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Agora

Agora. Sem correr para o depois. Agora. Tanto espaço. Tanta Energia. Agora.

Daqui a poucos minutos (talvez não tão poucos assim, que o vôo está atrasado), estarei algures num pedaço de céu a caminho de Moçambique.

10 anos depois, vou regressar a uma terra que me ensinou a amar inteira quando eu achava que era impossível amar mais, me ensinou a amar melhor quando, entre a ingenuidade e a prepotência, achava que não havia mais a aprender.
E descobri, então, que sempre que achamos não haver nada a aprender, é quando mais precisamos de ensinamentos.

Há 11 anos, quando corri pela primeira vez para Moçambique, cheguei cheia de pressa de fazer coisas e obrigaram-me a parar. Embati num muro duro, implacável e indiferente à minha velocidade e à minha agenda. Mas não doeu. Essa parede alta era forte, mas suave, e o choque terminou numa espécie de abraço metafórico, de aconchego e novamente força a impelir. E antes de fazer o que quer que fosse, tive(mos) que aprender a estar. Estar. Coração todo ali. Consciência do tempo e do espaço. Gratidão pelas pessoas. Confiança no caminho. Entrega. Entrega total. Estar.
E depois sim, fazer. E fiz(emos) coisas tão bonitas! Porque estava(mos).
Há 10 anos, um ano depois, voltei a Moçambique, já em plenitude feliz, coração todo a explodir da magia dos reencontros.

Talvez não seja assim por acaso este regresso agora.
Os últimos tempos têm sido de fazer. Fazer imensas coisas, numa agenda preenchida e tarefas sobrepostas num castelo torto. Mas não estou. Não estou inteira em mim nem nos outros. E desta forma não faz sentido. Porque não faz sentir.
E se as minhas pessoas bonitas me aceitam assim, em pedaços de tempo contados e escassos, que não aceite eu estar tão pouco, que me lembre desse muro que me empurrou para me abraçar. 
Profundamente grata por esta rede incrível de suporte, cuidado e amor, quero aprender a guardar espaços de tempo sagrados de celebração discreta - mas atenta - da vida e dos outros
E imponho a mim própria este limite, este ponto final em malabarismos. Agora Moçambique. Outra vez. Tantos anos passaram e tanto para (re)aprender. Dias que se esperam de Luz e Amor. Quero só saber que vou aterrar inteira e permitir-me essa comunhão plena e entrega genuína.
E depois, aproveitar o balanço, e voar de volta para cá, nessa certeza de que 2018 terá que ser um ano para Fazer menos e Estar mais. Fazer melhor, mais atenta, com mais cuidado. Mas Fazer menos. Dizer que não quando for preciso, só para garantir que cada Sim é total e será vivido e desfrutado.
E Estar mais. Demorar-me nas casas e nos encontros. Ter conversas mais longas. Demorar-me menos no relógio para o compromisso seguinte e mais nas conversas que ainda esperam tantas palavras.

E agora, Moçambique.
E agora, viver agora.
Até já.


Sentido















Qual é o sentido?
Em frente.
Sempre. 
Sempre em frente.
Sempre a mesma resposta.

Qual é o sentido?
Qual é o meu sentido?
O meu sentido é o que sinto.
Assim só.

E o mundo?
Qual é o sentido do mundo?
Deixa o mundo. Deixa-te no mundo.
O mundo segue. E tu segues.
Um dia, quem sabe, encontrar-se-ão no caminho.
Segue. É esse o sentido.

Qual é o sentido? Não a direção, a direita ou a esquerda, mas o sentido. Esse da unidade, do todo, do inteiro infinito.
Em que sentido devemos ir para saber o sentido?

Talvez o sentido seja mais fácil de perceber do que de aceitar.
Porque queremos sentidos novos. Sentidos nossos. Sentidos só nossos.
Queremos sentir o que mais ninguém sente. E queremos que todos sigam o nosso sentido.
Queremos tudo. E esse não é o sentido.

Faltar-nos-á, talvez, a humildade necessária para viver esse sentido "em frente" sem procurar outros. Mas não o conseguimos sentir.

Qual é o sentido?

Shh. Fala baixo. Não faças perguntas.
Tanto barulho! Fazes tanto barulho com as tuas perguntas.
Estás sempre a perguntar, sem intervalos, dúvidas constantes, sedes de sentidos que todas as águas do mundo se cansam de tentar saciar.
Estás sempre a perguntar. E nunca ouves a resposta.

Não procures mais o sentido. Não perguntes mais nada.
Segue.
É esse o sentido.

Ubuntu

Eu sou porque tu és.















Eles são diferentes. São tão diferentes!  Diferentes países,  idades, profissões.  Diferentes ideias, diferentes tamanhos, diferentes pronúncias.
E é essa mesma diferença que os torna absoluta e profundamente iguais. Confundem-se na alegria confiante, nos olhos sonhadores e nas mãos agitadas à procura de acções para concretizar o outro, todos os outros, razões de cada dia que amanhece, de cada pedaço de ar que inspiramos. 
Levamo-nos uns aos outros em cada célula e é só quando nos reconhecemos como família gigante que o universo nos abre as portas à vida.
Não se distinguem misturados em multidão atenta às inspirações, porque são juntos. São humanidade enquanto nação e rasgam essas fronteiras artificiais em pontes de amor.
Eu sou porque tu és.

Encontraram-se lá no alto, com o mundo aos pés, a mostrar-se bonito em ondas de mar a beijar areia, a chamá-los para esse afeto guardado em cada um à espera de explodir na comunhão dos reencontros. Porque cada pessoa que conhecemos é, afinal, um reencontro. Eu sou porque tu és.

