Mostrar mensagens com a etiqueta eternidade. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta eternidade. Mostrar todas as mensagens

Um dia quero saber amar assim

E para onde vai este amor?

Este saudade boa que guarda a ternura e as histórias… para onde vai este amor?

Quem me atende do outro lado do telefone como se eu fosse o mundo inteiro, o antes e o depois, o sempre inteiro infinito…Quem abre a porta e sorri de encantamento e alegria pela melhor visita que podia receber?

Para onde vai este amor? Onde encontro mãos enrugadas da vida para agarrar e não deixar que me larguem nunca? E para onde vai este amor? Para onde vai? É tanto. Para onde vai?

O vosso ficou. Está aqui inteiro. Todos os dias. Acho até que continua a crescer, a multiplicar-se, a exponenciar-se. Foi tanto que ainda é e continua.

E para onde vai este amor? Este que quero, que preciso devolver? Sou eternamente criança pequenina em egoísmo desse amor que nos eleva em pedestais de aconchego.

Não ter avós é o derradeiro teste de crescimento. É a verdadeira lição de humildade. Não somos, afinal, mais do que qualquer outro. E estávamos logo ali naquele degrau a seguir a Deus. 

Ainda que guardemos cá dentro o luxo de ter sido amados em exagero absurdo de amor, em esbanjamento de ternura e cuidado, a eternidade foge-nos das mãos.

Falta-nos a devolução. Falta-nos retribuir aos nossos avós um pouco desse imenso. Não aprendemos o invisível. Não sabemos falar-lhes nesse céu que é todo deles.

Ficam aqui dentro em amor que não pára de crescer e já não cabe em nós. Meus queridos avós.

Um dia quero saber amar assim.

Eternidades que acordam

Naquela noite, acordaste-me várias vezes.
Foram intervalos de sono curtos onde conseguiste trazer-me baldes de alegria e gratidão. Em memórias pouco claras no limbo dessa madrugada em vigília, vi sorrisos e abraços repetidos e atropelados; senti esse amor incondicional e constante, essa ternura quase magia, essa presença divina que os avós sempre deixam no mundo. Voltava a adormecer com a tua imagem de paz, para logo a seguir acordar com as tuas mãos a aquecerem as minhas e de novo esse amor gigante a abraçar o sono. 
Ainda não sabia se estávamos em despedida, e hei-de querer-te sempre mais, mas só conseguia pensar no tanto a agradecer. No tanto da minha vida que vem de ti, no tanto de amor que somos, no tanto, tanto, tanto.
E então, partiste.
E então, és eterno.

(Até já.)

Migrações

Há exatamente dois meses atrás, acordei de coração pesado, duas malas cheias ao lado da cama, passaporte preparado, despedidas a fazer. Era quase Natal, mas era um Dezembro quente e cheio de sol, porque vivido nesse continente onde a humanidade nasceu.
Despedi-me da Guiné-Bissau num "até já!" de quem tem a certeza que vai voltar.
Horas depois, aterrei em Portugal. Aqui o Natal aproximava-se no meio do frio e da chuva, mas sempre o aconchego das pessoas a ser esse calor cá dentro.
 
Há cerca de dois anos e meio, saí de Portugal emigrante. Há dois meses, voltei imigrante.
Quem um dia salta para o mundo, corre o risco de nunca mais ter uma casa, de nunca mais ser inteiro.
Quem um dia arrisca novas nacionalidades, corre o risco de não ter nunca tijolos suficientes para construir um abrigo onde caibam todas as (suas) nações.
Quem um dia rompe essa corda que nos segura perto, corre o risco de nunca mais nenhuma corda a segurar em lado nenhum.
Mas são riscos que valem a pena. Afinal, corremos riscos todos os dias, desde que saímos da cama, e até mesmo sem sairmos.
Conhecidos os perigos, deslumbrados com todo esse mundo de gentes e cumplicidades, de caminhos e ideais, de costumes e formas de amar, não há nada que nos detenha.
 
