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Mafalda

Quando nasceste, o mundo nunca mais foi o mesmo. 
Quando nasceste, o mundo ficou igual a sempre. 
Quando nasceste, o mundo deixou de ser mundo. 
Quando nasceste, o mundo passou a ser mundo.

Foi assim esse parto de tudo e de nada, e de tanto a explodir em mim, e de tanto a serenar-me. 
Foi assim esse parto da luz mais incandescente, do escuro mais profundo, da gratidão mais incrível, do medo mais avassalador. 
Foi assim este parto de amor.

É o amor. O princípio de todos os amores que há no mundo. A fonte que é água a saciar vida de todas as formas.
Ninguém precisa da maternidade para saber o que é o amor, mas agora que sou mãe, sei que é esta a matéria-prima de tudo. O amor que os nossos pais nos impregnaram um dia. Este amor assombra a humanidade de esperança e fé. Este é o amor que nos faz continuar a acreditar, continuar a caminhar. Este é o amor que nos faz sonhar a paz.

Agora

Agora. Sem correr para o depois. Agora. Tanto espaço. Tanta Energia. Agora.

Daqui a poucos minutos (talvez não tão poucos assim, que o vôo está atrasado), estarei algures num pedaço de céu a caminho de Moçambique.

10 anos depois, vou regressar a uma terra que me ensinou a amar inteira quando eu achava que era impossível amar mais, me ensinou a amar melhor quando, entre a ingenuidade e a prepotência, achava que não havia mais a aprender.
E descobri, então, que sempre que achamos não haver nada a aprender, é quando mais precisamos de ensinamentos.

Há 11 anos, quando corri pela primeira vez para Moçambique, cheguei cheia de pressa de fazer coisas e obrigaram-me a parar. Embati num muro duro, implacável e indiferente à minha velocidade e à minha agenda. Mas não doeu. Essa parede alta era forte, mas suave, e o choque terminou numa espécie de abraço metafórico, de aconchego e novamente força a impelir. E antes de fazer o que quer que fosse, tive(mos) que aprender a estar. Estar. Coração todo ali. Consciência do tempo e do espaço. Gratidão pelas pessoas. Confiança no caminho. Entrega. Entrega total. Estar.
E depois sim, fazer. E fiz(emos) coisas tão bonitas! Porque estava(mos).
Há 10 anos, um ano depois, voltei a Moçambique, já em plenitude feliz, coração todo a explodir da magia dos reencontros.

Talvez não seja assim por acaso este regresso agora.
Os últimos tempos têm sido de fazer. Fazer imensas coisas, numa agenda preenchida e tarefas sobrepostas num castelo torto. Mas não estou. Não estou inteira em mim nem nos outros. E desta forma não faz sentido. Porque não faz sentir.
E se as minhas pessoas bonitas me aceitam assim, em pedaços de tempo contados e escassos, que não aceite eu estar tão pouco, que me lembre desse muro que me empurrou para me abraçar. 
Profundamente grata por esta rede incrível de suporte, cuidado e amor, quero aprender a guardar espaços de tempo sagrados de celebração discreta - mas atenta - da vida e dos outros
E imponho a mim própria este limite, este ponto final em malabarismos. Agora Moçambique. Outra vez. Tantos anos passaram e tanto para (re)aprender. Dias que se esperam de Luz e Amor. Quero só saber que vou aterrar inteira e permitir-me essa comunhão plena e entrega genuína.
E depois, aproveitar o balanço, e voar de volta para cá, nessa certeza de que 2018 terá que ser um ano para Fazer menos e Estar mais. Fazer melhor, mais atenta, com mais cuidado. Mas Fazer menos. Dizer que não quando for preciso, só para garantir que cada Sim é total e será vivido e desfrutado.
E Estar mais. Demorar-me nas casas e nos encontros. Ter conversas mais longas. Demorar-me menos no relógio para o compromisso seguinte e mais nas conversas que ainda esperam tantas palavras.

E agora, Moçambique.
E agora, viver agora.
Até já.


O luxo da saudade

Cerca de 5.000... É o número de quilómetros entre o aqui e o chão que me segurou durante quase dois anos e meio.
Esse pedaço de mundo hoje não está perto, mas está dentro. Está aqui dentro a doer e a incomodar, a acordar-me durante a noite e a distrair-me a meio do dia. Está aqui dentro a lembrar a simplicidade e a entrega, o cansaço inteiro de paz, a luz e as cores, a confiança, o entusiasmo, a leveza. 
E fica o meu coração cheio desse longe tão intenso, desses dias tão cheios de tempo e vida.

A saudade é isso mesmo: um longe que está dentro, um dentro que está longe

A saudade é um luxo. 
Seja um longe no mapa ou no calendário, poder guardá-lo connosco não tem preço, e se tivesse, seria um que ninguém poderia pagar.
A saudade é esse embrulho feio, esse papel rasgado, essa saca furada que guarda o tesouro mais bonito. A olhar assim de fora, é difícil, às vezes, acreditar que algo valioso brilhe naquele interior. Porque a dor nos distrai dessa beleza, porque queremos tanto que o longe esteja perto, que nos esquecemos que o temos dentro.
A saudade pesa-nos o coração das memórias, das pessoas, dos lugares, dos momentos, dos sentires... e nós nem sempre percebemos tudo o que ela guarda. Porque, na verdade, é a eternidade que grita nessa nostalgia.

