Calar

Às vezes é preciso calar. O medo faz engolir palavras, mudar de assunto. 
É uma sensação estranha. Deixar de dizer. Ler nos olhos do outro as palavras que cala. E sentir nele uma calma imposta por uma resignação forçada, por um cansaço repetido e gasto, porque não "vale a pena" e há uma família para sustentar e um dia-a-dia para gerir o pouco, sempre demasiado perto de fronteiras com o nada.

Quando me perguntam como vão as coisas por aqui, digo que está tudo tranquilo. Depois de meses em que um simples grupo de jovens a correr na rua nos fazia saltar o coração, em que os militares na estrada nos faziam baixar a cabeça e obedecer a ordens ridículas pelo peso da arma comprida pendurada no ombro... Contentamo-nos com a tranquilidade, mesmo que isso não traga nada de bom à vida das pessoas e ao desenvolvimento do país.
Já não há grupos de militares a pararem-nos no caminho entre e Bafatá e Bissau umas quatro vezes. Mas o que mudou mesmo foi a nossa postura. Desistimos de actualizar os blogs do costume várias vezes ao dia e abolimos das conversas as horas intermináveis de análises e especulação. Não o fizemos por leviandade, mas porque percebemos que isso não nos acrescentava nada de bom. Aos poucos, (re)centrando o nosso olhar e o nosso esforço no trabalho que nos trouxe aqui, nas pessoas que nos dão sentido aos dias, dedicamo-nos ao que realmente podemos fazer, pouco que seja, sempre maior que o vazio das contestações em círculo  que não sabemos transformar em algo útil e produtivo.

Nestes últimos dias, em sessões de formação em que discutíamos o sistema de ensino na Guiné-Bissau e os principais constrangimentos que o fragilizam, a conversa caiu inevitavelmente nos problemas de sempre, que os formandos evocavam em meias palavras, em quase-frases, prolongadas apenas com a extensão que lembra que "não podemos dizer tudo", "isto é melhor não dizer em público", acompanhadas de expressões de frustração já perdida de sentido e caminhos. 
Mas quando a revolta é maior do que o medo, e as coisas se dizem, parece que querem rapidamente voltar ao silêncio. O alivio de quem desabafou e gritou perde a batalha com a tristeza do confronto com a realidade nua, sem as roupas meio esfarrapadas que lhe vestimos para tapar o que nos choca. Porque dizer as coisas que todos sabem escondido em si, torna real o que fingimos ignorar, desmascara a paz em que  nos "ingenuizamos"  para acreditar. 
Então fazemos um intervalo - metafórico e literal ao mesmo tempo - e regressamos ao investimento no possível e a saborear a tranquilidade que se vive, independentemente do que ela esconde. 
Porque quando não há paz verdadeira, até uma de faz-de-conta nos serve.

A bola do Malaquias

Ontem o Malaquias trouxe da escola as notas do 2º Período. Eram notas muito boas, bem melhores que as do primeiro trimestre. Ficámos contentes e elogiamos o seu esforço, o seu trabalho. Envergonhado, olhos atentos, silêncio, como quem espera todas as coisas boas que tínhamos ainda a dizer sobre ele e o seu bom desempenho escolar.
Chamamos a mãe para analisar com ela o caderno e as notas, para senti-la orgulhosa do filho "maluco", como continua a dizer, apesar de longas conversas acerca desse significado. Não que isso a faça gostar menos dele. A questão não é essa. É que quando a vida é cada dia, cada necessidade, cada esforço, falta espaço e tempo para pensar as sensibilidades de cada um. E quem não fala - ou fala pouco - é maluco; e isso é um facto, e não um insulto.
Aos poucos a Helena vai percebendo e, alegria ainda maior, o Malaquias vai falando cada vez mais.
 