Resta-nos, então, recorrer ao mais profundo da nossa criatividade e aprender novas formas de ser inteiro, mesmo que em pedaços. Um puzzle é inteiro mesmo sem estar montado. Então, que saibamos ser essas peças espalhadas que às vezes se encontram, essas partes de nós que serão sempre radar dos sítios onde iremos voltar, dos sítios de onde nunca partimos, dos sítios que moram em nós e nos guardam um cantinho para dormir nas viagens ainda sem bilhete.  O inteiro não tem que estar colado. Tem que Ser inteiro. Tem que se saber. Inteiro é o mundo. Inteira é a humanidade. Peças que encaixam.
 
Sai daqui emigrante. Voltei imigrante.
Há dias, numa reunião relacionada com o trabalho, alguém se apresentou como sendo guineense. E eu, coração de imigrante, pulei cá dentro na alegria de quem encontra um conterrâneo, de quem poderá partilhar as dificuldades de adaptação às diferenças na comunidade de acolhimento.
É engraçado como, efetivamente, ainda me sinto a adaptar e quase ando com o meu passaporte a pedir visto de residência. Parece que não é preciso, que tenho nacionalidade.
E gosto deste país, mas ainda estou a aprender a língua e os costumes. Falta-me aquele crioulo que não tem tradução no português, falta-me cumprimentar as pessoas na rua, confiar na genuinidade das ações, na pureza das intenções.
Ainda me estou a habituar à temperatura e às excessivas camadas de roupa em cima da pele. Talvez seja a roupa a pesar-me cá dentro. Ou seja apenas eu ainda a aprender-me inteira em pedaços.
 
E é com um sorriso de entusiasmo que escrevo sobre esta minha condição de imigrante. Porque, ainda que entre saudades, me alegro sempre por esses bocados de mim que, embora longe, me lembram quem sou, me inspiram, me apontam o caminho.

O luxo da saudade

Cerca de 5.000... É o número de quilómetros entre o aqui e o chão que me segurou durante quase dois anos e meio.
Esse pedaço de mundo hoje não está perto, mas está dentro. Está aqui dentro a doer e a incomodar, a acordar-me durante a noite e a distrair-me a meio do dia. Está aqui dentro a lembrar a simplicidade e a entrega, o cansaço inteiro de paz, a luz e as cores, a confiança, o entusiasmo, a leveza. 
E fica o meu coração cheio desse longe tão intenso, desses dias tão cheios de tempo e vida.

A saudade é isso mesmo: um longe que está dentro, um dentro que está longe

A saudade é um luxo. 
Seja um longe no mapa ou no calendário, poder guardá-lo connosco não tem preço, e se tivesse, seria um que ninguém poderia pagar.
A saudade é esse embrulho feio, esse papel rasgado, essa saca furada que guarda o tesouro mais bonito. A olhar assim de fora, é difícil, às vezes, acreditar que algo valioso brilhe naquele interior. Porque a dor nos distrai dessa beleza, porque queremos tanto que o longe esteja perto, que nos esquecemos que o temos dentro.
A saudade pesa-nos o coração das memórias, das pessoas, dos lugares, dos momentos, dos sentires... e nós nem sempre percebemos tudo o que ela guarda. Porque, na verdade, é a eternidade que grita nessa nostalgia.

Se alguém me perguntar hoje qual é a coisa mais preciosa que tenho, responderei, sem hesitar: as saudades.
As saudades que tenho da cor da terra, dos sons dos dias, dos momentos em que as frustrações eram ultrapassadas, das horas no corredor num tédio afinal tão divertido, dos djumbais no alpendre.
As saudades que sinto de falar mantenhas, de ver a Helena chegar de manhã, do Malaquias a caminhar devagar de olhos no chão, o Edu envergonhado e sempre sorridente.
As saudades das chuvas que bebi e das pessoas com quem as partilhei, das estrelas que vi caírem e das que nunca deixaram de iluminar.
As saudades delas nas noites de música dançada e nos dias das conversas intermináveis de sentidos.
E as saudades dele (meu Deus, tantas saudades dele...!). 

Que bom ter saudades! 
Que sorte viver o longe aqui dentro.
Que luxo...!


Ah, nha Guiné-Bissau...! N'disdjau maaaal!

Surpresa de amor

Ela estava de saída. Ele veio para ficar. 
Doce ironia, irrecusável entrega.

"Quando menos esperares...", diziam. Cliché dos clichés, não é que foi mesmo assim?