Se alguém me perguntar hoje qual é a coisa mais preciosa que tenho, responderei, sem hesitar: as saudades.
As saudades que tenho da cor da terra, dos sons dos dias, dos momentos em que as frustrações eram ultrapassadas, das horas no corredor num tédio afinal tão divertido, dos djumbais no alpendre.
As saudades que sinto de falar mantenhas, de ver a Helena chegar de manhã, do Malaquias a caminhar devagar de olhos no chão, o Edu envergonhado e sempre sorridente.
As saudades das chuvas que bebi e das pessoas com quem as partilhei, das estrelas que vi caírem e das que nunca deixaram de iluminar.
As saudades delas nas noites de música dançada e nos dias das conversas intermináveis de sentidos.
E as saudades dele (meu Deus, tantas saudades dele...!). 

Que bom ter saudades! 
Que sorte viver o longe aqui dentro.
Que luxo...!


Ah, nha Guiné-Bissau...! N'disdjau maaaal!

Lembra-te.

Não podes ir embora sem te lembrares. Não podes ir embora sem reveres e guardares.
Lembra-te.
E lembra-te enquanto estás aqui, nos dias que te sobram repletos de tanto, perto ainda das memórias a gravar.
Lembra-te.

Lembra-te de quando aterraste em Bissau pela primeira vez. Do ar húmido a colar no corpo, a dificuldade em respirar. Lembra-te da sede, essa saciada e sempre repetida. 
E lembra-te de te sentires em casa desde o primeiro instante; o longe a doer, o coração a pousar.

Lembra-te de cumprimentares as pessoas na rua, lembra-te de quereres saber os nomes. 
Lembra-te das pequenas coisas e da tua capacidade de vivê-las em plenitude. 
Lembra-te de procurares soluções para os problemas e de todos eles tirares um ensinamento.

Lembra-te dos banhos-de-chuva, da água completa em ti, do fresco a explodir, de risos molhados e partilhados com gente que rasga o teu coração.
Lembra-te de saltar para o rio Geba meio segundo depois de afirmares que nunca o farias.
Lembra-te das estrelas cadentes numa pickup debaixo do céu e das pessoas que estavam contigo nessa caixa aberta para o mundo.

Lembra-te de dançares como se se a tua vida dependesse disso, como se fosse a última noite.
Lembra-te de sempre ser para sempre e quereres sempre mais e, ainda assim, tudo te bastar.
Lembra-te de te sentires a crescer, sendo cada vez mais pequenina.

Lembra-te dos amigos que o serão para sempre, de como te acrescentam vida e beleza, de como aumentam o mundo que conheces e partilhas, de como são grandes no teu coração.
Lembra-te da coragem da entrega, de beijares sorrisos e experimentares o sagrado em intervalos de lucidez.

Lembra-te das cores, dos sons, dos cheiros. Fecha os olhos e vê, ouve, cheira. Sente.

Mas lembra-te também das frustrações repetidas e somadas, de quando parecia que não ias aguentar mais. Lembra-te da paciência esgotada. Lembra-te da lama e da poeira. Lembra-te dos mosquitos, dos grilos, das baratas, dos lagartos. Lembra-te dos militares, dos políticos de treta. 

Lembra-te do escuro e lembra-te das lanternas a iluminar.
Lembra a Guiné inteira em ti, no bom e no mau; e deixa-a ser esse todo que é teu, assim.
Chora. Deixa essa saudade ser recipiente que guarda tudo isto. É essa a verdade.

E lembra-te de ti na Guiné. De quem eras quando chegaste, de quem és agora que partes.
Como te disse a tua alma irmã, "lembra-te de quem és no sítio para onde vais".
Lembra-te.

Pedacinhos de vida

“Ganha a última equipa a chegar.” 
Terminei eu assim a explicação de um jogo que nos ocupou hoje a tarde nas Jornadas de Lançamento do ano lectivo 2013-2014 das escolas das Missões Católicas de Bafatá.
“Mas, Mónica, os últimos é que ganham??”
Ri de mim própria, e corrigi o erro. Os primeiros é que ganham, pois claro!

É assim quando se dorme pouco em noites de conversas no alpendre e dias de muito trabalho. Olhos pesados a quererem dormir, mas coração inquieto pela Guiné-Bissau em mim, pela eminência de uma despedida que se vai aproximando timidamente, pela sensação de haver ainda tanto a viver e saborear.

É preciso ousadia para ser feliz. É que pode ser mal visto, mal interpretado.
Aparentemente, sou assim algo desavergonhada nessa coisa da felicidade. É o que dizem. E parece que devia disfarçar a minha alegria, contê-la talvez, fechar a cara um pouco para ser levada a sério e não dar espaço a abusos.
N’ka nega, ma n’ka pudi! - diria no crioulo da minha Guiné-Bissau, uma espécie de “Não é que eu não queira, mas não posso / não consigo.”
Na verdade, não quero mesmo. Perdoem-me os mais austeros, mas continuarei neste exagero de sorrisos e gargalhadas. Vá, e nem é tão exagerado assim.

Dizia agorinha o Pierre: “A Mónica ri tanto, que parece que vai acabar de rir hoje; amanhã já não terá risos.” 
Tenho! É que eles multiplicam-se. É como o fogo que quanto mais queima, mais tem para queimar. O riso é essa alegria boa a arder cá dentro.
E rimos tanto esta tarde! Numa actividade em que aprenderam tanto quanto se divertiram. Afinal os adultos na Guiné-Bissau são só crianças cujo corpo envelheceu: brincam inteiros de entusiasmo e reivindicam as batotas no faz-de-conta como nunca se atreveriam no mundo real. Como foi bom vê-los soltos e confiantes, orgulhosos e empenhados. Por isso continuo a rir, o coração repleto a suspirar. 
E não estava tão errada assim: terminado o jogo, ganharam os primeiros, mas também os últimos, e os que ficaram em segundo lugar… e todos!