Aqueceram a areia da noite com o calor dos corpos contentes. Conversas cruzadas, dedos a dançar em cordas.
Lá em cima as estrelas, mas o céu sentou-se mesmo ali ao lado e cantou com eles.
"Ke ki mininu na tchora?" A Guiné aqui tão perto. Depois Cabo-Verde. E afinal era o todo o mundo que cada um carregava em si!
Eu sou porque tu és.

Há instantes que agregam despedidas e reencontros, saudades e novos amores. Segundos que são todos os calendários, pessoas que nos devolvem os que não estão cá, lugares que são todos os sítios que pisamos em entrega. E a sofreguidão de viver acalma-se cá dentro, porque bebemos o mundo e há sempre mais mundo para beber. Há sempre mais mundo para conhecer e partilhar. Só para descobrir, no fim, que o mundo esteve sempre dentro de nós.
A Academia Ubuntu é esse instante. A Academia Ubuntu são essas pessoas. A Academia Ubuntu são todos esses lugares.
Eu sou porque tu és.

E ela, perdida na sua inquietude infantil, encontra-se nesse novelo de gente. E o coração deixa de doer da angústia do caminho. E volta a acreditar que é possível. O Mundo é possível! Mas só assim faz sentido. Só assim.
Como quando queremos cantar a nossa música preferida mas, desafinados que somos, não ousamos soltar a nossa voz sozinha. Erga-se um coro de vozes e lá estaremos nós a cantar também. Juntos não desafinamos. Fica uma só voz, inteira de mundo.

Ubuntu. Eu sou porque tu és.

Cores no céu

Ela gosta do Mundo. Mundo com letra maiúscula. Mundo que abriga pessoas, dessas que têm o Mundo dentro de si. E o Mundo e as pessoas confundem-se, a acrescentarem-se belezas mutuamente. Porque as pessoas onde mora o Mundo, sentam-se em diferentes lugares desse Mundo.
Parece confuso, mas não é. Porque tudo é uma coisa só.
E ela sempre com saudades. Das pessoas e do Mundo, desse todo inteiro que apenas a verdade e a entrega tornam pleno.

O caminho era novo. Não sabia o destino, mas a estrada chamava por ela. Parecia um regresso. Mas ela sabia que na vida não há regressos; tudo é uma novidade. O aqui não é o mesmo amanhã: passou-lhe o tempo e a luz, os sentires e as certezas, as memórias e os segredos.
Então seguiu, sem ver mais da estrada do que o chão que os seus pés iam pisando. No olhar, a atenção focada em ver o que o horizonte não mostrava; no coração, a segurança de pilares inabaláveis.

Como vinha de outras estradas, com outras luzes a iluminar, os seus olhos demoraram a acostumar-se, não conseguiam distinguir as cores e as tonalidades. 
Assim sem ver bem, a gente nem se sente direito. Como se a luz de fora interferisse com a luz dentro dela. Era preciso soltar o olhar, deixá-lo descobrir novos brilhos, novos raios a incandescerem o coração e o riso.

Passaram dias, muitos dias. Ou terá sido só um dia muito grande?
Só se sabe que ao amanhecer, espreitou pela janela, à procura de sinais desses que vêm do céu. E estava lá este arco-íris, a mostrar-se por cima das nuvens, a focar a atenção nele. 
Cores no céu que não iluminam, mas dão luz. Dessa luz que se bebe em suspiros de paz, em abraços de entusiasmo e fôlegos de confiança.

E ela agora segue o caminho, despreocupada com a estrada, passos serenos a descobrir ruas novas. Que os olhos ficam bem é lá no alto.



À procura

Há mesmo muita coisa que eu não sei. Mesmo muita. Nem estou a falar de factos e números. Estou a falar das coisas de dentro. Do que sinto. Do que quero. Do que sonho. E há mesmo muita coisa que eu não sei. Preciso conhecer-me melhor. Conhecer as ruas por onde passo distraída, os sítios onde me sento a descansar de olhos fechados sem ver o que está ao meu redor. 
Há tanto que eu ainda não sei. Tanto que eu não me sei.
Sei pouco. Sei-me mesmo pouco. Esse pouco que é agora o tudo que sei. Talvez deva partir daí.

Sei que não posso ficar. Mas não é altura de partir. Tenho a certeza disto. E sei-o, sinto-o, vejo-o. Não posso ficar, não quero partir. Nisto eu sei-me.
Acho que a resposta está no paradoxo de não poder ficar e não querer partir. 
Na relação entre estes dois "não's" existe todo um caminho estreito de possibilidades, mas largo de razões, imenso de entusiasmo, nú de verdades e vestido de alegrias.
É um caminho a desbravar, a asfaltar, a ligar em pontes estratégicas. 
É esse. Sim. É esse o caminho.
E não é tão paradoxal assim. O partir é o geográfico, e desse não é altura. O ficar é o conformismo, e para esse é demasiado cedo.
Não posso ficar. Não posso ficar resignada, não posso ficar alheada dos ideais pelos quais quero lutar, não posso ficar nas ações sem intenção, nos gestos vazios. Não posso ficar.
Mas não quero partir senão de mim. De mim para fora. Viagem entre gentes e não continentes.

É este o caminho.
Descobri-o agora, agorinha, no abstrato das palavras em que me concretizo.
Preciso ir além da poesia. Tudo é mais fácil na poesia. E mais difícil.