E ela aprendeu a beijar sorrisos que não se fechavam. Aprendeu que os corpos podem ser mais do que o prazer, nesse sagrado sublime, espécie de ascese inconsciente. Aprendeu a ler os abraços e os suspiros que falam no silêncio denso de sentidos. Aprendeu o segredo do que se sente e as palavras não dizem, e aprendeu que quando as palavras o dizem, o sentir fica maior que o mundo, como que libertado pelo verbo. 

E assim, sem contar, nesse céu de estrelas cadentes, choviam sagrados e eternidades. Ele distraído, via apenas as luzes brilhantes. Ela corria a apanhar os pedaços dessa magia, a guardar no bolso esses bocadinhos de um divino tocado. Ah, sem exagero. Mas onde se concretizará o divino senão nesse recíproco desejo de alguém? 

Pois, mas é bom não nos envolvermos nesta história, porque ela estava de saída. Já tinha comprado o bilhete. E foi. Viagem demorada, que começou antes do início e continua mesmo depois do fim. 
Parece que toda esta história é apenas essa viagem. A sua preparação, a sua conclusão. 
E não é a vida uma viagem? 
Não é o amor uma viagem ao outro? E que viagem! Não vem no mapa esse destino, não há coordenadas GPS, esquerda ou direita. Apenas uma total desorientação boa de sentir. Uma entrega a esse caminho desconhecido e sempre novo, sempre surpreendente.

Foi uma surpresa. Ninguém estava a contar. Ela já nem sabia amar. Ou não sabia que sabia. Ou não sabia que podia. Foi uma surpresa.
Ainda é.
Às vezes, lá dentro da saudade, ainda fala mais alto essa surpresa de amor. 




Fazer as malas

















Pois é... há coisas que não cabem nas malas. 

Estou desde ontem a enfiar coisas dentro das duas malas que me vão acompanhar até Casa, e agora, quase prontas, continuam vazias. Não de espaço, que esse está bem aproveitado. As minhas malas vão vazias do que realmente importa; vão vazias dos sentidos e das aprendizagens, vazias das mil eternidades tocadas, dos instantes em que o céu era mais perto. As minhas malas vão vazias do meu coração a explodir, das lágrimas dos meus olhos, da saudade do que ainda não passou. As minhas malas vão vazias das cores, do peso da terra, da chuva a molhar a pele, dos relâmpagos a incandescerem a alma. As minhas malas vão vazias do corpo sentado no chão, das estradas que cortam os matos, das estrelas a queimar no céu. As minhas malas vão vazias de conversas intermináveis, de gargalhadas patetas, de companheirismo, de entrega, de fascínio.
Nada nestas minhas malas... nem uma só descoberta no bolso lateral, nem um sorriso escondido debaixo duma camisola, nem mãos abraçadas em cumplicidade dentro das meias. Nada. Só roupa, acessórios, livros antigos, sandálias. Como podem estas malas tão pesadas não terem nada interessante lá dentro?
E este vazio das malas rasga em mim o corpo de sentires, nessa responsabilidade gigante de guardar tudo, de não esquecer nada.
Se as minhas malas se extraviarem no caminho, a TAP tratará de me restituir os bens perdidos. Mas e isso tudo que levo dentro de mim? Quem se responsabiliza? A quem vou reclamar se perder momentos, imagens, significados?
Devíamos poder fazer um seguro da nossa memória.

Lembra-te.

Não podes ir embora sem te lembrares. Não podes ir embora sem reveres e guardares.
Lembra-te.
E lembra-te enquanto estás aqui, nos dias que te sobram repletos de tanto, perto ainda das memórias a gravar.
Lembra-te.

Lembra-te de quando aterraste em Bissau pela primeira vez. Do ar húmido a colar no corpo, a dificuldade em respirar. Lembra-te da sede, essa saciada e sempre repetida. 
E lembra-te de te sentires em casa desde o primeiro instante; o longe a doer, o coração a pousar.

Lembra-te de cumprimentares as pessoas na rua, lembra-te de quereres saber os nomes. 
Lembra-te das pequenas coisas e da tua capacidade de vivê-las em plenitude. 
Lembra-te de procurares soluções para os problemas e de todos eles tirares um ensinamento.