E ganhou o Braima. Nada a ver com o jogo. É o professor de Empada que faz sempre mais do que pode, quase a trocar a expressão guineense que referi acima: ele não pode, mas quer, então faz. Como? Eu sei lá. Já expliquei que de milagres sou apenas testemunha, nunca percebi como funcionam. 
E então o Braima hoje ganhou uma mota; doação que a FEC tinha disponível para uma escola e ele foi o feliz merecedor. Menino contente de olhos gigantes de entusiasmo, manhã de Natal em contemplação do novo brinquedo, quilómetros de vida (um pouquinho) mais fácil. 
No final da tarde, depois de todo o trabalho e de toda a brincadeira, deixei-me estar no alpendre a apreciar ao longe a devoção com que se demorava na mota. Uma imagem absolutamente encantadora! E o meu coração sempre mais cheio!
(Meu Deus, como é que eu hei-de ir embora?)

Ah, e os três estarolas no escritório? A cumplicidade é mesmo a melhor coisa do mundo. Nesta sou mera espectadora, que não apanho a maior parte do que se passa ali, mas delicio-me com as piadas que não percebo, com as conversas em meias palavras porque a outra metade é adivinhada. E mesmo sem participar, gosto de vê-los nessa construção bonita. Gosto de ver equipa outra vez; essa coisa de gente tão diferente que encontra uma forma de se encaixar e funcionar como um todo, mesmo sem se aperceberem.

E eu só assim, assistente de pedaços da vida a acontecer. 
Como podia não ter o coração a rir em explosões de paz? 
Ah! N’ka nega, ma n’ka pudi!


"Hoje as pessoas são felizes

e não sabem."

Há umas semanas atrás, ainda de férias em Portugal, acompanhei a minha avó em visitas a amigas que ela já não via há anos. Acreditou ela serem os últimos momentos partilhados com aquelas pessoas, nesse fatalismo conformado que aparece a partir dos 80 anos.

A primeira visita foi a uma senhora de cerca de 87 anos de idade, Isabel, acamada depois de amputação de ambas as pernas, que nos recebeu com um sorriso doce, cheia de vida e com uma lucidez e  um discernimento que eu própria invejei. 
A conversa lá seguiu, eu espectadora, deliciada a ouvi-las lembrar os tempos, as pessoas e as histórias. Eram duas meninas. Da pele enrugada pelos anos, sobressaiam olhos brilhantes e contentes de meninas que se encontram na sublime cumplicidade da memória.
E falaram das suas pessoas e das suas saudades.
Pelo meio das histórias, os pormenores das condições de vida e das distâncias tão maiores de então, ilustravam dificuldades e carências. Estas, de há uns 60 anos atrás, lembravam-me as da Guiné-Bissau hoje em dia. 
Mas os relatos das privações apareciam sempre como acessórios na história. Não era isso o mais importante. A essência era mesmo as vivências e as partilhas, a forma como os obstáculos eram ultrapassados e o mundo continuava a avançar. 
Ainda assim, neste afastamento de décadas onde no presente elas próprias têm tanto de tudo, reconheciam nos constrangimentos de outrora alguma dureza dificilmente suportável actualmente. Nestes momentos, a D. Isabel terminava sempre a sua reflexão a dizer: Hoje as pessoas são felizes e não sabem. Mas dizia-o num misto de ternura e nostalgia, e não com aquele desdém que ouvimos às vezes. 

Hoje as pessoas são felizes e não sabem.
Fiquei a pensar nessa sabedoria extra de quem viveu tempos tão diferentes e nessa triste ignorância de não se saber feliz. 
Incomoda-me como nos perdemos em caprichos e como repetidamente inventamos novos desejos, sem nunca nos pararmos em instantes de gratidão. Incomoda-me sentir que eu própria nem sempre me lembro de agradecer, nem sempre me lembro da essência.
Saí dali contente por este incómodo em mim.

Às vezes, viajar no mundo faz-nos, de facto, perceber como somos felizes sem saber. 
Viajar no tempo também.

Encontro perfeito

com a chuva.















Os últimos dias foram demorados pelo Sul profundo desta Guiné-Bissau. Escolas, crianças, professores, pais, comunidades. Muitas escolas, muitos quilómetros percorridos. Corpo cansado dos caminhos que nunca viram estrada, costas doridas de um todo-terreno experiente da Guiné e dos saltos constantes em intervalos de terra que se abrem pelo mato.
Dia 15 foi o dia oficial do início da época das chuvas, aqui já aguardada com alguma ansiedade depois de meio ano em que o sol não descansou de brilhar. Mas o dia chegou sem água a cair do céu. Só nuvens fortes, a avisar que já não falta muito. E eu já a sonhar com a paz contente de correr em poças de água enquanto as nuvens se desfazem sobre a terra.
Hoje, no caminho de regresso, absolutamente exausta de cinco dias de trabalho bom e intenso, cruzamo-nos com vestígios de uma chuva que já tinha caído e inaugurado o cheiro inconfundível da terra molhada. E eu vinha a saborear e a respirar a sensação boa dos dias terminados, repleta de vozes, olhares e sorrisos misturados com o novo tom cinzento dos dias, em que o sol se substitui pela luz das pessoas inexplicavelmente bonitas que preencheram esta semana.
Chegada a Bafatá, o aconchego bom de estar em casa. Chuva, nem perto. O céu azul, só algumas nuvens a brincar distraídas. E era hora de descanso. Luxo bom do corpo na cadeira, os pés a descansarem no beiral do alpendre, a internet a relembrar esse mundo grande de gente e de saudades. E vem assim de surpresa, como o final perfeito num descanso esperado, aquele vento forte que anuncia a chuva. Criança feliz em mim, não tenho tempo nem de pensar, corro a sentir o vento fresco que levanta a poeira que a chuva ainda não acalmou e fico sem saber se será desta que virá fazer lama. O vento acalma e parece que foi só de passagem. Mas não; já de regresso a casa, começam pequenas pingas. A primeira chuva de 2013. Ainda sem pensar muito, tenho apenas tempo para partilhar a alegria quase ridícula (quase?)  num instante impulsivo.
E depois? Ah! Depois foi só sentir a chuva! A água a cair. O banho inundado de luz, de renovação. A sede da terra que soltava o calor guardado nos últimos meses. E foi assim até as mãos ficarem enrugadas, como a criança que não quer sair da piscina numa tarde de Verão.
Começou a época das chuvas da Guiné-Bissau. O sol continuará a brilhar em intervalos de arco-íris. E eu continuarei a aprender e a viver a magia de cada instante.