Querer Ser

Querer ser. Esse sussurro constante cá dentro, que é apenas verdade quando se transforma em grito, quando paramos de fingir surdez e iniciamos caminho, mesmo que ainda à procura de direções.
É mais fácil inventar contentamentos do que seguir aquilo que queremos para nós e para o mundo.
Querer algo é uma ousadia muito grande. É saltar no escuro sem saber se essa vontade terá um chão a amortecer a queda. Mas é também deixar que se ergam as asas dos que transformam os desejos em ações.

Fico a pensar que é mesmo isto que nos define: aquilo que queremos ser. O que queremos mesmo. Aquilo que nos faz levantar da cama de manhã de sorriso no rosto para enfrentar desafios, com entusiasmos que nos acordam por dentro, por ideais que nos despertam a confiança no mundo e na humanidade.
E, acima de tudo, o simples querer ser. Ser. Essência. Querer ser inteiro. Querer ser simples, mas não superficial. Querer ser esse peixe que corre o mar e não tem medo de descer no profundo das águas onde acontecem os milagres. Ser parte de um todo interminável de pessoas e lugares, pertencer assim a essa comunhão invisível de encontros e ternuras.

E porque há tanto mais a fazer, tanto mais a ser, possa esta vontade ser sempre inquietude a impelir.

Migrações

Há exatamente dois meses atrás, acordei de coração pesado, duas malas cheias ao lado da cama, passaporte preparado, despedidas a fazer. Era quase Natal, mas era um Dezembro quente e cheio de sol, porque vivido nesse continente onde a humanidade nasceu.
Despedi-me da Guiné-Bissau num "até já!" de quem tem a certeza que vai voltar.
Horas depois, aterrei em Portugal. Aqui o Natal aproximava-se no meio do frio e da chuva, mas sempre o aconchego das pessoas a ser esse calor cá dentro.
 
Há cerca de dois anos e meio, saí de Portugal emigrante. Há dois meses, voltei imigrante.
Quem um dia salta para o mundo, corre o risco de nunca mais ter uma casa, de nunca mais ser inteiro.
Quem um dia arrisca novas nacionalidades, corre o risco de não ter nunca tijolos suficientes para construir um abrigo onde caibam todas as (suas) nações.
Quem um dia rompe essa corda que nos segura perto, corre o risco de nunca mais nenhuma corda a segurar em lado nenhum.
Mas são riscos que valem a pena. Afinal, corremos riscos todos os dias, desde que saímos da cama, e até mesmo sem sairmos.
Conhecidos os perigos, deslumbrados com todo esse mundo de gentes e cumplicidades, de caminhos e ideais, de costumes e formas de amar, não há nada que nos detenha.
 
Resta-nos, então, recorrer ao mais profundo da nossa criatividade e aprender novas formas de ser inteiro, mesmo que em pedaços. Um puzzle é inteiro mesmo sem estar montado. Então, que saibamos ser essas peças espalhadas que às vezes se encontram, essas partes de nós que serão sempre radar dos sítios onde iremos voltar, dos sítios de onde nunca partimos, dos sítios que moram em nós e nos guardam um cantinho para dormir nas viagens ainda sem bilhete.  O inteiro não tem que estar colado. Tem que Ser inteiro. Tem que se saber. Inteiro é o mundo. Inteira é a humanidade. Peças que encaixam.
 
Sai daqui emigrante. Voltei imigrante.
Há dias, numa reunião relacionada com o trabalho, alguém se apresentou como sendo guineense. E eu, coração de imigrante, pulei cá dentro na alegria de quem encontra um conterrâneo, de quem poderá partilhar as dificuldades de adaptação às diferenças na comunidade de acolhimento.
É engraçado como, efetivamente, ainda me sinto a adaptar e quase ando com o meu passaporte a pedir visto de residência. Parece que não é preciso, que tenho nacionalidade.
E gosto deste país, mas ainda estou a aprender a língua e os costumes. Falta-me aquele crioulo que não tem tradução no português, falta-me cumprimentar as pessoas na rua, confiar na genuinidade das ações, na pureza das intenções.
Ainda me estou a habituar à temperatura e às excessivas camadas de roupa em cima da pele. Talvez seja a roupa a pesar-me cá dentro. Ou seja apenas eu ainda a aprender-me inteira em pedaços.
 
E é com um sorriso de entusiasmo que escrevo sobre esta minha condição de imigrante. Porque, ainda que entre saudades, me alegro sempre por esses bocados de mim que, embora longe, me lembram quem sou, me inspiram, me apontam o caminho.

Demorar


Assim só. Simples assim.
Não te demores.
Se chegaste por engano, volta ao teu caminho. Se foste porque achavas que havia mais, aceita e integra. Senta-te lá um pouco até essa dor passar. Mas não, não te demores.

Sentes o teu coração? O que ele te pede?
Então vai. Procura. Corre. Inventa caminhos.
Cada dia que te demoras onde não podes amar, é um dia a menos onde podes.
É melhor seguir a caminhar, ainda sem saber para onde, do que ficar onde não faz sentido. Onde não sentes. Onde não te sentem.
A estrada encarregar-se-á de te dar pistas, o percurso é ele próprio um alimento do amor em ti, de preparação para partilha disso que te habita.


"Onde não puderes amar, não te demores."

Arriscar

Arriscar é um pouco assustador.
Não arriscar é ainda mais.