Lembra-te dos banhos-de-chuva, da água completa em ti, do fresco a explodir, de risos molhados e partilhados com gente que rasga o teu coração.
Lembra-te de saltar para o rio Geba meio segundo depois de afirmares que nunca o farias.
Lembra-te das estrelas cadentes numa pickup debaixo do céu e das pessoas que estavam contigo nessa caixa aberta para o mundo.

Lembra-te de dançares como se se a tua vida dependesse disso, como se fosse a última noite.
Lembra-te de sempre ser para sempre e quereres sempre mais e, ainda assim, tudo te bastar.
Lembra-te de te sentires a crescer, sendo cada vez mais pequenina.

Lembra-te dos amigos que o serão para sempre, de como te acrescentam vida e beleza, de como aumentam o mundo que conheces e partilhas, de como são grandes no teu coração.
Lembra-te da coragem da entrega, de beijares sorrisos e experimentares o sagrado em intervalos de lucidez.

Lembra-te das cores, dos sons, dos cheiros. Fecha os olhos e vê, ouve, cheira. Sente.

Mas lembra-te também das frustrações repetidas e somadas, de quando parecia que não ias aguentar mais. Lembra-te da paciência esgotada. Lembra-te da lama e da poeira. Lembra-te dos mosquitos, dos grilos, das baratas, dos lagartos. Lembra-te dos militares, dos políticos de treta. 

Lembra-te do escuro e lembra-te das lanternas a iluminar.
Lembra a Guiné inteira em ti, no bom e no mau; e deixa-a ser esse todo que é teu, assim.
Chora. Deixa essa saudade ser recipiente que guarda tudo isto. É essa a verdade.

E lembra-te de ti na Guiné. De quem eras quando chegaste, de quem és agora que partes.
Como te disse a tua alma irmã, "lembra-te de quem és no sítio para onde vais".
Lembra-te.

Morte

Há gritos aqui ao lado. Há trabalho para fazer e tento ignorar. Os gritos continuam e intensificam-se. Já os conheço de cor, já sei fingir que não me incomodam, já sei fazer de conta que não oiço. E tenho coisas para fazer.
Mas eles continuam. E insistem fazer-se ouvir. E teimam em fazer-me ouvi-los. Em lembrá-los.
 
O hospital de Bafatá é atrás de nossa casa, ao lado do escritório. Das janelas dos nossos quartos, acompanhamos sempre os gritos que a morte traz: o choro, a tristeza, a vivência cultural e tradicional em que gemidos e cânticos confundem e misturam rituais com sofrimento.
Do escritório ouve-se mais ao longe e o trabalho distrai-nos.
Em casa, auscultadores com música podem ajudar a levar o barulho e o sofrimento para longe. Não que sejamos indiferentes, muito pelo contrário. Mas porque, simplesmente, não cabe mais. Não cabe mais angústia, mais impotência.
Somos demasiado pequenos para tanto que há a fazer e precisamos concentrar-nos nas nossas pequenas tarefas, para que pelo menos estas, apesar da sua pequenez, possam ser concluídas e assim iludir-nos no cumprimento do nosso papel enquanto nos ensurdecemos ao barulho que chega do hospital. Enquanto abafámos o que não percebemos, não conseguimos explicar, não temos como ajudar a resolver.
 
Um ano e meio depois, estes gritos continuam a dar-me socos no estômago. Os cânticos em coro desafinado pelas pessoas que se vão juntando fazem-me sempre sentir ainda mais pequena, mais inútil. E, egoistamente, não quero saber quem foi; não quero saber o nome, a família, a causa da morte. Não quero saber. Não cabe. Não cabe mais.
 
E hoje, agora, depois de tantos choros partilhados pela janela do quarto, depois de tantos outros que me forcei e aprendi a ignorar, este fez-se ouvir. Escalou todas as minhas tentativas de insensibilidade. Entrou repetidamente pela janela do escritório. E fez-me parar.
Como que a pedir-me que nunca deixe de me chocar. Que nunca deixe de me comover. 
E talvez a lembrar-me dessa despedida sempre difícil que é deixar partir as pessoas que amamos. A Pequenina faria hoje 74 anos.