Celebrar a vida

No fim de um caótico dia de aniversário, fica a sensação de plenitude de quem celebra cada instante. A diferença neste dia são os miminhos extra, a atenção redobrada, a presença dos outros que, perto ou longe, estão junto do coração.
Um dia espremido de trabalho traz o cansaço bom de quem é feliz mesmo sem sair do escritório, bastidor das tabancas desta Guiné-Bissau onde somos mais inteiros só por reconhecermos o essencial. E este cansaço traz a alegria inigualável do corpo que relaxa com a noite a cair. A voz dos amigos em casa, dos que brincam entre as ultimas tarefas do dia no escritório, é a certeza de pertença a um maior que disfarça a minha pequenez.
E sigo tranquila, na certeza de celebrações renovadas. Imensa de gratidão profunda pela minha família, pelos meus amigos. Repleta da inquietude boa de quem promete nunca se contentar e nunca aceitar menos que tudo. Bêbada de paz pela terra vermelha debaixo dos pés, pelo sol quente que é metáfora da luz que vemos brilhar nos outros e nos aquece como nenhuma chama poderá jamais fazer. Esse calor bom da vida, de viver.
Saibamos celebrar mais do que uma vez por ano. Saibamos celebrar a rotina sagrada de cada momento.

Mãe

Gastas todas as palavras para te dizer em mim, sem verbos novos que me expliquem em ti, entrego a profunda simplicidade do amor. Na eternidade de um sempre, és e serás o meu primeiro amor, de génese e criação, de essência e pilar. O teu amor. O nosso amor.
E fica em poucas letras reunidas, o foco nesta magia de viver que é estar junto mesmo tão longe, que é guardar-me no teu abraço ainda sem te tocar.
 
O mais a dizer é indizível. Mas tu sabes. Nós sabemos.
 
E assim, olhos fechados, na paz segura do coração, abraço-te, entrego-me e recebo-te, sorriso cúmplice, olhar companheiro. E estamos juntas. Mesmo.

Velhinhos

Morro de medo da morte. Não da minha, que do outro lado há coisas brutais e até gostava de ter umas conversinhas por lá. Dos outros. Dos que são a minha vida.
Não sei lidar com despedidas definitivas, com ausências irreversíveis. Não sei viver o "nunca mais". Sufoca-me. Tira-me o ar. Por mais que aprenda a eternidade.
Mas, se tem que ser, que seja o mais tarde possível.
O meu maior sonho é este: que as pessoas que amo morram velhinhas. E que eu me demore, todos os dias, em acções de graça pelas suas vidas, pela companhia, pela presença, perto ou longe.

Irmãos

Não imagino a minha vida sem eles; não imagino os dias, o crescimento, a família.
Estão lá desde sempre. Em tudo que me lembro: na mesa de jantar, no quarto ao lado, no sofá, a bater na porta da casa-de-banho, a cantar os Parabéns, a acordar de manhã.
Entre eles somos transparentes. Não há nada que possamos esconder. E não é preciso. Ninguém nunca nos aceitará tão incondicionalmente.
Com eles descobrimos a amizade: são os primeiros amigos que fazemos e os mais importantes. Aprendemos a doçura da cumplicidade e partimos para o mundo a saber confiar e partilhar.
Se nos concretizamos em relação, é nesta que fica a minha essência.
A irmã mais velha, segunda mãe, que me apertava as bochechas e hoje me aperta o coração de saudades, que me protegeu, ensinou, orientou. Sempre me compreendeu e apoiou, concordasse ou não. Cresci a partilhar com ela as frustrações e alegrias. Nela tive sempre um ombro para chorar os dramas da adolescência, as inseguranças da vida adulta. Nela esperam-me sempre olhos gigantes de luz para celebrar conquistas e surpresas, sorrisos de ternura e gestos que me mimam e encantam.
O irmão mais novo é uma espécie de ensaio de maternidade, de despojamento, de entrega, de adoração quase ridícula, mas genuína e profunda. É menino sem tempo, mais pequeno que o seu tamanho, mas maior que o mundo, ainda a descobrir verdades e caminhos. O melhor companheiro e a melhor companhia!
Se a irmã mais velha me acolheu na família, o mais novo chegou mais tarde, mas às vezes é difícil acreditar: as fotografias antigas em que ele ainda não estava causam estranheza, como se não fizesse sentido imaginar a família assim. E não faz. Somos três. Sempre fomos e sempre seremos.
E gostamos tanto uns dos outros!
 
Acho que é por isso que os nossos pais relevam momentos como serem acordados a meio da noite pelos três histéricos com uma piada sem jeito. Porque talvez nenhum sonho, ainda que interrompido, seja melhor do que três filhos felizes que se amam e cuidam.
 
Que utopia boa esta! É mais fácil voar quando é este o nosso chão.

 
 
Irmãos. Estes sãos os meus. E são os melhores do mundo.

Faça chuva ou faça sol.

Quantas vezes já dissemos que íamos fazer isto ou aquilo faça chuva ou faça sol?
 