Ontem a Carmen perguntou-lhe a idade:
- Cinco!, respondeu firme.
Pois ele já tinha seis quando o conheci e estava convencida que o aniversário do Malaquias era em Junho. Confirmei com a mãe:
- Helena, em Junho o Malaquias faz sete anos, não é?
- Não, Momi, ele já fez sete anos em Março, dia 6.
O Malaquias ficou admirado, mas continuou em silêncio. Expliquei-lhe:
- Vês, Malaquias, tens sete anos. Agora não esqueces mais. Quando for Março outra vez, fazes oito. Mas ainda falta muito. 
 
Aniversário esquecido e bom aproveitamento na escola mereciam ser celebrados. Pensamos qual seria a prenda ideal para um menino guineense de sete anos, e lá saímos à hora de almoço pelas ruas de Bafatá à procura de uma bola de futebol. Foi só na feira que encontramos e seguimos para casa, a bola a queimar-me nas mãos de entusiasmo... Vinha eu a imaginar como ele iria ficar feliz, e já preparada para que essa felicidade fosse apenas diagnosticada nos sinais mais subtis.
Àquela hora o Malaquias estaria certamente a dormir profundamente como em todas as tardes a seguir ao almoço enquanto espera pela mãe, porque mesmo com sete anos, o dia e o trabalho começaram bem cedo.
Já sabia que não ia conseguir esperar que ele despertasse por si e lá o tentamos acordar, primeiro sem sucesso, depois uns olhos que se abriram ao som da palavra "bola", que essa é igual em português e em crioulo. Meio confuso, perdido de sono, olhava para a bola e para nós como se ainda estivesse a tentar perceber. Voltou a adormecer, mas os olhos, intermitentes, iam confirmando a presença de uma bola nova ali tão perto.
Deixei-o então descansar, até que comecei a ouvir o barulho do plástico em mãos que se certificavam que aquilo era real.
Quando tentei tirar fotografia, já o sono o tinha vencido outra vez...




Ao final da tarde, por curiosidade, perguntei à Helena se costumavam celebrar os aniversários e de que forma. 
- Nada!, respondeu-me.
Conversamos um pouco sobre isso: não existe sequer um abraço, um "Feliz aniversário!", "Parabéns!". Nem tão pouco é comunicado à criança que, a partir daquele dia, a idade dela é diferente...
Depois acrescentou:
- Houve só uma vez que celebramos o aniversário do Malaquias: comprei bolachas, sumo e pilhas para o rádio.
 
Fiquei a pensar que talvez tenha sido quando fez cinco anos, a idade que ele acreditava manter.
 
Ontem, quando regressou com a mãe a casa, ele e os irmãos não tiveram que ir para a campanha de caju, como acontece nesta época. A bola exigia ser estreada.
 
Hoje não o vi. Assim que a escola acabou, não ficou à espera da mãe. Seguiu para casa e depois para o caju, que não se é criança todos os dias.

Irmãos

Não imagino a minha vida sem eles; não imagino os dias, o crescimento, a família.
Estão lá desde sempre. Em tudo que me lembro: na mesa de jantar, no quarto ao lado, no sofá, a bater na porta da casa-de-banho, a cantar os Parabéns, a acordar de manhã.
Entre eles somos transparentes. Não há nada que possamos esconder. E não é preciso. Ninguém nunca nos aceitará tão incondicionalmente.
Com eles descobrimos a amizade: são os primeiros amigos que fazemos e os mais importantes. Aprendemos a doçura da cumplicidade e partimos para o mundo a saber confiar e partilhar.
Se nos concretizamos em relação, é nesta que fica a minha essência.
A irmã mais velha, segunda mãe, que me apertava as bochechas e hoje me aperta o coração de saudades, que me protegeu, ensinou, orientou. Sempre me compreendeu e apoiou, concordasse ou não. Cresci a partilhar com ela as frustrações e alegrias. Nela tive sempre um ombro para chorar os dramas da adolescência, as inseguranças da vida adulta. Nela esperam-me sempre olhos gigantes de luz para celebrar conquistas e surpresas, sorrisos de ternura e gestos que me mimam e encantam.
O irmão mais novo é uma espécie de ensaio de maternidade, de despojamento, de entrega, de adoração quase ridícula, mas genuína e profunda. É menino sem tempo, mais pequeno que o seu tamanho, mas maior que o mundo, ainda a descobrir verdades e caminhos. O melhor companheiro e a melhor companhia!
Se a irmã mais velha me acolheu na família, o mais novo chegou mais tarde, mas às vezes é difícil acreditar: as fotografias antigas em que ele ainda não estava causam estranheza, como se não fizesse sentido imaginar a família assim. E não faz. Somos três. Sempre fomos e sempre seremos.
E gostamos tanto uns dos outros!
 
