mar a beijar areia, a chamá-los para esse afeto guardado em cada um à espera de explodir na comunhão dos reencontros. Porque cada pessoa que conhecemos é, afinal, um reencontro. Eu sou porque tu és.

Aqueceram a areia da noite com o calor dos corpos contentes. Conversas cruzadas, dedos a dançar em cordas.
Lá em cima as estrelas, mas o céu sentou-se mesmo ali ao lado e cantou com eles.
"Ke ki mininu na tchora?" A Guiné aqui tão perto. Depois Cabo-Verde. E afinal era o todo o mundo que cada um carregava em si!
Eu sou porque tu és.

Há instantes que agregam despedidas e reencontros, saudades e novos amores. Segundos que são todos os calendários, pessoas que nos devolvem os que não estão cá, lugares que são todos os sítios que pisamos em entrega. E a sofreguidão de viver acalma-se cá dentro, porque bebemos o mundo e há sempre mais mundo para beber. Há sempre mais mundo para conhecer e partilhar. Só para descobrir, no fim, que o mundo esteve sempre dentro de nós.
A Academia Ubuntu é esse instante. A Academia Ubuntu são essas pessoas. A Academia Ubuntu são todos esses lugares.
Eu sou porque tu és.

E ela, perdida na sua inquietude infantil, encontra-se nesse novelo de gente. E o coração deixa de doer da angústia do caminho. E volta a acreditar que é possível. O Mundo é possível! Mas só assim faz sentido. Só assim.
Como quando queremos cantar a nossa música preferida mas, desafinados que somos, não ousamos soltar a nossa voz sozinha. Erga-se um coro de vozes e lá estaremos nós a cantar também. Juntos não desafinamos. Fica uma só voz, inteira de mundo.

Ubuntu. Eu sou porque tu és.