Dar um passo em frente sem saber o que há depois da curva pode ser verdadeiramente aterrador. Mas, às vezes, a vida pede-nos que sigamos sem garantias de chão para pousar os pés no passo seguinte. E não adianta consultar mapas, pedir orientações. Não há certezas. Ninguém te poderá responder acerca do rumo da estrada, nem avisar para te desviares dos buracos. 
Tens que seguir, com cautela sim, mesmo um pequeno pânico a doer na barriga, mas os olhos abertos de atenção, focados de vontade. 

O que ressoa no teu coração?
O que te faz vibrar de entusiasmo enquanto sustens o ar no peito?
Escutar estas questões dentro de nós é a mais feliz das audácias; responder-lhes é o maior desafio que a vida nos põe; seguir a verdade das respostas é aceitar a vida enquanto aventura de ser.

E quando entramos nessa aventura pelas razões certas, nada pode correr mal. Nada. Tudo é construção e caminho. Cada coisa tem o seu espaço e é degrau mais próximo da meta, sem deixar de ser lugar que vale já em si mesmo. Até o medo é para lembrar a responsabilidade dos sonhadores, a beleza das conquistas.
Viver uma aventura é mais do que praticar desportos radicais, e menos também. É diferente.
É viver o perigo, não pela adrenalina, mas pelas tuas mãos maiores, pelo horizonte mais distante, o caminho mais largo e seguro. É aceitar cair e arranhar o joelho, é admitir erros e inseguranças, é querer aprender melhor dessas quedas e desses erros e integrá-los com orgulho no teu crescimento, no teu caminho.
Se é esta a tua aventura, o que te detém?

O que te faz arriscar?
É o amor?
É a paz?
É o sonho?

Ahhhh! Então, de que estás à espera?
Avança!

Lembra-te.

Não podes ir embora sem te lembrares. Não podes ir embora sem reveres e guardares.
Lembra-te.
E lembra-te enquanto estás aqui, nos dias que te sobram repletos de tanto, perto ainda das memórias a gravar.
Lembra-te.

Lembra-te de quando aterraste em Bissau pela primeira vez. Do ar húmido a colar no corpo, a dificuldade em respirar. Lembra-te da sede, essa saciada e sempre repetida. 
E lembra-te de te sentires em casa desde o primeiro instante; o longe a doer, o coração a pousar.

Lembra-te de cumprimentares as pessoas na rua, lembra-te de quereres saber os nomes. 
Lembra-te das pequenas coisas e da tua capacidade de vivê-las em plenitude. 
Lembra-te de procurares soluções para os problemas e de todos eles tirares um ensinamento.

Lembra-te dos banhos-de-chuva, da água completa em ti, do fresco a explodir, de risos molhados e partilhados com gente que rasga o teu coração.
Lembra-te de saltar para o rio Geba meio segundo depois de afirmares que nunca o farias.
Lembra-te das estrelas cadentes numa pickup debaixo do céu e das pessoas que estavam contigo nessa caixa aberta para o mundo.

Lembra-te de dançares como se se a tua vida dependesse disso, como se fosse a última noite.
Lembra-te de sempre ser para sempre e quereres sempre mais e, ainda assim, tudo te bastar.
Lembra-te de te sentires a crescer, sendo cada vez mais pequenina.

Lembra-te dos amigos que o serão para sempre, de como te acrescentam vida e beleza, de como aumentam o mundo que conheces e partilhas, de como são grandes no teu coração.
Lembra-te da coragem da entrega, de beijares sorrisos e experimentares o sagrado em intervalos de lucidez.

Lembra-te das cores, dos sons, dos cheiros. Fecha os olhos e vê, ouve, cheira. Sente.

Mas lembra-te também das frustrações repetidas e somadas, de quando parecia que não ias aguentar mais. Lembra-te da paciência esgotada. Lembra-te da lama e da poeira. Lembra-te dos mosquitos, dos grilos, das baratas, dos lagartos. Lembra-te dos militares, dos políticos de treta. 

Lembra-te do escuro e lembra-te das lanternas a iluminar.
Lembra a Guiné inteira em ti, no bom e no mau; e deixa-a ser esse todo que é teu, assim.
Chora. Deixa essa saudade ser recipiente que guarda tudo isto. É essa a verdade.

E lembra-te de ti na Guiné. De quem eras quando chegaste, de quem és agora que partes.
Como te disse a tua alma irmã, "lembra-te de quem és no sítio para onde vais".
Lembra-te.

Cabelo ao vento

















Naquela noite, a lua estava um pequeno arco. Um sofá, um abraço, um baloiço. Dava vontade mesmo de deitar lá, de ficar nesse repouso aconchegado, sem tempo e com todo o tempo do mundo, sem pensar nada que não no prazer desse encontro. E a lua não ia dizer nada. E eu também não. Deixaria que as estrelas contassem o que eu não sei falar.


Às vezes, a vida põe-nos o cabelo ao vento. Como uma passadeira rolante; por mais que nos sentemos num lugar, a vida segue adiante, e nós seguimos com ela. Se estivermos atentos, sentimos mesmo esse vento no cabelo e deixamos o corpo tombar para o lado nas curvas. 
Há momentos em que andamos para trás, mas afinal não saímos do lugar, porque a passadeira continuou a rolar. Outros momentos, apressados,  caminhamos ou corremos, acelerando a vida. Depois, cansados, encostamos no corrimão, deixamos a vida correr sozinha.