Acho que é por isso que os nossos pais relevam momentos como serem acordados a meio da noite pelos três histéricos com uma piada sem jeito. Porque talvez nenhum sonho, ainda que interrompido, seja melhor do que três filhos felizes que se amam e cuidam.
 
Que utopia boa esta! É mais fácil voar quando é este o nosso chão.

 
 
Irmãos. Estes sãos os meus. E são os melhores do mundo.

Faça chuva ou faça sol.

Quantas vezes já dissemos que íamos fazer isto ou aquilo faça chuva ou faça sol?
 
Lembrei-me disto a propósito dos relatos diários que me chegam de Portugal acerca das chuvas constantes, do frio que não passa, de uma Primavera que não brilha na luz do sol.
Para mim fica difícil de imaginar, nesta Guiné-Bissau onde em Março e Abril os dias namoram os 40 graus e não chove há meses.
Mas fico a pensar que isto tem que trazer alguma coisa de bom. O optimismo pode ser quase uma obsessão... e para quem está a aturar a chuva há tanto tempo, pode não ser um exercício espontâneo. Mas não resisto a pensar em como o sol será celebrado quando decidir brilhar com força. É aquela coisa deliciosa de saborear algo que esperamos muito tempo.
Hoje a minha irmã falava-me sobre uns instantes em que o sol brilhou um dia destes e a alegria dela, emocionada, como se fosse algo mesmo especial. E é. Nós é que nos esquecemos. Não há nada tão especial quanto a bola de fogo lá no alto que nos ilumina e aquece. A não ser, talvez, a água que cai do céu; mas desta andam vocês cansados, bem sei.

A verdade é que estamos, cada vez mais, habituados a ter tudo o que queremos, o que nos apetece; e depois vem uma crise económica que nos obriga a racionar tudo, a dar novos passos a caminho de um essencial que precisamos (re)descobrir. Deixamos que as coisas fundamentais se tornassem banais e precisamos educar a nossa gratidão.
As histórias cada vez mais comuns de quem, tão perto de nós (se não mesmo nós) de repente se vê com tão pouco fazem-nos estar mais atentos às necessidades dos outros, pois esses outros são cada vez mais parecidos connosco próprios e não apenas imagens comoventes que nos chegam pela televisão.
E depois a chuva. Que chove. Pode a chuva fazer outra coisa que não chover? Não. A chuva chove. Muito ou pouco, é o que ela faz.
Mas nós não somos chuva. Eu e tu. Vocês. Nós. Não somos chuva que chove. Somos gente de possibilidades infinitas, debaixo da chuva ou debaixo do sol. Então sejamos o que somos. Como a chuva que chove. Sejamos ideias e acções, sejamos partilhas e cumplicidades, sejamos escuta e atenção. Sejamos grito e canto, silêncio e tranquilidade, alegria e paz. Sejamos olhos de entusiasmo, lábios de sorrisos. Inventemos novas janelas e desenhemos um sol que brilha nos nossos olhos. Sejamos nós uma luz nova para iluminar e aquecer.

Faça chuva ou faça sol... Essa expressão que usamos para coisas realmente importantes, para aquilo que decidimos fazer independentemente das circunstâncias.
Acho que é mesmo isso que a crise e a chuva nos podem ensinar: o que é realmente importante, sejam quais forem as circunstâncias.
 