 

Eternidades

No dia de hoje, é comum lembrarmo-nos dos que já partiram, dos que continuam a ser Vida em nós numa ausência que nos dói. Lembrá-los enche-nos o olhar de ternura.
E fico a pensar como são eternos em mim. Lembro-me de pensar nisto há dois anos, depois de uma perda me obrigar a construir eternidade no meu coração.
Parece contraditório, mas a eternidade pode ter diferentes durações. Acredito mesmo que a eternidade mora nos momentos que têm princípio e fim, muito mais do que no tempo infinito.
Mesmo quando choramos (e é preciso chorar), mesmo quando são pesadas demais a saudade, a efemeridade da vida e as ausências, é preciso aprender a celebrar as vidas que deixaram de ser corpo entre nós.
A efemeridade desaparece quando as vidas são partilhadas. A memória faz com que os momentos sejam reais, mesmo depois de terminados.
Poderá ser eterna a chama de uma vela, mesmo depois de se apagar?
Sim. Basta que alguém tenha contemplado a sua luz. Tudo que é contemplado é eterno.
Sorrio tranquila, feliz pela constatação da eternidade sublime que descobri, esta subtil e quase mágica perenidade de instantes e vidas.
 A vida não é feita de momento efémeros, saibamos nós construir pedaços de eternidade.
 
 

Prometes voltar?

A pergunta é feita pela Isabel ao irmão, no segundo capítulo do livro que me tem ocupado os intervalos deste fim-de-semana: "Uma terra distante".
 
Foi uma prenda que ofereci a quem, como eu, está numa terra distante e partilha comigo pedaços da vida em Bafatá. Nesta reciprocidade espontânea, sou eu agora a lê-lo.
Ainda estou a descobrir a história.
Mas antes precisei parar e digerir este Prometes voltar? dirigido a quem parte para uma terra distante.
 
Prometes voltar?
Não sei responder. Não sei se percebo a pergunta.
 
E fico a pensar até nisto: uma terra distante. Distante de onde? Distante de quem? Distante de quê?
 
Prometes voltar?
Lembro Luanda e os meus meninos. Minha primeira terra distante. Onde tudo começou. Onde me perguntaram, pela primeira vez, olhos firmes nos meus: Prometes voltar?
Depois Moçambique. E agora a Guiné-Bissau.
 
Prometes voltar?
E esta pergunta entoa em mim. Sem resposta. Sem sentido.
Voltar.
Prometes voltar?
 
Voltar onde?
Voltar para casa?
Voltar a Angola?
Voltar a Moçambique?
 
Voltar a um lugar? A uma pessoa? A um instante?
 
Quando eu souber, de verdade, que todos os lugares são um só, nunca precisarei de voltar. Nem de partir.
Por agora fico, aqui, nesta terra distante. 
 
Mas... estarei eu assim tão distante? Às vezes acho que estou perto, muito perto.
Talvez porque nunca se parte por inteiro, nunca se regressa por inteiro. Então como voltar de onde nunca chegamos a partir? E como não voltar aos lugares aonde fomos (somos?) plenitude e Vida?
 
Saio de casa e o meu coração quer voltar. Chego a casa e o meu coração quer voltar.
Quando todos os lugares são terras distantes e quando em todos algo nos faz prometer voltar...
 
Mas, afinal, nada do que conhecemos é distante, porque vive em nós.
Porque os lugares são mais do que a intensidade do pôr-do-sol laranja, mais do que a terra vermelha do chão, do que o asfalto da estrada. Porque os lugares não são as paredes e os móveis, não são as avenidas nem a água do mar.
Os lugares são palcos. E o que fica em nós são as pessoas que o enchem para nos contar uma história, para nos divertir, para nos ensinar, para nos tocar, para nos fazer pensar. O que fica em nós são as interações não ensaiadas nesse palco, são as improvisações constantes, são as surpresas que não estavam no guião, são as cumplicidades e as descobertas.
Os lugares são essas pessoas a quem pometemos voltar. Mas a verdade é que não chegamos nunca a partir. Nunca partimos das pessoas a quem prometemos voltar. Ficamos sempre com elas e elas ficam sempre connosco.
 
Prometes voltar?
Não. Prometo nunca partir.