Lembrei-me disto a propósito dos relatos diários que me chegam de Portugal acerca das chuvas constantes, do frio que não passa, de uma Primavera que não brilha na luz do sol.
Para mim fica difícil de imaginar, nesta Guiné-Bissau onde em Março e Abril os dias namoram os 40 graus e não chove há meses.
Mas fico a pensar que isto tem que trazer alguma coisa de bom. O optimismo pode ser quase uma obsessão... e para quem está a aturar a chuva há tanto tempo, pode não ser um exercício espontâneo. Mas não resisto a pensar em como o sol será celebrado quando decidir brilhar com força. É aquela coisa deliciosa de saborear algo que esperamos muito tempo.
Hoje a minha irmã falava-me sobre uns instantes em que o sol brilhou um dia destes e a alegria dela, emocionada, como se fosse algo mesmo especial. E é. Nós é que nos esquecemos. Não há nada tão especial quanto a bola de fogo lá no alto que nos ilumina e aquece. A não ser, talvez, a água que cai do céu; mas desta andam vocês cansados, bem sei.

A verdade é que estamos, cada vez mais, habituados a ter tudo o que queremos, o que nos apetece; e depois vem uma crise económica que nos obriga a racionar tudo, a dar novos passos a caminho de um essencial que precisamos (re)descobrir. Deixamos que as coisas fundamentais se tornassem banais e precisamos educar a nossa gratidão.
As histórias cada vez mais comuns de quem, tão perto de nós (se não mesmo nós) de repente se vê com tão pouco fazem-nos estar mais atentos às necessidades dos outros, pois esses outros são cada vez mais parecidos connosco próprios e não apenas imagens comoventes que nos chegam pela televisão.
E depois a chuva. Que chove. Pode a chuva fazer outra coisa que não chover? Não. A chuva chove. Muito ou pouco, é o que ela faz.
Mas nós não somos chuva. Eu e tu. Vocês. Nós. Não somos chuva que chove. Somos gente de possibilidades infinitas, debaixo da chuva ou debaixo do sol. Então sejamos o que somos. Como a chuva que chove. Sejamos ideias e acções, sejamos partilhas e cumplicidades, sejamos escuta e atenção. Sejamos grito e canto, silêncio e tranquilidade, alegria e paz. Sejamos olhos de entusiasmo, lábios de sorrisos. Inventemos novas janelas e desenhemos um sol que brilha nos nossos olhos. Sejamos nós uma luz nova para iluminar e aquecer.

Faça chuva ou faça sol... Essa expressão que usamos para coisas realmente importantes, para aquilo que decidimos fazer independentemente das circunstâncias.
Acho que é mesmo isso que a crise e a chuva nos podem ensinar: o que é realmente importante, sejam quais forem as circunstâncias.
 
E vejam, a chuva faz os seus estragos, é certo, mas pode juntar pessoas. Que tal aproveitar a chuva que cai para, num abrigo, reunir amigos, juntar a família, pôr as leituras em dia? Não há nada como mergulhar num bom livro, deixar acontecer uma conversa daquelas onde as palavras dançam ou um convívio divertido onde o riso faz doer a barriga, para que seja primavera dentro de nós, para que lembremos o sol vivo e quente, lá atrás dessas nuvens.
Façam colecções de arco-íris, do barulho da chuva na janela, eu sei lá...
 
São tempos de sermos nós. Cada vez mais. São tempos de ser.
São tempos de partilha, de criatividade.
São tempos de aprender o que sempre esteve dentro de nós: a alegria, a paz, o amor, a gratidão. E de perceber que esse "dentro de nós" só faz mesmo sentido no plural. Como a peça de puzzle inútil que ajuda a construir algo grande quando se junta aos seus semelhantes, e é nesse encaixe que se realiza, que se concretiza. Faça chuva ou faça sol.


 

Graças

Na vida acontecem-nos imensas coisas chatas, irritantes, que nos tiram do sério. É demasiado fácil estar de mau humor: basta aceitar os estímulos gratuitamente desagradáveis. 
Na vida, acontecem-nos imensas coisas maravilhosas, divertidas, coisas que nos encantam e alegram. É demasiado fácil estar feliz: basta aceitar os estímulos de belezas e bondades que nos enchem os dias.
Se pensarmos de forma objectiva, veremos que são muito mais as graças que recebemos, não tivéssemos este instinto de tomar muitas delas como garantidas. São incontestavelmente maiores as bênçãos que respiramos distraídos do que os problemas que nos incomodam. Às vezes, é bom demorarmo-nos nas graças com atenção, pelo menos para colmatar um pouco do tempo que gastamos a dramatizar de cara fechada e tom de voz alterado. Não, não tenho a pretensão de estar sempre feliz e tranquila. Isso também não é sensato. E porque há problemas bem graves. E porque há problemas bem simples. E porque somos gente assim às vezes, descontentes, insatisfeitos. E porque fazer tempestades em copos de água é um passatempo humano. E porque sim; às vezes é mesmo só porque sim. Que seja. Mas que depois nos demoremos intencionalmente nessas graças invisíveis. E que nos possamos demorar ainda mais nas graças que surpreendem os nossos dias.
Na sexta-feira roubaram-me a carteira: documentos, dinheiro, telemóvel. Lá me esforcei para não dramatizar muito, e neste momento o que me estava a incomodar era o rol de documentos a tratar: burocracia e mais dinheiro! E agora, aqui tranquila numa tarde de feriado relaxada no bar de um hotel de Bissau, abordam-me para dizer que encontraram os meus documentos numa qualquer rua desta cidade.
Prometo passar mais tempo feliz por este recuperar dos documentos, do que passei a reclamar pelo roubo.