E vejam, a chuva faz os seus estragos, é certo, mas pode juntar pessoas. Que tal aproveitar a chuva que cai para, num abrigo, reunir amigos, juntar a família, pôr as leituras em dia? Não há nada como mergulhar num bom livro, deixar acontecer uma conversa daquelas onde as palavras dançam ou um convívio divertido onde o riso faz doer a barriga, para que seja primavera dentro de nós, para que lembremos o sol vivo e quente, lá atrás dessas nuvens.
Façam colecções de arco-íris, do barulho da chuva na janela, eu sei lá...
 
São tempos de sermos nós. Cada vez mais. São tempos de ser.
São tempos de partilha, de criatividade.
São tempos de aprender o que sempre esteve dentro de nós: a alegria, a paz, o amor, a gratidão. E de perceber que esse "dentro de nós" só faz mesmo sentido no plural. Como a peça de puzzle inútil que ajuda a construir algo grande quando se junta aos seus semelhantes, e é nesse encaixe que se realiza, que se concretiza. Faça chuva ou faça sol.


 

Quando tudo corre mal

há sempre algo para aprender. E há sempre - sempre! - coisas bonitas a espreitar, ofuscadas no caos, mas evidentes quando tudo acalma, como a luz que é mais intensa no meio do escuro. 
Parece um jogo que Deus joga connosco. E eu já sei: no fim de um dia mau, é preciso parar em silêncio, fechar os olhos e deixar surgirem essas tais luzes. Nunca falha!
Porque, às vezes, há detalhes que escapam, a nós e aos outros, e esses detalhes criam confusão, complicam a vida das pessoas, e ficamos algo desorientados a inventar possibilidades, alternativas que nem sempre nos agradam. Acreditamos que quando fazemos as coisas com vontade, com dedicação, nada pode correr mal. Mas pode. E às vezes corre.
E não podemos perder muito tempo em lamentações, em perceber quem tem mais culpa que quem. É preciso resolver, intervir, dar respostas. E a magia acontece quando, do outro lado telefone, ouvimos uma voz que fala sorridente, um tom de compreensão, de "problema ka tem!", histórias das alternativas que encontraram, paciência com as soluções menores que os problemas, tranquilidade de quem sabe que um problema não é o fim do mundo, não é nenhum drama. É um problema. E como aprendemos na Matemática, para cada problema uma solução. Mas aqui não há fórmulas a aplicar. Há olhos atentos, mãos de trabalho, corações disponíveis. Há caminhos novos para evitar problemas velhos.
E hoje, a dada altura até tinha medo quando o telefone tocava outra vez... "O que é que aconteceu agora?", pensava. E atendia, na esperança de ser apenas um telefonema banal. Mas não, havia outro problema, outra questão a resolver. Mas a voz do outro lado é tranquila. 
E assim, um problema de cada vez, umas soluções melhores, outras piores, o dia foi chegando ao fim. As estrelas enchem o céu escuro a lembrar que é hora de dormir, não sem antes desenharmos nós novas estrelas neste dia que tanto nos preocupou, e afinal tudo se resolveu.
Agora descansemos as pequenas frustrações e deixemos o sono repousar na imagem dos que, com serenidade e alegria, permitiram que tudo se fosse encaixando e que eu aprendesse que a vida é mesmo assim. Para a próxima vai correr melhor e hoje ganhei histórias bonitas de gente que brilha mais que qualquer luz.

Resiliência

Estamos habituados a desculpar as amarguras das pessoas pelo que sofreram ao longo da vida. Fatalismos inevitáveis, caminhos que se fecham em si. O lugar onde nasceram, a família onde calharam, a escola que frequentaram. Não quero contestar o papel que isso possa ter - e tem, de facto - no desenrolar de experiências e aprendizagens, logo eu que sou assistente social.
O que quero é demorar-me nas pessoas que vão além do que é esperado, muito além. Pessoas que usaram as dificuldades como um ginásio que as fez seguirem mais fortes pela vida, com tanto para nos ensinarem, com tanto para devolverem a um mundo que lhes ficará sempre em dívida.
 
