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Um dia num minuto

Café. Trabalho. Leis e organigramas. Paisagem para o rio. Mais trabalho. Caipirinha. Gente linda numa sala em Bafatá. Risos à toa. Personagens na testa. Perguntas. Mais risos. 
Era só uma. Dissemos que era só uma. Outra?
Estrelas. Muitas. Nessa banalidade luxuosa de um céu humilde na sua grandeza, inteiro na sua partilha. Carrinha de caixa aberta posicionada. Cobertores e almofadas para encostar. Olhos atentos. A estreia. Estrela que salta no céu e desaparece. Conversas tontas. Piadas sem piada que fazem rir mais do que se tivessem piada. O céu que se mexe, e nós quietos, cientistas de novas leis do universo. Uma noite de sexta-feira inventada quando amanhecerá quarta-feira. Provérbios reformulados. Madrugada. Só mais uma estrela. Afinal foram duas. 
Confiar ou não? Viver! Beijar sorrisos. Mais estrelas de olhos fechados. O céu dentro de casa. Dormir.

Dia de África

Hoje é dia de África.
É dia da terra vermelha, do calor.
É dia do princípio do mundo, da génese da humanidade.
Hoje é dia da alegria, dos sorrisos, do acolhimento.
É dia da música e da dança.
Hoje é dia do pôr-do-sol gigante de laranja e do céu inacreditavelmente estrelado.
Hoje é dia da paz que vive dentro das pessoas.
É dia dos banhos de chuva e dos banhos de caneco.
Hoje é o dia das crianças que o são apenas no sorriso envergonhado.
É dia do amor que se descobre em surpresas, do afecto que se esquece de ser.
Hoje é dia do cheiro que ninguém explica, partilhado apenas na cumplicidade de quem sabe.
Hoje é dia da água mais saborosa, porque mata a sede como em nenhum outro lugar é possível.
É dia do mistério místico desta ligação ancestral que todos sentem, deste viciar saudável de quem experimenta.
Hoje é dia das pessoas, da simplicidade, da essência.
E hoje é um dia. É só mais um dia.
Hoje não é dia de África.
Todos os dias são. E não há intervalos. Nem férias.
Todos os dias são dias de sobrevivência e de festa, as duas em simultâneo a maior parte das vezes.
Todos os dias são dias de cantar e dar graças, mesmo que não haja voz nem motivos para agradecer. E há sempre motivos para agradecer.
Hoje não é dia de África. Todos os dias são.
Sabe-o quem está cá. Sabe-o quem veio cá. Porque nunca mais se é a mesma pessoa. Há novas cores a brilhar nos nossos olhos. E não há um dia em que isto não se celebre ou se lamente (mais uma vez, quase sempre em simultâneo).
Quem veio a África e não voltou outra pessoa, não veio a África. E esta transformação acontece desde o primeiro instante, ainda que imperceptível talvez, por ter lugar no mais profundo de nós, onde nem sempre arriscamos mergulhar.
Hoje não é dia de África. Todos os dias são.