São Francisco da Floresta


fica no interior profundo da Guiné-Bissau. Um ''longe de tudo'' que se acentua pela inexistência de estradas, apenas caminhos de terra que rasgam o mato e unem tabancas.
A escola fica numa espécie de “meio do nada”, por entre os terrenos de cajueiros que se enchem de pessoas em Abril e Maio.
As crianças chegam de longe, poucas de perto. Poucos sítios são perto. Pelo caminho aquecem e esquecem o frio das manhãs de Janeiro. Dentro da sala, os corpos vão arrefecendo e escondem os braços dentro da t-shirt. Os professores vêm cumprimentar, as crianças arregalam os olhos e disfarçam os sorrisos envergonhados.
Depois do trabalho na escola, a hospitalidade de sempre na casa que foi em tempo uma missão católica. Há algumas décadas atrás, um homem italiano decidiu ficar. Construiu boa casa, fábrica de castanha de caju; acolheu crianças, misturou-se com a comunidade. Hoje, a sua casa e a fábrica pertencem à diocese e são geridas pela família que trabalhava com ele. Muitos italianos apoiam a comunidade e esta família. Voluntários vêm todos os anos ajudar em pequenos trabalhos e amigos e doadores enviam presentes e produtos.
À noite, as crianças da família reúnem-se à volta de um leitor de DVD, os adultos atentos ao filme na televisão que enche o pátio de cores e sons nada banais por aqui. Um pouco da Europa dentro daqueles muros. Nos equipamentos, nos nomes das crianças (Raquel, Diego, Catarina, Francesco), na mesa posta que nos aguarda à hora de jantar.
É estranha esta mistura. Onde tudo é tão igual ao resto da tabanca, mas em algumas coisas tão diferente.
Sábado e Domingo decorre uma espécie de encontro para debater as práticas de casamento forçado, particularmente de meninas adolescentes com homens mais velhos.
Uma intervenção, e outra, e outra… o compasso lento da tradução crioulo-dialecto / dialecto-crioulo que reforça cada palavra.
A par da palestra, ouvem-se perto os gritos do porco que será o almoço de todos.
- Eu queria estudar, mas o meu pai não deixou. “Não podemos comer folhas de escola.” , dizia. Mas eu acho que as folhas da escola são mais importantes que comida.
- Agora nós já percebemos que o mundo de hoje não pode ser comparado ao mundo do passado. (A propósito das tradições e das duras condições de vida.)
Já não se ouvem os gritos do porco.
- Nós, no nosso tempo, não tivemos possibilidade de ir à escola. Para nosso grande contentamento, hoje os nossos filhos vão à escola. Se chega uma carta, eu não posso ler, mas os meus filhos já podem e lêem para mim.
- Eu não sei nada. O meu filho é que vai ser a minha sabedoria.
À noite vai ser projectado um filme. Dois paus levantados seguram um pau na horizontal onde é estendido um lençol velho. As pessoas esperam, pacientes, ansiosas. Um filme! E grande assim...! Os corpos estão encolhidos com o frio das noites de Janeiro (17 graus, pouca roupa), mas os olhos estão abertos e atentos. Ainda demora. É preciso resolver toda a questão logística do gerador, das colunas e do projector.
As colunas não funcionam. Mas o silêncio não cala as imagens.
Primeiros dez minutos de filme e o computador encrava. Ninguém reclama. Todos continuam em silêncio, na tranquilidade de quem sabe esperar.
E fica assim, dias depois, esta pequena ode às coisas bonitas que são ditas nas entrelinhas, nos gestos, na firmeza das palavras, na humildade da escuta, na gratidão plena de sentir que comove e contagia.

Essência

Há muita coisa a preencher os nossos dias, o nosso tempo, a nossa mente, os nossos espaços.
No meio de tanta coisa, tantas necessidades, tantos amigos, tantas ocupações, tantas roupas, tantos interesses... será que nos esquecemos de nós? Será que nos esquecemos do mais íntimo e simples? Será que deixamos de ver o mais óbvio? 
 
Acredito que todos, num momento ou noutro, nos demoramos na busca pelo essencial. Procuramos saber o que nos move, o que é realmente importante para nós.
Essencial não no sentido do básico, mas daquilo sem o qual não seríamos.
Não seríamos o que somos, quem somos.
Qual é, afinal, a minha essência? O que me faz SER?
Cuidado. A resposta é simples. Mas não estamos habituados a ser simples. A sentir simples. A desejar simples. Quando projectamos o olhar para longe à procura de respostas, os olhos esquecem-se de procurar no que sempre esteve ali tão perto. Esticamos o pescoço, erguemos a cabeça, arqueamos as sobrancelhas...
 
E lembro-me do que escrevi à minha mãe há não muito tempo:
Porque antes de saber para onde vamos, temos que lembrar de onde vimos, de quem somos. E porque a família será sempre a nossa casa, onde quer que esteja e onde quer que estejamos.
 
É como a saga do alquimista na busca pelo seu tesouro. Depois de correr todo o mundo, percebe que ele nem precisava ter saído de casa para o encontrar. Mas precisava. É incrível como crescemos quando saímos das nossas fronteiras (fronteiras geográficas, pessoais, emocionais, sociais); o mundo parece expandir-se para além dos seus limites; aprende-se tanto, cresce-se tanto. E, no fundo, é um crescer e aprender, e um descobrir um mundo maior só para reconhecê-lo mais pequeno do que alguma vez foi.
É engraçado, não é? Como vendo tanto, conhecendo tanto, viajando tanto, e todas estas experiências sendo tão profundamente gratificantes, enriquecedoras e significativas, algo em nós encontra um caminho que nos leva ao essencial. Mas também é verdade que voltamos a esse essencial com mais certeza, com mais verdade. Encontramos um mundo pequenino e agarrámo-lo com as mãos, transportando o mundo gigante dentro de nós.
Continuando a saciar a minha sede de mundo, hoje eu sei, no mais profundo de mim, o que é essencial.

