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Confundir com o Bem

Nestes últimos tempos, é fácil ficarmos confusos com todo o mal que nos é relatado. É um mal real, com muitas formas, entre o terror e a descriminação, entre o pânico e a indiferença.
A surpresa aparece quando constatamos que o "bem" se repete e multiplica num exponencial muito superior ao mal. Continuam a ser incontavelmente mais as bondades de todos os dias, e não podemos deixar de lembrá-las. 
Mais do que nunca, é importante que nos demoremos na bondade: na ação e na contemplação. Sermos bons, tanto quanto possível, o mais possível. Sermos bondade! E contemplar. Multiplicar gestos de bondade como quem comenta o mais recente acontecimento mediático.

Quanto entramos num espaço escuro, logo inventamos luz, seja no interruptor, com o telemóvel, acendendo uma vela, uma lanterna. Ninguém fica voluntariamente perdido no escuro. 
Hoje, neste mal que nos confunde, é preciso lembrar a nossa bondade, a nossa luz. Todos temos capacidade de iluminar!
E somos tantos a querer luz...! 

Vamos confundir com o bem?
Contar histórias de Paz, saborear as alegrias, desfrutar das companhias. Rir o peito cansado de entusiasmos!
Vamos lembrar os outros dessa bondade que nos humaniza, dessa igualdade que partilhamos em essência profunda de ser.
Sejamos exemplo de tolerância e compreensão, braços estendidos para pontes em construção.

Ao ódio, responder com Amor. Sempre. 

"Desconfundir" o mal e participar da confusão do bem!
Há um caminho longo pela frente. Vamos juntos?

#confundircomobem


Sentido















Qual é o sentido?
Em frente.
Sempre. 
Sempre em frente.
Sempre a mesma resposta.

Qual é o sentido?
Qual é o meu sentido?
O meu sentido é o que sinto.
Assim só.

E o mundo?
Qual é o sentido do mundo?
Deixa o mundo. Deixa-te no mundo.
O mundo segue. E tu segues.
Um dia, quem sabe, encontrar-se-ão no caminho.
Segue. É esse o sentido.

Qual é o sentido? Não a direção, a direita ou a esquerda, mas o sentido. Esse da unidade, do todo, do inteiro infinito.
Em que sentido devemos ir para saber o sentido?

Talvez o sentido seja mais fácil de perceber do que de aceitar.
Porque queremos sentidos novos. Sentidos nossos. Sentidos só nossos.
Queremos sentir o que mais ninguém sente. E queremos que todos sigam o nosso sentido.
Queremos tudo. E esse não é o sentido.

Faltar-nos-á, talvez, a humildade necessária para viver esse sentido "em frente" sem procurar outros. Mas não o conseguimos sentir.

Qual é o sentido?

Shh. Fala baixo. Não faças perguntas.
Tanto barulho! Fazes tanto barulho com as tuas perguntas.
Estás sempre a perguntar, sem intervalos, dúvidas constantes, sedes de sentidos que todas as águas do mundo se cansam de tentar saciar.
Estás sempre a perguntar. E nunca ouves a resposta.

Não procures mais o sentido. Não perguntes mais nada.
Segue.
É esse o sentido.

Ubuntu

Eu sou porque tu és.















Eles são diferentes. São tão diferentes!  Diferentes países,  idades, profissões.  Diferentes ideias, diferentes tamanhos, diferentes pronúncias.
E é essa mesma diferença que os torna absoluta e profundamente iguais. Confundem-se na alegria confiante, nos olhos sonhadores e nas mãos agitadas à procura de acções para concretizar o outro, todos os outros, razões de cada dia que amanhece, de cada pedaço de ar que inspiramos. 
Levamo-nos uns aos outros em cada célula e é só quando nos reconhecemos como família gigante que o universo nos abre as portas à vida.
Não se distinguem misturados em multidão atenta às inspirações, porque são juntos. São humanidade enquanto nação e rasgam essas fronteiras artificiais em pontes de amor.
Eu sou porque tu és.