Quando tudo corre mal

há sempre algo para aprender. E há sempre - sempre! - coisas bonitas a espreitar, ofuscadas no caos, mas evidentes quando tudo acalma, como a luz que é mais intensa no meio do escuro. 
Parece um jogo que Deus joga connosco. E eu já sei: no fim de um dia mau, é preciso parar em silêncio, fechar os olhos e deixar surgirem essas tais luzes. Nunca falha!
Porque, às vezes, há detalhes que escapam, a nós e aos outros, e esses detalhes criam confusão, complicam a vida das pessoas, e ficamos algo desorientados a inventar possibilidades, alternativas que nem sempre nos agradam. Acreditamos que quando fazemos as coisas com vontade, com dedicação, nada pode correr mal. Mas pode. E às vezes corre.
E não podemos perder muito tempo em lamentações, em perceber quem tem mais culpa que quem. É preciso resolver, intervir, dar respostas. E a magia acontece quando, do outro lado telefone, ouvimos uma voz que fala sorridente, um tom de compreensão, de "problema ka tem!", histórias das alternativas que encontraram, paciência com as soluções menores que os problemas, tranquilidade de quem sabe que um problema não é o fim do mundo, não é nenhum drama. É um problema. E como aprendemos na Matemática, para cada problema uma solução. Mas aqui não há fórmulas a aplicar. Há olhos atentos, mãos de trabalho, corações disponíveis. Há caminhos novos para evitar problemas velhos.
E hoje, a dada altura até tinha medo quando o telefone tocava outra vez... "O que é que aconteceu agora?", pensava. E atendia, na esperança de ser apenas um telefonema banal. Mas não, havia outro problema, outra questão a resolver. Mas a voz do outro lado é tranquila. 
E assim, um problema de cada vez, umas soluções melhores, outras piores, o dia foi chegando ao fim. As estrelas enchem o céu escuro a lembrar que é hora de dormir, não sem antes desenharmos nós novas estrelas neste dia que tanto nos preocupou, e afinal tudo se resolveu.
Agora descansemos as pequenas frustrações e deixemos o sono repousar na imagem dos que, com serenidade e alegria, permitiram que tudo se fosse encaixando e que eu aprendesse que a vida é mesmo assim. Para a próxima vai correr melhor e hoje ganhei histórias bonitas de gente que brilha mais que qualquer luz.

As coisas que nunca disse

Em tempos em que sigo profundamente apaixonada pela vida mas por ninguém em particular, Mia Couto tem a capacidade de me fazer suspirar encantada nas leituras que desenham vida nas palavras, que inventam significados nunca antes pensados, que casam sentidos que dão novos sentidos. Custa-me parar de o ler. Como menininha enamorada, volto à leitura sempre com a certeza de que o meu mundo ficará mais bonito no fim de cada página. Fala de tudo e de coisa nenhuma e, quase sem contar, aparecem frases como esta, que nos devolvem explicações de coisas que nunca nem tínhamos tentado perceber:
"Ele há dessas coisas tão subtis, incapazes mesmo de existir.
Como essas estrelas que chegam até nós mesmo depois de terem morrido."
E fico a pensar nas estrelas. Essas explosões imensas de luz que, de tanto se demorarem na viagem dos céus, não podem nunca retribuir os olhares de contemplação.
Às vezes temos mania de estrela, sensação de eternidade, e adiámos numa viagem imaginada esse brilho que vive em nós, porque não sabemos se outras luzes o irão fazer passar despercebido, ignorado, e é mais fácil guardá-lo protegido de olhares que não o nosso. E é um brilho que não brilha. Escondido na sua vergonha, no medo de não ter o que iluminar.
Há coisas que não existem porque não são ditas, não são partilhadas, e é então como se elas nem nunca existissem. Mas delas sempre fica um brilho disfarçado. Uma intensidade densa de sentir guardada no silêncio do coração.

Semear estrelas

















Semear estrelas. Soa tão bem. Tão bonito!
Às vezes queria só morar dentro duma poesia, dum quadro de cores vivas. Coisas bonitas, sem sentido, mas que nos fazem sentir. Sentir sem nome. Mas sentir bom.
Às vezes queria só semear estrelas, pintar sorrisos, fazer magia. Todos os clichés lamechas.
Queria só pintar tudo de cor-de-rosa, decorar as paredes com flores, desenhar corações por todo lado. Às vezes queria só ver fadas e o Winnie the Pooh.
Hmmm… Às vezes queria só descer no escorrega e correr para os baloiços e acreditar que voo.
Às vezes apetece-me só escrever assim, à toa. De olhos fechados, sorriso rasgado e coração de criança.
Sem construir nada. Só fantasia bobinha. Tipo intervalo, recreio para correr pelos caminhos que os adultos não pisam.