Hoje sinto o vento bater-me no cabelo. A passadeira segue numa velocidade estonteante. Sabe bem esta brisa no quente que sinto explodir em mim. Esse calor de vida a acontecer. 
E hoje não haverá lua no céu; ficou pequenina até desaparecer, só pelo prazer de ser fazer nova outra vez. Esta noite ela não será subterfúgio de metáforas desajeitadas. Fica a vida sem figuras de estilo, apenas a poesia sentida e inexpressável.
Sabe bem esta brisa. Não sei parar a passadeira, não posso saltar. Tenho que me deixar ir, o fogo em mim, a brisa a acalmar.

Entretanto

De partida.

A Sóninha dizia há tempos que chegar à Guiné-Bissau não é um acto, é um processo. 
Partir também. Um processo lento, demorado, daqueles que se arrastam em tribunal recorrendo a todas as instâncias possíveis.
Pode parecer estranho, mas as despedidas são vivências profundamente solitárias. E só assim fazem sentido. Por mais que se materializem abraços e cartas, a verdadeira despedida é aquela que se vai fazendo em segredo no coração, nos momentos de silêncio em que todos trabalham concentrados, nos momentos de confusão e euforia em que todos dançam o corpo inteiro de paz e riso, e eu me paro em segundos demorados de contemplação. 
E estas pessoas bonitas e gigantes lá dentro de si, ficam ainda mais bonitas e mais gigantes. Eu a beber as suas belezas em solenidades que finjo banais. 
E a minha Guiné fica mais minha. Tão minha. Tão dentro de mim. Eu tão nela. Tão.
Porque vou embora, mas ainda não fui.
Entretanto, eu continuo aqui, entre tanto. Tanto!

Desassossego

Viver. Viver encanta. Viver assusta.
Porque viver (viver mesmo! não o simples estar vivo) é esse desassossego intermitente. Essa estrada esburacada que aprendemos a amar. Decoramos os buracos e desviamo-nos com agilidade, mas haverá sempre um novo a surpreender-nos. 
A vida é essa corrida de obstáculos, esse todo-terreno em que somos veículos extremamente bem equipados, ainda que não dominemos toda a tecnologia, porque frequentemente escolhemos os caminhos mais fáceis, mais seguros. E demoramo-nos a olhar mapas, seguindo pelos rumos mais directos, menos complicados. 
A verdade é que, muitas vezes, as coisas mais bonitas são as de mais difícil acesso. Como o caminho para a praia de Varela ou a estrada para o Parque de Cantanhez, na Guiné-Bissau. Às vezes, a meio da viagem, ficamos a pensar se valem a pena tantos saltos, se não tinha sido melhor ir a um sítio mais acessível. E é só chegar lá para se esquecerem rapidamente as dificuldades do trajecto. Mas depois é preciso voltar, viver tudo de novo.

E como me disse hoje alguém, sábio gigante nas suas dúvidas mais ricas que todas as certezas: "Tomei duas decisões: vou amar e vou sofrer." Aceitando o segundo pela inevitabilidade do primeiro. Aceitando o sofrimento pelo inteiro do sentir e ser, pela plenitude que é irrecusável, pelo inadequado da autenticidade e do instinto que inventam errados que incomodam a nossa verdade no outro.
E aceita-se assim a estrada inacreditavelmente esburacada para chegar à praia de Varela. É que vale mesmo a pena!

Estes dias dou por mim a pensar neste meu culto exagerado pela serenidade.
Tenho percebido que o tal sossego bom de sentir pode ser viciante: porque em vez de nos libertar, escraviza-nos dessa segurança e limita as nossas ousadias.
Porque, na vida, é preciso aceitar perder a paz para ganhar intensidade. É preciso aprender esses sobressaltos bons que lembram que os dias não são todos iguais, que a vida não é só o que planeamos (quase nunca é!). É aceitar perder essa serenidade que demoramos tanto a construir, é abdicar desse equilíbrio de que tanto nos orgulhamos.
Viver. Viveeeeer!


Relâmpagos

Banho-de-chuva. O último?

Final da tarde. Noite escura já. Trovoada ao longe avisa mais uma tempestade eminente. A chuva forte começa a cair. Forte como um ímpeto. Intensa como a vida. Uma intensidade boa, pois assim a desenhamos em nós ao recebê-la.
Nós no alpendre. Abrigadas de uma chuva que não respeitava abrigos e nos salpicava, em jeito de desafio. À nossa frente, o negro cerrado da noite rasgado por rectas de água a mergulhar na terra. O negro cerrado da noite interrompido por instantes em que os relâmpagos faziam dia.
“É a minha coisa preferida aqui!”, berra a Carmen, para que a sua voz falasse por cima do temporal. E estaríamos muito bem ali as duas nesta contemplação inquieta, não fosse a chuva gritar em nós a energia boa de quem se oferece inteiro. A chuva, tanta que só toda, pedia um acolhimento recíproco à sua dádiva. E já se sabe que nós não lhe conseguiríamos dizer que não.
Lá fomos então, primeiro a medo, que isto da chuva no escuro e dos relâmpagos a incandesceram a noite, exigia uma certa ousadia.
E à magia de receber essa água que cai do céu, junta-se a maravilha dos instantes de luz de cada relâmpago: ofuscavam os olhos e voltávamos ao escuro, à água; a roupa colada ao corpo. Os relâmpagos aproximam-se, e com eles trovões bem mais forte. Gritinhos de histeria, claro está, uma espécie de medo bom, e nós continuávamos ali. Frio, saltos para aquecer, olhos ao céu num clarão de mais um raio de luz. Vida a acontecer só porque sim.
Gritei mais do que nunca com a trovoada. Como se aquele entregar genuíno a esse momento de simples deleite limitasse a capacidade de conter os sobressaltos a cada novo ribombar.
Depois chegou a altura de caminhar no escuro de volta a casa. Entre um passo e outro, mais um relâmpago a iluminar o caminho. A seguir o banho de chuveiro, pobre imitação da aventura vivida. Depois a roupa seca no corpo e ainda o contentamento emancipado de razões.