Resiliência.
É um conceito que a psicologia foi roubar à física, para explicar as pessoas que apresentam uma propriedade semelhante àqueles materiais que voltam ao seu estado normal depois de terem sofrido uma pressão. Mas, quando falo destas pessoas, que deixe claro que elas não voltam apenas ao seu estado normal (o que é o estado normal duma pessoa? A física não definiu, a psicologia também não…); elas superam-se repetidamente, como se continuassem a crescer, mesmo depois de adultas, numa altura que não se mede em centímetros. Elas transpõem obstáculos, elas rasgam caminhos alternativos para caminharem firme e de passo rápido. E, o mais surpreendente, continuam a ter a capacidade de sentir compaixão pelos problemas dos outros, banais que sejam; continuam a exigir mais de si, e a entregar-se, numa medida sempre maior, a inspirar vontades e atitudes.
 
E eu, que me alimento das belezas que moram dentro das pessoas, fico repleta com estas duas que vos apresento agora:
 
Ela quase morreu. Mas está viva. Às vezes fica desanimada, porque isto de querer mudar o mundo é muito cansativo. E frustrante. Querer dar muito à vida pode ser difícil. Como se fosse mais fácil receber da vida sem pedir nada e sem retribuir em excesso. É teimosa como só ela! Talvez por isso mesmo tenha chegado onde ninguém a incentivou a ir. E teimosa rasgou estatísticas e probabilidades; a vida dela não é um número. E logo ela, que gosta mesmo é de contrariar, lá se ia encaixar em teorias e gráficos? Nunca! Quanto mais diziam que ela não ia conseguir, mais vontade ela tinha de lhes provar o contrário. Faz o que tem que fazer e o que não tem que fazer. Faz o que é preciso, portanto. Que este mundo tem que mudar e ela não vai dar descanso, nem a si, nem aos outros!
 
Ela foi sempre uma lutadora. Jeitinho de menina frágil, mas de caminho duro. Gestos doces e sorriso aberto, guardam dias difíceis daqueles que deixam mossa. Mas ela não gosta de guardar nada: é assim impulsiva, vive o momento e na mala guarda vestidos e brincos para se pôr bonita, livros para lhe encherem a alma; o resto fica onde ficou. Gosta de poemas, mas a vida dela é literatura em prosa. Daqueles livros que dá gosto ler, que têm tanto para nos contar e surpreender. Daqueles livros imensos de páginas que não conseguimos pousar. Daqueles livros cuja leitura muda a nossa vida. Para sempre. Para melhor.
 
E por isso vale a pena lembrar o sofrimento. Que deixa de o ser quando é aprendido: como se aprender a sofrer pudesse erradicar o próprio sofrimento. Porque deixa de ser o peso inútil que magoa, para ser a força que transforma e impele. E faz assim pessoas gigantes de encantos, que fazem do mundo um lugar mais bonito, mais seguro.
É bom partilhar o mundo com pessoas assim!

Apetece-me...


Hoje apetece-me gostar de ti. E apetece-me dizer-te que gosto de ti.
Hoje apetece-me gostar de ti. Gostar muito. Gostar tanto. E demorar-me neste gostar. Nesta sensação boa do coração a voar e tu sem saberes, sem sonhares. 
Hoje apetece-me ficar encantada só pelo que tu és, ou pelo que imagino que sejas... Que importa?
Apetece-me gostar de ti e das coisas que gosto em ti. Só porque me apetece gostar de alguém e não sei de quem gostar. Quem melhor do que tu? Acho que ia gostar de gostar de ti.
Hoje apetece-me gostar de alguém como tu, cheio de mundo dentro do peito, cheio de vidas na alma... E ver as coisas como tu as vês, iluminadas por essas luzes que gritam nos teus olhos. Hoje apetece-me sentir de que é feito o teu sorriso e tocar a paz do teu coração. Ouvir as tuas palavras e lembrar as coisas que nunca tinha pensado. E ver em ti esse lugar que não vem no mapa. Esse sítio repleto de caminhos e gentes, de projectos e sonhos, de monumentos edificados em segredo, de construções que só o amor torna real.
Hoje apetece-me gostar de ti.
Porquê hoje?
Talvez a tranquilidade de Bafatá se imponha assim, nestes apetites despropositados. Talvez seja só a memória de um gostar e a vontade de o repetir. Talvez seja só um capricho de uma tarde quente de Domingo. Demasiado quente. Demasiado Domingo.
Talvez seja só isso mesmo. Talvez nem seja nada. Talvez seja tudo.