Cenouras


Magia.
Preciso de magia. Preciso de ver coisas que façam os meus olhos brilharem. Preciso que os meus olhos brilhem. Nem que para isso tenha que ser eu a fazer a magia. A aprender truques e ensaiá-los. Mas preciso de magia. Mesmo que eu saiba o segredo por trás. Preciso de magia que semeie esperança no meu coração. Preciso de magia que me faça acreditar que tudo é possível. Porque se eu deixar de acreditar, nada mais é possível. E ainda é muito cedo para desistir.
Mas às vezes fico cansada, sem motivação, sem vontade. E ainda bem que me sinto assim, porque me obrigo a ultrapassar e crio mecanismos novos.
Estar pelo segundo ano na Guiné-Bissau é partilhar de cumplicidades construídas, de uma comunhão bonita com as pessoas, de uma aprendizagem profunda de tantas coisas que as palavras não conseguem abraçar. É já saber o caminho de cor e, mesmo assim, deixar-me deslumbrar pelas belezas repetidas, sem deixar que percam a intensidade que senti a primeira vez que as vi. Mas é difícil. É mais difícil.
Aceitar os constrangimentos diários constantes e multiplicados, lidar com os mesmos problemas já com menos paciência, o calor absolutamente insuportável, a dificuldade de fazer as coisas mais simples e a impossibilidade de fazer as mais elaboradas, as saudades de casa e dos meus, os bichos por todo lado, a instabilidade política e militar que nos mantém num clima de incerteza e insegurança perene…
Às vezes sinto-me como o burro que segue caminho a perseguir aquela cenoura que alguém pendura à sua frente. Com a diferença de que sou eu própria que coloco a cenoura à minha frente.
Porque quando os estímulos exteriores são, de todos os lados, no sentido de parar, ou seguir por outro caminho, lutar pelas nossas convicções, ou até lutar simplesmente pelo nosso bem-estar, implica voluntariamente seguir cenouras penduradas. E fazê-lo diariamente. Várias vezes ao dia até.
Não sei, de facto, se isto é teimosia ou perseverança. Mas chamemos-lhe perseverança. É mais bonito. Soa melhor.
Voltando às cenouras, a verdade é que me têm ajudado a seguir com o entusiasmo do qual não abdico. Frases que vou encontrando, imagens que alguém partilha, um livro, uma série que me faça rir com vontade. Tudo que possa promover o optimismo e a acção empenhada, dinâmica, criativa. Coisas que me obrigam a parar, a pensar no sentido mais profundo dos acontecimentos, a reflectir e construir paz bem dentro de mim. E a verdade é que sempre chego ao ponto em que consigo ultrapassar os obstáculos que inicialmente me pareciam intransponíveis, chego sempre à conclusão que afinal não era assim tão complicado, não era assim tão grave. Sempre reconhecendo infindáveis bênçãos nos meus dias e rendida a uma sensação de gratidão plena.
Claro que não demora muito até uma nova situação perturbar a serenidade alcançada, mas já sei o caminho para reconquistá-la rapidamente. 
É uma questão de treino.
O sorriso, a alegria, a boa disposição, não têm que ser sempre espontâneos. O optimismo treina-se.  E como tudo aquilo que treinamos, vamos ficando cada vez melhores, e ser feliz cada vez é mais fácil. E não, não são as circunstâncias que decidem. Somos nós. Sou eu. És tu.
E é difícil, claro que sim. É preciso treinar!
É preciso abrir bem os olhos e procurar na paisagem impulsos de alegria para seguir; é preciso saber encontrar nos dias os rasgos de humor, é preciso saber brincar sem pensar na desarrumação, é preciso jogar sem pensar em ganhar.

É preciso um quintal repleto de cenouras para colocarmos à nossa frente.
Se não temos cenouras, talvez esteja na altura de começar a semear.

Borboletas

Os útltimos dois dias foram de formação e debate com responsáveis, diretores e professores de escolas de alguns dos sítios mais inacessíveis desta Guiné-Bissau.
 
Nos primeiros instantes do encontro em Bafatá, os cumprimentos seguiam-se de "Kuma ku faci pa bim?" - Como fizeste para vir?
Os relatos, de nenhum sítio mais distante que 200 km, falavam de horas intermináveis de viagem, alguns de dois dias, de canoas, de caminhos de buracos e lama onde os carros atolaram vezes sem conta, dos kilómetros que fizeram a caminhar, de esperar e trocar de kandonga (espécie de transporte coletivo), dos pontos em que os militares os obrigavam a descer do transporte, seguir a pé uns 100/200 metros e voltar a entrar mais à frente para seguir viagem. Mas chegaram.
 
Numa das minhas primeiras deslocações a uma destas escolas, já na época seca, perguntei, perplexa pelas péssimas condições da "estrada": Como é possível fazer-se este caminho na época das chuvas??. O Mário Na Kala respondeu-me, sem hesitação: Com Deus!!
 
Trabalhou-se muito nestes dois dias. Partilhadas as dificuldades e os constrangimentos (suficientes para paralisar qualquer escola), traçam-se metodologias de trabalho, debatem-se questões comuns, criam-se sinergias e seguimos confiantes no início de mais um ano letivo.
Agora, a par de debruçar-me na parte objetiva do trabalho e de começar a projetar passos concretos a dar, fica em mim, mais uma vez, a admiração profunda por estas pessoas, pelo seu empenho, pela sua força e preserverança.
 
No ínicio do encontro, todos foram convidados a apresentarem-se, referindo, entre outras coisas, a função que desempenhavam na escola.  O Braima riu e disse com firmeza: Eu sou sozinho na escola! Sou o professor, o diretor, o contínuo, o servente...!
Quando visito esta escola, vejo uma sala apinhada de alunos (entre 40 a 50) e um professor que se multiplica para ensinar as 4 classes. E vejo-o estender a mão envergonhada com os documentos da escola, feitos à mão numa folha suja; os registos de assiduidade a lápis para poder apagar no final do ano e voltar a usar no próximo, numa reciclagem forçada já de há alguns anos.
 