O melhor da vida é mesmo fazer coisas sem sentido só porque as sentimos. Caminhar para debaixo da chuva nesse impulso infantil de querer brincar. Não esperar nada e receber como oferta essa alegria sem motivos, sem pudor, sem cerimónias. Aceitar absoluta esse efémero pedaço iluminado, e torná-lo perene pela plenitude com que foi acolhido.
E é neste relâmpago que queria demorar-me. Nesta magia de micro segundos em que a luz explode. Foram dois anos na Guiné-Bissau. Minha Guiné-Bissau. Serão mais dois meses. Depois o caminho segue. Olhos esbugalhados ao céu à procura de novos relâmpagos.

O último banho-de-chuva?

A vida são estes relâmpagos que rompem o escuro da noite debaixo da chuva. A vida não é esse escuro, mas os instantes de luz que continuam a brilhar nos nossos olhos mesmo depois de se apagarem. 
A Guiné continuará a brilhar em mim. Nos meus olhos, no meu coração, nas palavras, no caminho. A Guiné continuará a brilhar como um relâmpago que explode cá dentro. A Guiné continuará em mim. Sempre.

Zona de conforto

Dizem que é quando saímos da nossa zona de conforto que a magia acontece. É preciso uma certa dose de ousadia e confiança. E de amor. Aquele que trazemos em nós e nós e nos faz relacionar com os outros, quem quer que eles sejam, com interesse, disponibilidade e ternura. E assim, a tal zona de conforto vai ficando maior. 
Será?
Às vezes fico com a sensação de que a nossa zona de conforto não aumenta, apenas se desloca. E voltar é, afinal, mais difícil do que foi partir.
Acho que quem cresce somos nós. Mas será sempre preciso voltar a ousar e a confiar, repetidamente. Isso é que fica mais fácil. É uma espécie de treino de despojamento, em que nunca nos tornamos atletas profissionais, mas não desistimos de praticar.
Não é, portanto, a zona de conforto que fica maior. Somos nós que deixamos de nos contentar com o conforto em si. E vivemos de ousadia em ousadia. Sempre em desconfortos que nos dão vida. Sempre em direcção a horizontes que projectamos num qualquer infinito sonhado.
O assustador torna-se não ousar. Voltar. Levar tudo contigo, depois de teres deixado tudo de ti. Esse todo que deixas e que levas. Preparar a bagagem com cuidado, sem deixar faltar nada. Quando voltamos de viagem, as malas vêm sempre mais descuidadas do que foram na partida.
Mas para voltar inteiro, é preciso sentir que se está a partir. Só quando partimos nos entregamos, em plenitude, às acções e às pessoas.
Se queres voltar, fá-lo como quem está a partir.

Sede

Sede de partir. Sede de voltar.
Acho que gosto tanto de água, ou de como ela me sacia, que me perco a inventar sedes. Como se a sede fosse um prazer em si própria, pela antecipação desse saciar, que rapidamente se transformará em novas sedes. 
E claro que não falo de uma garganta seca, mas de um caminho que se bebe em trajectos. De inquietudes que ora inspiram, ora atormentam; ora encantam, ora desorientam.
Desorientar. Tirar a orientação? Talvez seja mesmo isso o necessário. Colocar uma venda nos olhos, esquecer o mapa que decorámos, girar vezes sem conta, parar, e deixar que seja só o coração a escolher o caminho. O de sempre, um novo, ou simplesmente voltar ao princípio e começar tudo de novo. Simplesmente... Às vezes era bom ser mais simples. Deixar acontecer e confiar. Às vezes era bom deixar que a banalidade nos surpreendesse, que o mais vulgar dos acontecimentos fosse épico em nós. Mas é tão complicado ser simples!

Porque o nosso corpo precisa de água, inventam-se sedes.
Sede de encontros, de conversas, de palavras que ainda não têm letras. Sede de sons. Sede de silêncios. Sede de cores que ninguém viu e ninguém inventou. Sede de uma música que nunca ouvimos. Sede de um lugar que nunca visitámos e nem sabemos se existe. Sede de pessoas que ainda não nasceram. Sede de todos sóis que se hão-de erguer, de toda a chuva que há-de cair, de todo vento que será sopro no mundo. Sede de crescer e de ser pequenino. Sede de ficar, de construir, de ser, de pertencer.
E sede de ter sede, quando um dia acabarem todas as sedes.