Encontraram-se lá no alto, com o mundo aos pés, a mostrar-se bonito em ondas de mar a beijar areia, a chamá-los para esse afeto guardado em cada um à espera de explodir na comunhão dos reencontros. Porque cada pessoa que conhecemos é, afinal, um reencontro. Eu sou porque tu és.

Aqueceram a areia da noite com o calor dos corpos contentes. Conversas cruzadas, dedos a dançar em cordas.
Lá em cima as estrelas, mas o céu sentou-se mesmo ali ao lado e cantou com eles.
"Ke ki mininu na tchora?" A Guiné aqui tão perto. Depois Cabo-Verde. E afinal era o todo o mundo que cada um carregava em si!
Eu sou porque tu és.

Há instantes que agregam despedidas e reencontros, saudades e novos amores. Segundos que são todos os calendários, pessoas que nos devolvem os que não estão cá, lugares que são todos os sítios que pisamos em entrega. E a sofreguidão de viver acalma-se cá dentro, porque bebemos o mundo e há sempre mais mundo para beber. Há sempre mais mundo para conhecer e partilhar. Só para descobrir, no fim, que o mundo esteve sempre dentro de nós.
A Academia Ubuntu é esse instante. A Academia Ubuntu são essas pessoas. A Academia Ubuntu são todos esses lugares.
Eu sou porque tu és.

E ela, perdida na sua inquietude infantil, encontra-se nesse novelo de gente. E o coração deixa de doer da angústia do caminho. E volta a acreditar que é possível. O Mundo é possível! Mas só assim faz sentido. Só assim.
Como quando queremos cantar a nossa música preferida mas, desafinados que somos, não ousamos soltar a nossa voz sozinha. Erga-se um coro de vozes e lá estaremos nós a cantar também. Juntos não desafinamos. Fica uma só voz, inteira de mundo.

Ubuntu. Eu sou porque tu és.

Igreja

Um professor da América Latina editou um dicionário com definições infantis recolhidas ao longo de anos junto dos seus alunos. É engraçado ler as diferentes palavras com significados construídos pelas crianças, que olham o mundo com uma clareza que todos perdemos ao crescer. Até nos podemos esforçar para manter essa essência da infância em nós, mas há uma espontaneidade que, inevitavelmente, perdemos, pelo menos em toda a sua autenticidade.

Neste dicionário, Igreja aparece com a seguinte definição:
"Onde a pessoa vai perdoar Deus."

Demorei-me nesta interpretação de serem os templos lugares onde o humano perdoa o divino.
E temos tanto para Te perdoar, Deus. Que é preciso que as Igrejas sejam grandes e confortáveis, possa a nossa dor ter aconchego.
Perdoar-Te o Holocausto e a escravatura, perdoar-Te o terrorismo e a descriminação, perdoar-Te as guerras e as mortes sangrentas, perdoar-Te a indiferença e a luta pelo poder.
Às vezes espero mesmo que não existas, porque não sei se Te conseguiria perdoar. 

Nenhuma Igreja é suficientemente grande.
Talvez o mais difícil de perdoar seja mesmo o facto de o humano ser tão pouco divino, de o humano ser tão pouco humano, de o humano se auto-destruir enquanto essência.

Nunca Te perdoarei não me fazeres mais forte, mais corajosa. Não Te perdoo não me teres feito mais astuta, mais contestatária, mais consciente. Não Te perdoo esse céu imenso e eu sem asas. Não Te perdoo.

Perdoas-me Tu?

Cores no céu

Ela gosta do Mundo. Mundo com letra maiúscula. Mundo que abriga pessoas, dessas que têm o Mundo dentro de si. E o Mundo e as pessoas confundem-se, a acrescentarem-se belezas mutuamente. Porque as pessoas onde mora o Mundo, sentam-se em diferentes lugares desse Mundo.
Parece confuso, mas não é. Porque tudo é uma coisa só.
E ela sempre com saudades. Das pessoas e do Mundo, desse todo inteiro que apenas a verdade e a entrega tornam pleno.