Volto a lembrar-me das borboletas, numa descoberta de há pouco mais de um ano:
 
Borboletas! Pois é… há imensas borboletas aqui na Guiné-Bissau. Imensas! Por todo lado!
E há dias demorei-me nelas, nas borboletas. Há tantos bichinhos feios, baratas, aranhas, lagartos, sapos por todo o lado, cobras, morcegos, abrutes, tantos mosquitos e mais e mais insectos… e depois há as borboletas. Lindas! De todas as cores e padrões. Voando contentes!
Parece quase um sopro de Deus, um toque de Beleza sempre presente, transversal a todos os cenários.
 
Foi muito importante parar-me neste meu encontro com as borboletas.
Porque preciso delas, do que elas simbolizam enquanto brilho de cor e alegria leve e constante.
E porque tenho conhecido borboletas-gente por aqui. Pessoas tão bonitas, que não me basta admirá-las, porque me perco no mistério infinito de tentar perceber como podem existir estas pessoas.
Ao longo da minha vida tenho tido a sorte de conhecer verdadeiros tesouros, pessoas mesmo bonitas… e pessoas mesmo bonitas implica beleza maior que qualquer paisagem do mundo, que qualquer monumento, que qualquer obra de arte. Porque é uma beleza sem tamanho e sem lugar, sem cor e ao mesmo tempo com tantas cores e cores inventadas e brilhos inexistentes mas cheios de luz; porque é uma beleza que vem de dentro e que foge pelos olhos de quem a tem, projectando coisas que nunca ninguém saberá explicar.
Ai (suspiro), como agradeço a Deus por estas pessoas!
Mas aqui, não chega contemplar assim as pessoas-borboleta que tenho conhecido. Porque é mesmo um mistério. Como é que alguém que não tem nada ou tem tão pouco, consegue dar tanto e ser tanto… é um verdadeiro mistério. Quase um dogma.
11.Outubro.2011
 
 
Hoje fico com o dogma e o empenho para ser mais e melhor com o tanto que tenho disponível.
Grata pela inspiração.

Viver na Guiné-Bissau

é viver absolutamente feliz e profundamente livre. Porque te entregas. Porque aceitas. E só assim faz sentido.
 
Viver na Guiné-Bissau é emocionares-te vezes sem conta com o acolhimento simples, humilde e genuíno dos que te rodeiam.
É ganhar aversão à palavra "BRANCO" que te é dirigida e sempre te lembra que ainda és demasiado diferente.
Mas o tempo vai passando e "branco" é substituído pelo teu nome pronunciado pelas ruas por pessoas que nem sempre reconheces, mas saúdas com alegria.
Mais tempo passa e já és tu a chamar as pessoas quando as vês ao longe. Ja conheces a terra e a terra conhece-te. Mais tempo ainda e o crioulo dança na tua boca em conversas que manténs orgulhosa.
 
Viver na Guiné-Bissau é aprender mesmo o que não queres, é sentires-te perdida e até desiludida, mas é também uma força gigante e irresistível que te faz ultrapassar todas as dificuldades e obstáculos e seguir maior e mais confiante. Mais plena. Mais inteira. Porque te lembras que este é o teu sonho. Que esta é a vida que queres. Que é bem mais difícil do que pensavas, mas vale a pena! 
E porque os guineenses são inspiração de magia em cada gesto, são exemplo de coragem e dedicação, de luta e preserverança.
 
Viver na Guiné-Bissau é receberes em ti a chuva que cai do céu, é saltares nas poças de água com os amigos que se tornaram família, é deixares os sorrisos molharem os lábios sem medo dos relâmpagos enquanto corres pela rua.
 
Viver na Guiné-Bissau é passar horas a tentar ver estrelas cadentes que teimam em não aparecer e se mostram dias mais tarde quando estás distraída mas precisavas, mais do que nunca, de um brilhozinho no céu.
 
Viver na Guiné-Bissau é passar horas dentro de jipes em estradas esburacadas no meio do mato, é percorrer de canoa os sitios mais bonitos do mundo, é distinguir dezenas de cantos de pássaros, é cansar o braço que acena às pessoas que te cumprimentam no caminho.
 
Viver na Guiné-Bissau é conviver (demasiado!) perto com os bichos e bichinhos. É passar a vida rodeada de poeira ou de lama; uma de cada vez, não as duas ao mesmo tempo, vá.
 
Viver na Guiné-Bissau é aceitar um ritmo de vida diferente, é treinares a tua paciência, é aprenderes a saborear, a desfrutar, a confiar. 
 
 
Há dias em que é preciso parar e contemplar.
Apesar das nuvens escuras no céu, deixemos o nosso olhar pousar nas cores do Arco-Íris.
 






 
 
 
 
 
Guiné-Bissau, terra sabi!

Banhos de chuva

Porque é nestes momentos de comunhão plena e profunda que tudo parece ainda mais simples, mais verdadeiro.


Apanhar a chuva. Não porque é inevitável, mas porque se quer. Porque se decidiu aceitar a chuva que cai e caminhar debaixo dela.

Vocês sabem o que é sentir a chuva no corpo e rir só porque sim?

E olhar para o céu e ver a chuva a cair?

É tão bonito! Tão bonito…!

Parar e ver a chuva a cair em nós… e saltar contente! E correr sempre com a chuva a cair…!



E rir mais e mais…
sem perceber, mas a saborear.








A descrição é de há um ano atrás, as imagens de momentos diferentes em que nasceram encontros perfeitos com a água.
E porque está quase a acabar a época da chuvas... Saibamos saborear!