Avançar

Avançar. Um pé à frente do outro. Sem pressa. Sem vontade, às vezes. Sem saber para onde ir, outras vezes.
Avançar. Não ficar parado. Caminhar. Devagar, que seja. Rápido, se assim for.
Avançar. De olhos no chão, desinteressados. Ou a olhar à volta, deslumbrados. Olhos fixos no horizonte, na certeza da direção, na miragem da meta. Qualquer que seja o teu olhar, avança.
Avança. Como puderes. Mas avança. Não te detenhas parado em ti próprio.
Avança. Porque só avançando se chega mais longe. Porque só avançando poderás sair de onde estás. Porque só avançando crias novas realidades. Porque só avançando dás novas oportunidades a ti próprio e à vida. Só avançando.
Se tiveres que chorar, fá-lo enquanto caminhas. A brisa da estrada secará as tuas lágrimas e ainda há tantas curvas a esconder surpresas e paisagens. Ainda há tantas pontes a ligar a outros caminhos. Ainda há tantas planícies para descansar. Tantos lagos de água fresca. Ainda há tantas praias para ver o sol adormecer. Tantas colinas para esperar um novo dia. Ainda há tanto, tanto, tanto para te encher o peito de tanto, tanto, tanto.
Não traves o escuro à volta, se ele existe. Aceita-o na noite que cai e descansa as energias para o novo dia. Há sempre um novo dia. E ainda há tantos dias!
Avança! Há muito à tua espera. Então vai. Confia. Segue. E aceita. Aceita que às vezes estás triste, que não te apetece, que estás cansado. Aceita e avança. Cada passo que dás estás mais perto. A cada passo que dás és mais tu, mais inteiro, mais realizado.
Aceita. Confia. Avança. Deixa o teu crescimento fazer-se sereno, deixa as aprendizagens rasgarem em ti novos rumos de alegrias. Deixa nascerem esses dias em que o sol te cega de entusiasmo, em que os risos gritam em ti a vida a acontecer, só porque não desististe de avançar.

 

Entre a Casa e o Mundo

Os últimos dias têm sido passados a saborear a banalidade deliciosa de "estar em casa", de participar das rotinas, de fingir a normalidade do contexto familiar onde sou ausente o resto do ano.
 
A viagem foi feita em compassos de magia, em tempos que o relógio não mede, nesse céu que me guarda inteira no mundo.
E aterrei com o coração ainda a voar, à espera de olhar e abraçar. E foi tão bom! Mas o mais incrível é que, desde a primeira manhã que acordei em casa, volta a sensação de nunca ter saído.
Como os momentos com os amigos que tenho estado a rever: parece sempre que tínhamos estado juntos no dia anterior. Depois de abraços apertados e de sorrisos abertos pela alegria do reencontro, é como se existisse uma capacidade de actualização imediata que permite a cumplicidade de quem não precisa dizer nada, mas insiste em dizer tudo em conversas prolongadas.
 
Deslumbrada e inquieta. É assim que me sinto. A saborear pequenos luxos e confortos que voltei a experimentar e - a melhor parte! - a desfrutar da presença e da proximidade das pessoas que me enchem o coração. Ainda não abracei todas. Mas o amor não rouba tempo ao tempo; antes estende as horas, sem pressas nem horários.
Mas é este amor, este aconchego, que me traz a inquietude. Porque me sei a partir novamente em Setembro. E, ainda que sendo o meu caminho, parece - às vezes - não fazer sentido. Como se o caminho não fosse a estrada em si, mas as pessoas. Todas as pessoas, de todos os caminhos.
 
"Desta vez ficas, certo?" 
Passou pouco mais de uma semana e já tive que responder a esta questão demasiadas vezes. E sempre na resposta o misto estranho de angústia por saber que vou voltar a partir e de paz por esse outro cantinho de mundo já tão meu.
 
Querer mundo e querer casa ao mesmo tempo. Ainda não sei como. Mas sei que é esta a minha procura. Porque é isto que o meu coração me pede. Num pedido sem palavras, sem gritos, apenas a certeza de querer ficar sem nunca deixar de sair para o mundo. Um dia vou encontrar um equilíbrio. Um dia vou construir uma ponte.
Porque quando estou em casa, preciso do mundo. Mas quando saio para o mundo, preciso de casa. E é a casa a minha essência. É a casa que me permite sair para o mundo. Se não fosse esta casa, não tinha de onde sair. Não tinha para onde voltar. Mas este ninho merece-me mais do que a certeza de lhe pertencer. Merece-me inteira, ainda que aceite os meus pedaços incompletos.
 
E eu não sei mais o que dizer, o que pensar, nem o que sentir. Porque me perco nestas estradas que se cruzam, mas não chegam a ser uma só. Porque me perco em expedições de novos atalhos. Porque insisto em querer tudo.
Mas bem, é agora altura de me parar por este cantinho. E há ainda tanto para me demorar! O coração encontrará a sua paz ou aprenderá a viver nesse sobressalto partilhado.
Agora é tempo de ficar.

Caminhos

Os caminhos que se fazem.
Os caminhos que nos fazem.
Sou os meus caminhos e o que sou faz-me caminhar.
A estrada segue, ora com pés que a pisam, ora com pés que a desenham.
O olhar fica perto só para saborear as pequenas banalidades que dão vida à vida, mas é longe que ele mora. Sempre longe moram os meus olhos. Acompanham-me em cada instante, e é quando descanso que eles fogem por aí, a ver caminhos.
 
E porque eu sempre serei o que faço (fazendo o que sou), não sei o que fazer.
Quando decidimos a direção, parece fácil saber para onde ir. Mas nem sempre é assim. Muitas vezes, vemos o destino, mas são conhecemos o trajeto.
O importante, acredito, é não parar de caminhar. Mesmo que nos desviemos um pouco, há sempre coisas novas a aprender e descobrir, paisagens para conhecer, pessoas para encherem o nosso coração. Mesmo que doam as pernas, caminhe-se mais devagar, mas não se pare. E há tantas formas de caminhar...!
 