O caminho era novo. Não sabia o destino, mas a estrada chamava por ela. Parecia um regresso. Mas ela sabia que na vida não há regressos; tudo é uma novidade. O aqui não é o mesmo amanhã: passou-lhe o tempo e a luz, os sentires e as certezas, as memórias e os segredos.
Então seguiu, sem ver mais da estrada do que o chão que os seus pés iam pisando. No olhar, a atenção focada em ver o que o horizonte não mostrava; no coração, a segurança de pilares inabaláveis.

Como vinha de outras estradas, com outras luzes a iluminar, os seus olhos demoraram a acostumar-se, não conseguiam distinguir as cores e as tonalidades. 
Assim sem ver bem, a gente nem se sente direito. Como se a luz de fora interferisse com a luz dentro dela. Era preciso soltar o olhar, deixá-lo descobrir novos brilhos, novos raios a incandescerem o coração e o riso.

Passaram dias, muitos dias. Ou terá sido só um dia muito grande?
Só se sabe que ao amanhecer, espreitou pela janela, à procura de sinais desses que vêm do céu. E estava lá este arco-íris, a mostrar-se por cima das nuvens, a focar a atenção nele. 
Cores no céu que não iluminam, mas dão luz. Dessa luz que se bebe em suspiros de paz, em abraços de entusiasmo e fôlegos de confiança.

E ela agora segue o caminho, despreocupada com a estrada, passos serenos a descobrir ruas novas. Que os olhos ficam bem é lá no alto.



Lembra-te.

Não podes ir embora sem te lembrares. Não podes ir embora sem reveres e guardares.
Lembra-te.
E lembra-te enquanto estás aqui, nos dias que te sobram repletos de tanto, perto ainda das memórias a gravar.
Lembra-te.

Lembra-te de quando aterraste em Bissau pela primeira vez. Do ar húmido a colar no corpo, a dificuldade em respirar. Lembra-te da sede, essa saciada e sempre repetida. 
E lembra-te de te sentires em casa desde o primeiro instante; o longe a doer, o coração a pousar.

Lembra-te de cumprimentares as pessoas na rua, lembra-te de quereres saber os nomes. 
Lembra-te das pequenas coisas e da tua capacidade de vivê-las em plenitude. 
Lembra-te de procurares soluções para os problemas e de todos eles tirares um ensinamento.

Lembra-te dos banhos-de-chuva, da água completa em ti, do fresco a explodir, de risos molhados e partilhados com gente que rasga o teu coração.
Lembra-te de saltar para o rio Geba meio segundo depois de afirmares que nunca o farias.
Lembra-te das estrelas cadentes numa pickup debaixo do céu e das pessoas que estavam contigo nessa caixa aberta para o mundo.

Lembra-te de dançares como se se a tua vida dependesse disso, como se fosse a última noite.
Lembra-te de sempre ser para sempre e quereres sempre mais e, ainda assim, tudo te bastar.
Lembra-te de te sentires a crescer, sendo cada vez mais pequenina.

Lembra-te dos amigos que o serão para sempre, de como te acrescentam vida e beleza, de como aumentam o mundo que conheces e partilhas, de como são grandes no teu coração.
Lembra-te da coragem da entrega, de beijares sorrisos e experimentares o sagrado em intervalos de lucidez.

Lembra-te das cores, dos sons, dos cheiros. Fecha os olhos e vê, ouve, cheira. Sente.

Mas lembra-te também das frustrações repetidas e somadas, de quando parecia que não ias aguentar mais. Lembra-te da paciência esgotada. Lembra-te da lama e da poeira. Lembra-te dos mosquitos, dos grilos, das baratas, dos lagartos. Lembra-te dos militares, dos políticos de treta. 

Lembra-te do escuro e lembra-te das lanternas a iluminar.
Lembra a Guiné inteira em ti, no bom e no mau; e deixa-a ser esse todo que é teu, assim.
Chora. Deixa essa saudade ser recipiente que guarda tudo isto. É essa a verdade.