Às vezes, só às vezes…


Cenouras


Magia.
Preciso de magia. Preciso de ver coisas que façam os meus olhos brilharem. Preciso que os meus olhos brilhem. Nem que para isso tenha que ser eu a fazer a magia. A aprender truques e ensaiá-los. Mas preciso de magia. Mesmo que eu saiba o segredo por trás. Preciso de magia que semeie esperança no meu coração. Preciso de magia que me faça acreditar que tudo é possível. Porque se eu deixar de acreditar, nada mais é possível. E ainda é muito cedo para desistir.
Mas às vezes fico cansada, sem motivação, sem vontade. E ainda bem que me sinto assim, porque me obrigo a ultrapassar e crio mecanismos novos.
Estar pelo segundo ano na Guiné-Bissau é partilhar de cumplicidades construídas, de uma comunhão bonita com as pessoas, de uma aprendizagem profunda de tantas coisas que as palavras não conseguem abraçar. É já saber o caminho de cor e, mesmo assim, deixar-me deslumbrar pelas belezas repetidas, sem deixar que percam a intensidade que senti a primeira vez que as vi. Mas é difícil. É mais difícil.
Aceitar os constrangimentos diários constantes e multiplicados, lidar com os mesmos problemas já com menos paciência, o calor absolutamente insuportável, a dificuldade de fazer as coisas mais simples e a impossibilidade de fazer as mais elaboradas, as saudades de casa e dos meus, os bichos por todo lado, a instabilidade política e militar que nos mantém num clima de incerteza e insegurança perene…
Às vezes sinto-me como o burro que segue caminho a perseguir aquela cenoura que alguém pendura à sua frente. Com a diferença de que sou eu própria que coloco a cenoura à minha frente.
Porque quando os estímulos exteriores são, de todos os lados, no sentido de parar, ou seguir por outro caminho, lutar pelas nossas convicções, ou até lutar simplesmente pelo nosso bem-estar, implica voluntariamente seguir cenouras penduradas. E fazê-lo diariamente. Várias vezes ao dia até.
Não sei, de facto, se isto é teimosia ou perseverança. Mas chamemos-lhe perseverança. É mais bonito. Soa melhor.
Voltando às cenouras, a verdade é que me têm ajudado a seguir com o entusiasmo do qual não abdico. Frases que vou encontrando, imagens que alguém partilha, um livro, uma série que me faça rir com vontade. Tudo que possa promover o optimismo e a acção empenhada, dinâmica, criativa. Coisas que me obrigam a parar, a pensar no sentido mais profundo dos acontecimentos, a reflectir e construir paz bem dentro de mim. E a verdade é que sempre chego ao ponto em que consigo ultrapassar os obstáculos que inicialmente me pareciam intransponíveis, chego sempre à conclusão que afinal não era assim tão complicado, não era assim tão grave. Sempre reconhecendo infindáveis bênçãos nos meus dias e rendida a uma sensação de gratidão plena.
Claro que não demora muito até uma nova situação perturbar a serenidade alcançada, mas já sei o caminho para reconquistá-la rapidamente. 
É uma questão de treino.
O sorriso, a alegria, a boa disposição, não têm que ser sempre espontâneos. O optimismo treina-se.  E como tudo aquilo que treinamos, vamos ficando cada vez melhores, e ser feliz cada vez é mais fácil. E não, não são as circunstâncias que decidem. Somos nós. Sou eu. És tu.
E é difícil, claro que sim. É preciso treinar!
É preciso abrir bem os olhos e procurar na paisagem impulsos de alegria para seguir; é preciso saber encontrar nos dias os rasgos de humor, é preciso saber brincar sem pensar na desarrumação, é preciso jogar sem pensar em ganhar.

É preciso um quintal repleto de cenouras para colocarmos à nossa frente.
Se não temos cenouras, talvez esteja na altura de começar a semear.