Então, quando surgem ruas novas, cidades que queremos conhecer, poderá ser necessário passar uma ponte, atravessar para outra estrada. Se quisermos, se for esse o nosso sentido, se assim o sentirmos.
E quase nos surpreende perceber que não podemos fazer duas coisas ao mesmo tempo, estar em dois lugares ao mesmo tempo, ser duas pessoas ao mesmo tempo... Porque queremos fazer tudo, não abdicar de nada, estar em todos os lugares, em todos os tempos, com todas as pessoas.  
As encruzilhadas dividem o nosso coração e a nossa cabeça. Se por um lado nos entusiasmam as possibilidades, por outro atormentam-nos os finais.
Despedidas nunca foram o meu forte. Sou de encontros, de partilhas, de "para sempre", de chegar, de acolher. Não sei partir. Não sei estar longe.
Apesar de estar continuamente a partir, só quero ficar.
 Apesar de estar sempre longe, só quero ser vizinha de todos.
 
O bom desta encruzilhada é que, olhando os dois caminhos, se em ambos o meu coração fica sem um pedaço, em ambos também há um mundo de coisas e pessoas que me encantam e aconchegam. Então talvez o meu problema seja apenas a abundância de graças e bênçãos.
E saber que, num caminho ou no outro, é de mim que dependem a alegria, o entusiasmo, a verdade, a entrega e a paz.
 
Num caminho ou noutro, serei eu. Em caminho. Sempre.
 
 
 

Cooperação


"Os que asseguram que é impossível, não deveriam interromper os que estão a tentar."

Igualdade? Justiça? Paz?
A verdade é que, no fundo, nem mesmo nós sabemos se é possível. Mas isto é segredo, não contem a ninguém. Não sabemos, mas não queremos aceitar que não o seja. E não nos obriguem a aceitá-lo. Também vocês não têm a certeza de que é impossível. Não sabemos. Ninguém sabe.
Então, fazemos assim, meio termo encontrado para ninguém se chatear: nós não vos obrigamos a lutar por algo em que não acreditam e vocês não nos obrigam a desistir de algo em que acreditamos. E continuamos todos amigos e com muito para falar, que o que não falta são temas de conversa, e há tanto em que concordamos, e tanto mais em que as nossas discordâncias nos fazem crescer.
Mas nisto não... Nisto são vocês a repetirem que os nossos esforços são inúteis, contraproducentes até. E nós, apesar de nos debatermos no conflito permanente entre a entrega e a frustração, entre preserverar e desisitir, queremos continuar. Se fosse para desistir, já o tínhamos feito há muito. São tantos os obstáculos a ultrapassar que, transpostos estes, não são os vossos argumentos insistentes que nos vão tirar do caminho.
Há quem ache que somos os maiores do mundo, há quem ache que somos uns aventureiros apenas, há quem ache que somos sonhadores inconsequentes. Podemos apenas ser? Podemos apenas ser pessoas como outras quaisquer? Com uma profissão qualquer? Podem não se demorar em nós só para dizerem que o que fazemos é inútil? Podem parar de tentar convencer-nos que é impossível? Se não ajudam, pelo menos não atrapalhem. Se não constroem, pelo menos não destruam.
Deixem-nos encher os dias de poesia, de clichés até. Deixem-nos acreditar, deixem-nos trabalhar. Não precisam elogiar. Prefiro até que não o façam. Mas deixem-nos descansar a frustração nos exemplos que nos inspiram a continuar. Deixem as convicções e os ideais seguirem sem serem constantemente atacados.
E não se ofendam com o que digo. Não o digo apenas a vocês, mas também a mim. E uso-vos, a vocês sem nomes e sem caras, de muitos nomes e muitas caras, para defender aquilo em que acredito. Porque às vezes, quase precisamos que nos contestem para que, num impulso de defesa, aumentemos a confiança em nós próprios.
Eu, confesso, também queria acreditar, ter a certeza de que era impossível. Ai, ia ter tão mais com que me entreter! Mas não... Não consigo, não quero, ainda, não já, desistir. Preciso tentar.
Quase como os adolescentes que vemos a descobrirem o mundo e a vida. Não vamos sentar o adolescente de 15 anos, olhá-lo nos olhos e dizer-lhe: "Eu sei que estás muito apaixonado, mas olha que o mais provável é que isso não dure tanto quanto pensas e que venhas a sofrer horrores com o fim do teu primeiro amor! Mais vale termirares já essa relação." Não fazemos isso. Primeiro, porque seria demasiado cru, demasiado duro; são aprendizagens da vida que ele tem que fazer, que nós já fizemos. E, segundo, porque não temos a certeza de que não será, de facto, aquele amor a acompanhá-lo até ao fim dos seus dias. E a vida não é feita de probabilidades.
Então sim, talvez seja nesse aspecto ainda uma adolescente a descobrir o mundo. Mas, se desistir, que seja porque tentei tudo o que tinha para tentar, que dei tudo que tinha para dar. E ainda assim, esperarei, no segredo do meu coração, que um outro alguém venha a tornar possível o impossível, numa das suas muitas tentativas.
Nas últimas semanas tenho estado a estudar um pouco algumas questões da pobreza no mundo, através de uma formação à distância. E não, não tive, não tenho, nem me parece que venha a ter, respostas formidáveis e novos caminhos nunca antes pensados. Mas colecciono vontades e inspirações, novas perspectivas e novas ideias, partilhadas por pessoas que têm estudado muito tudo isto, e continuam sem certezas. Ninguém consegue provar que é possível. Ninguém consegue provar que é impossível.
Mas estas pessoas continuam a estudar e a procurar porque acreditam. E eu quero acreditar com elas.
"I believe we can.
And I hope we will."
Esther Duflo