E lembra-te de ti na Guiné. De quem eras quando chegaste, de quem és agora que partes.
Como te disse a tua alma irmã, "lembra-te de quem és no sítio para onde vais".
Lembra-te.

Relâmpagos

Banho-de-chuva. O último?

Final da tarde. Noite escura já. Trovoada ao longe avisa mais uma tempestade eminente. A chuva forte começa a cair. Forte como um ímpeto. Intensa como a vida. Uma intensidade boa, pois assim a desenhamos em nós ao recebê-la.
Nós no alpendre. Abrigadas de uma chuva que não respeitava abrigos e nos salpicava, em jeito de desafio. À nossa frente, o negro cerrado da noite rasgado por rectas de água a mergulhar na terra. O negro cerrado da noite interrompido por instantes em que os relâmpagos faziam dia.
“É a minha coisa preferida aqui!”, berra a Carmen, para que a sua voz falasse por cima do temporal. E estaríamos muito bem ali as duas nesta contemplação inquieta, não fosse a chuva gritar em nós a energia boa de quem se oferece inteiro. A chuva, tanta que só toda, pedia um acolhimento recíproco à sua dádiva. E já se sabe que nós não lhe conseguiríamos dizer que não.
Lá fomos então, primeiro a medo, que isto da chuva no escuro e dos relâmpagos a incandesceram a noite, exigia uma certa ousadia.
E à magia de receber essa água que cai do céu, junta-se a maravilha dos instantes de luz de cada relâmpago: ofuscavam os olhos e voltávamos ao escuro, à água; a roupa colada ao corpo. Os relâmpagos aproximam-se, e com eles trovões bem mais forte. Gritinhos de histeria, claro está, uma espécie de medo bom, e nós continuávamos ali. Frio, saltos para aquecer, olhos ao céu num clarão de mais um raio de luz. Vida a acontecer só porque sim.
Gritei mais do que nunca com a trovoada. Como se aquele entregar genuíno a esse momento de simples deleite limitasse a capacidade de conter os sobressaltos a cada novo ribombar.
Depois chegou a altura de caminhar no escuro de volta a casa. Entre um passo e outro, mais um relâmpago a iluminar o caminho. A seguir o banho de chuveiro, pobre imitação da aventura vivida. Depois a roupa seca no corpo e ainda o contentamento emancipado de razões.

O melhor da vida é mesmo fazer coisas sem sentido só porque as sentimos. Caminhar para debaixo da chuva nesse impulso infantil de querer brincar. Não esperar nada e receber como oferta essa alegria sem motivos, sem pudor, sem cerimónias. Aceitar absoluta esse efémero pedaço iluminado, e torná-lo perene pela plenitude com que foi acolhido.
E é neste relâmpago que queria demorar-me. Nesta magia de micro segundos em que a luz explode. Foram dois anos na Guiné-Bissau. Minha Guiné-Bissau. Serão mais dois meses. Depois o caminho segue. Olhos esbugalhados ao céu à procura de novos relâmpagos.

O último banho-de-chuva?

A vida são estes relâmpagos que rompem o escuro da noite debaixo da chuva. A vida não é esse escuro, mas os instantes de luz que continuam a brilhar nos nossos olhos mesmo depois de se apagarem. 
A Guiné continuará a brilhar em mim. Nos meus olhos, no meu coração, nas palavras, no caminho. A Guiné continuará a brilhar como um relâmpago que explode cá dentro. A Guiné continuará em mim. Sempre.

Sede

Sede de partir. Sede de voltar.
Acho que gosto tanto de água, ou de como ela me sacia, que me perco a inventar sedes. Como se a sede fosse um prazer em si própria, pela antecipação desse saciar, que rapidamente se transformará em novas sedes. 
E claro que não falo de uma garganta seca, mas de um caminho que se bebe em trajectos. De inquietudes que ora inspiram, ora atormentam; ora encantam, ora desorientam.
Desorientar. Tirar a orientação? Talvez seja mesmo isso o necessário. Colocar uma venda nos olhos, esquecer o mapa que decorámos, girar vezes sem conta, parar, e deixar que seja só o coração a escolher o caminho. O de sempre, um novo, ou simplesmente voltar ao princípio e começar tudo de novo. Simplesmente... Às vezes era bom ser mais simples. Deixar acontecer e confiar. Às vezes era bom deixar que a banalidade nos surpreendesse, que o mais vulgar dos acontecimentos fosse épico em nós. Mas é tão complicado ser simples!

Porque o nosso corpo precisa de água, inventam-se sedes.
Sede de encontros, de conversas, de palavras que ainda não têm letras. Sede de sons. Sede de silêncios. Sede de cores que ninguém viu e ninguém inventou. Sede de uma música que nunca ouvimos. Sede de um lugar que nunca visitámos e nem sabemos se existe. Sede de pessoas que ainda não nasceram. Sede de todos sóis que se hão-de erguer, de toda a chuva que há-de cair, de todo vento que será sopro no mundo. Sede de crescer e de ser pequenino. Sede de ficar, de construir, de ser, de pertencer.
E sede de ter sede, quando um dia acabarem todas as sedes.

Um pouco mais que nada

Há uma semana atrás, por esta hora, regressava de mais uns dias pelas escolas do Sul da Guiné, desta vez em Empada.
Há uma semana atrás, por esta hora, vinha no caminho cansada dos dias de trabalho e formação, corpo dorido da estrada de terra vermelha inacreditavelmente esburacada, e coração pleno de paz.
Há uma semana atrás, por esta hora, não adormeci na viagem; pensava em tudo que melhorou nestas escolas, em como tinha corrido bem o trabalho e em como, ainda assim, continuava a ser preciso fazer tanto mais, tanto melhor.
Há uma semana atrás, por esta hora, chegava a casa com a sensação de que me ia lançar ao computador e escrever, escrever… mas paralisou-me a sensação de que, afinal, tinha feito tão pouco.
Há uma semana atrás, e nos dias que se seguiram, fui lembrando o Professor Braima, “sozinho na escola”, que nos recebeu no portão da escola tranquilo e sorridente. 
Consciente de todas as carências do professor e do meio escolar onde está, confesso que não esperava grandes melhorias. E que boa surpresa! Fez tudo bem. Quase tudo. Tanta coisa! Até o mapa de docentes onde só o seu nome consta, até o registo de assiduidade de professores onde só ele assina e só ele controla.
Se sonhassem as dificuldades que ele passa, as condições daquela escola, a casa onde ele mora, o salário ridículo que ele recebe, vocês também iam achar que era importante escrever sobre isso. Fez tudo o que lhe expliquei na última visita, pôs em prática tudo o que foi trabalhado na formação.
E perante tamanha superação, tamanha entrega, tamanha dedicação, fica ainda menor o que damos, o que eu dou. O que fazemos, o que eu faço.

É só um pouco mais que nada. E é tão pouco que às vezes é mesmo quase nada. Mas nunca é nada. Apenas pouco.
Mesmo quando acreditamos muito, quando trabalhamos muito, quando pensamos muito, quando desejamos muito, quando procuramos muito, quando amamos muito. É pouco.
Como gotas. Gotas de água que se somam num compasso demasiado lento.
Não matam a sede.
Nem sequer a minha.
Tudo é tão pouco.
É preciso mais.
Mas eu não sei o quê. Ainda.
É preciso uma chuva de gotas. Um torrente de acções, de entrega.
Somar gotas não é suficiente. É preciso multiplicá-las.
Tenho sede.
Tenho tanta sede…

Ainda assim, nestes dias não há nada melhor - nada melhor! - do que chegar à noite feliz pelo cansaço no corpo e na mente. Cansaço bom de quem deu tudo e fica ainda mais repleta, cansaço de energias gastas e coração cheio. Pela paz serena e pela certeza do caminho. E inquietude. Sempre inquietude.

Há uma semana atrás, por esta hora, era assim que esvaziava a mochila de roupa e papéis. A cabeça cheia a pensar no pouco que foi o tudo de mim. Coração inquieto a querer mais.

Alguma vez

te esqueceste de amar?

Às vezes sinto que me esqueci de amar.

Aquele amor simples, mas verdadeiro. Suave, mas constante. Transversal a todas as vivências, a todos os cenários. Aquele amor que te faz amar. Amar a sério. E amar a brincar. Amar. Não importa quem.

Aquele amor que é só porque sim. Sem génese nem finalidade. Sem lugar e sem voz. Sem tamanho, porque imensurável. Mas leve como o ar, quando se ama como quem respira. Quando se ama sem pretensiosismos, sem vaidade. Quando se ama sem dizer nada a ninguém. Quando se ama no segredo do coração, no brilho dos olhos, na paz do sorriso.
Paz... Amar assim faz-nos estar sempre em paz. É a mais verdadeira e certa fonte de paz esta forma de amar.

Já não me lembro como foi, quem me ensinou, mas aprendi a amar assim na minha primeira missão. Tão pequenina que era ainda, tão inocente, tão ingénua até. Mas não me esquecia de amar. Então talvez fosse bem maior que hoje.
Mas depois achamos que era preciso mais. Que amar não era suficiente. Tínhamos que produzir coisas. Ensinar coisas. Amar sempre, mas a fazer coisas, muitas coisas, novas coisas, sempre mais coisas.
E quando tentamos ser mais, ser melhor, às vezes deixamos para trás o essencial.
E ser mais faz-nos, afinal, ser menos.

Entretanto cresci, e tenho as responsabilidades de gente crescida. Trabalho efectivo para fazer, formações para preparar, parâmetros para avaliar, observações específicas que depois dão lugar a relatórios.
Mas descobri que às vezes me esqueço de amar.

Então tenho que voltar atrás, começar de novo.

Porque se crescer implica perder essa espontaneidade bonita de quem ama, então talvez não faça muito sentido.

Agora eu sei. Primeiro quero amar. Com o coração todo. Começar por aí.
E depois, sim, analisar, avaliar, fazer relatórios.

Vou aprender a ser pequenina outra vez. Só assim serei maior.

Não sei como Amar-Te.


Porque é difícil amar assim, sem saber bem quem És, o que És, mas sabendo-Te. Sei-Te.
Sei que me sabes.
Mas nem sempre sei ser em Ti.
Tenho saudades Tuas. Saudades.
Não sei se Te procuro como deveria. Não sei se estás aqui e eu não consigo ver.
Deixo a vida distrair-me.
Não Te esqueço. Mas nem sempre Te procuro.
Sei que gostas de falar baixinho, ao coração. Mas preciso que me berres ao ouvido. Para não me distrair mais. Para não me esquecer.

“E se algum dia eu me afastar de Ti, e se algum dia eu me esquecer de nós, vem procurar-me onde eu estiver. Não penses que sei ser sem Ti. Sou apenas um aprendiz de viajante.”

Cenouras


Magia.
Preciso de magia. Preciso de ver coisas que façam os meus olhos brilharem. Preciso que os meus olhos brilhem. Nem que para isso tenha que ser eu a fazer a magia. A aprender truques e ensaiá-los. Mas preciso de magia. Mesmo que eu saiba o segredo por trás. Preciso de magia que semeie esperança no meu coração. Preciso de magia que me faça acreditar que tudo é possível. Porque se eu deixar de acreditar, nada mais é possível. E ainda é muito cedo para desistir.
Mas às vezes fico cansada, sem motivação, sem vontade. E ainda bem que me sinto assim, porque me obrigo a ultrapassar e crio mecanismos novos.
Estar pelo segundo ano na Guiné-Bissau é partilhar de cumplicidades construídas, de uma comunhão bonita com as pessoas, de uma aprendizagem profunda de tantas coisas que as palavras não conseguem abraçar. É já saber o caminho de cor e, mesmo assim, deixar-me deslumbrar pelas belezas repetidas, sem deixar que percam a intensidade que senti a primeira vez que as vi. Mas é difícil. É mais difícil.
Aceitar os constrangimentos diários constantes e multiplicados, lidar com os mesmos problemas já com menos paciência, o calor absolutamente insuportável, a dificuldade de fazer as coisas mais simples e a impossibilidade de fazer as mais elaboradas, as saudades de casa e dos meus, os bichos por todo lado, a instabilidade política e militar que nos mantém num clima de incerteza e insegurança perene…
Às vezes sinto-me como o burro que segue caminho a perseguir aquela cenoura que alguém pendura à sua frente. Com a diferença de que sou eu própria que coloco a cenoura à minha frente.
Porque quando os estímulos exteriores são, de todos os lados, no sentido de parar, ou seguir por outro caminho, lutar pelas nossas convicções, ou até lutar simplesmente pelo nosso bem-estar, implica voluntariamente seguir cenouras penduradas. E fazê-lo diariamente. Várias vezes ao dia até.
Não sei, de facto, se isto é teimosia ou perseverança. Mas chamemos-lhe perseverança. É mais bonito. Soa melhor.
Voltando às cenouras, a verdade é que me têm ajudado a seguir com o entusiasmo do qual não abdico. Frases que vou encontrando, imagens que alguém partilha, um livro, uma série que me faça rir com vontade. Tudo que possa promover o optimismo e a acção empenhada, dinâmica, criativa. Coisas que me obrigam a parar, a pensar no sentido mais profundo dos acontecimentos, a reflectir e construir paz bem dentro de mim. E a verdade é que sempre chego ao ponto em que consigo ultrapassar os obstáculos que inicialmente me pareciam intransponíveis, chego sempre à conclusão que afinal não era assim tão complicado, não era assim tão grave. Sempre reconhecendo infindáveis bênçãos nos meus dias e rendida a uma sensação de gratidão plena.
Claro que não demora muito até uma nova situação perturbar a serenidade alcançada, mas já sei o caminho para reconquistá-la rapidamente. 
É uma questão de treino.
O sorriso, a alegria, a boa disposição, não têm que ser sempre espontâneos. O optimismo treina-se.  E como tudo aquilo que treinamos, vamos ficando cada vez melhores, e ser feliz cada vez é mais fácil. E não, não são as circunstâncias que decidem. Somos nós. Sou eu. És tu.
E é difícil, claro que sim. É preciso treinar!
É preciso abrir bem os olhos e procurar na paisagem impulsos de alegria para seguir; é preciso saber encontrar nos dias os rasgos de humor, é preciso saber brincar sem pensar na desarrumação, é preciso jogar sem pensar em ganhar.

É preciso um quintal repleto de cenouras para colocarmos à nossa frente.
Se não temos cenouras, talvez esteja na altura de começar a semear.

Erradicação da pobreza

Hoje é o dia da Erradicação da Pobreza.
É só mais um dia?



Num mundo de crise económica, de aumento do preço de combustíveis, de acréscimos constantes em tudo que é imposto, de desemprego, de insatisfação social profunda... a pobreza torna-se mais evidente, mais próxima, mais real.
O que fazer na nova pobreza que está a surgir?
Talvez responder a isto ajude a resolver também a pobreza mais antiga, mais profunda.
E hoje, provavelmente por todo mundo, há eventos apropriados ao dia, há seminários a discutir o assunto, há sessões de sensibilização. Nenhum pobre fica menos pobre. Ou ficará?
Mas é bom que se pare e pense. Nem que se repitam as reflexões, nem que parecem impossíveis conclusões. Quando tudo o que se pode fazer é pouco, que se faça esse pouco. Nunca nada!
Um dia, depois de tanto andarmos em círculos, depois de tanto escrevermos as mesmas teorias, um dia, depois de mais umas quantas manifestações, de outras tantas imagens chocantes nos telejornais, um dia, depois de tantos outros dias, somados todos os esforços, vamos estar mais perto...
Até lá, continuemos, como podemos. E quando isso não for suficiente, continuemos como não podemos.
É... o mundo parece não ter muitas razões para nos animar nos dias que correm.
E logo aqui começa a nossa responsabilidade: vamos nós animar o mundo!
Tudo começa com um pouco de bom humor que ajuda a relativizar; com um sorriso que desenha outros, com uma ação motivada que convida mais braços a erguerem-se. 
Enfrentemos as dificuldades com seriedade, mas de sorriso no rosto. Exijamos mais, mas não só para nós, para o mundo. Mas exijamos!
Falo de contentamento, mas não de nos contentarmos. Isso nunca!
Agora, vamos pensar: atravessar as dificuldade de mau humor, cabisbaixos, sem esperança? Ou atravessá-las em boa companhia, com boas conversas, com gargalhadas soltas e contagiantes? O caminho é o mesmo, mas os passos seguirão mais ritmados.
Até a montanha mais alta tem o seu cume. E se caminharmos juntos, será um passeio!  Há conversas para partilhar, paisagens para contemplar... Tudo isto enquanto seguimos de passos firmes. Mas nada nos obrigada a caminhar sozinhos, sérios e calados encosta acima.
Reclamar pelas pedras maiores que temos que escalar só nos faz gastar energias desnecessárias e lentifica o nosso andar.
Sigamos de sorrisos no rosto,
Quem não quer caminhar feliz, que invente outro caminho, que ponha mãos ao trabalho e fure a montanha num túnel para o outro lado.
Alternativas, sim. Mau humor, não. Só atrasa. Só cansa.
Eu também queria (oh, se queria!) outro caminho. Um mais fácil. Um mais justo. Não estes em que uns vão a pé sem nem terem tomado o pequeno-almoço e outros seguem tranquilos num helicóptero.
Eu também queria... Continuo a acreditar que um dia vai ser possível. Continuo a dormir e a acordar com a responsabilidade de fazer algo concreto, real, com impacto positivo a longo prazo na Vida. Não na minha vida, não na tua vida, não na vida de alguns. Na Vida.
Enquanto não consigo - e sem saber se algum dia conseguirei, se terei a preservança suficiente, a inteligência suficiente, a audácia suficiente, a criatividade suficiente - sigo pela montanha como consigo. Cheia de sorte pelos que caminham comigo e sempre a tentar encher o coração de coisas boas, para que o resto não tenha espaço.
Hoje é o dia da Erradicação da Pobreza.
Um dia não vai ser dia.

Utopia na palma da mão

O que é possível?
O que é impossível?

Alguém disse uma vez: "Se consegues imaginar, é real."
E é ainda mais real quando sabemos, no mais fundo e verdadeiro de nós, que é possível.
É difícil, oh sim, é muiiito difícil. Mas é possível.
E não é isso que nos faz acordar de manhã e seguir pelos dias feliz e confiante? A mim é.

Mas às vezes não chega pensar, desejar. É preciso agir.
O que fazer quando não sabemos o que fazer?
A minha resposta foi: escrever!
E porquê?
Acima de tudo para não esquecer.

Um dia, pedi à minha mãe: "Por favor, se algum dia vires que me estou a acomodar, lembra-me dos meus ideais, lembra-me de quando eu acreditava que era possível lutar por um mundo melhor. Não deixes que me esqueça. Nunca me permitas que desista."

Atirar-lhe esta responsabilidade deixou-me mais tranquila. Mas a verdade é que tem que começar em mim.

Utopia na palma da mão é isso mesmo. Essa coisa quase imaginária, mas real, se o quisermos. Se formos ainda mais a querer.
Às vezes, quando estou muito atenta, vejo utopias que deixam de o ser, vejo o esboço de caminhos seguros... Mas depois vem a  vida, e distrai-me.
E outros dias, mesmo distraída, sou surpreendida pelas belezas mais inexplicáveis.

Quero aqui pensar sobre essas utopias, esses caminhos. Quero aqui partilhar os pequenos milagres do dia-a-dia que são ponte para novos sonhos, que não inspiração para novas lutas.

Se não conseguir mudar nada, que nunca seja porque deixei de acreditar, que nunca seja porque deixei de tentar.