Mangas

Já as vemos crescerem nas árvores, meio envergonhas. Espreitamos e alegramo-nos quando começam a tomar forma. As crianças já vão arrancando uma ou outra, fingindo-lhes o sabor que ainda não têm. Mas nós, crescidos que somos, e que sabemos esperar, ou que não queremos menos que o seu sabor inteiro, aguardamos pacientes os dias que faltam, uma semana, duas.
Lembro-me do meu primeiro encontro com as mangas da Guiné-Bissau. Fim de Março. E as mangas de casca verde. Doces e frescas como só aqui. Gotas que caem pelos cantos do lábio, as mãos cor-de-laranja do sumo que não conseguimos beber, o caroço quase limado pelos dentes.
Lembro que depois veio o Golpe de Estado, trabalho parado, eminência sabe-se lá de quê, que o tempo era espremido a considerar e analisar, entre temer e confiar. E eram as mangas que nos forçavam intervalos das especulações, às quais voltavamos mais tarde, renovados, mais leves e confiantes.
Agora, enquanto lembramos, esperamos. Como quem sente já o paladar que a memória nos põe à mesa.
 
E porque as coisas não são só coisas, mas o que lhes associamos, o que lhes sentimos, lembro ainda outras mangas. Não tão saborosas, talvez. Depende do tipo de sabor que falamos. Estas são mangas de casca vermelha que o avô compra para mimar a neta que não está perto no resto do ano. Manga de casca vermelha que o avô apresenta, descascada e cortada, no fim da refeição. E a acompanhar, o sorriso gigante de quem é mais feliz a amar.
Sabem a carinho, estas mangas. Sabem a essa presença de Deus que os avós representam no mundo. Sabem às histórias repetidas que ouvimos sempre com a mesma atenção, quase antecipando as palavras, como quando ouvimos a nossa música preferida. Sabem a essa ternura que só dos avós nasce, que só neles vive, que só deles aprendemos.
E agora fiquei com vontade de comer essas mangas menos saborosas, mas frescas de intenção e doces de companhia. Para essas ainda faltam uns quatro meses. Mas até lá, no tempo que falta para abraçar o avô das mangas e os avós dos bolinhos de bacalhau com feijão frade, está a crescer nas árvores o fruto mais delicioso da Guiné-Bissau.
 
Nada na vida é apenas em si próprio. As mangas não são só as mangas. São a leveza que trazem aos dias, são o aconchego dos nossos. As coisas são esses significados que atribuímos, esses sentidos que experimentamos. Os lugares são o que fazemos neles. E as pessoas são o que é recebido no coração e partilhado a amar.

Cooperação


"Os que asseguram que é impossível, não deveriam interromper os que estão a tentar."

Igualdade? Justiça? Paz?
A verdade é que, no fundo, nem mesmo nós sabemos se é possível. Mas isto é segredo, não contem a ninguém. Não sabemos, mas não queremos aceitar que não o seja. E não nos obriguem a aceitá-lo. Também vocês não têm a certeza de que é impossível. Não sabemos. Ninguém sabe.
Então, fazemos assim, meio termo encontrado para ninguém se chatear: nós não vos obrigamos a lutar por algo em que não acreditam e vocês não nos obrigam a desistir de algo em que acreditamos. E continuamos todos amigos e com muito para falar, que o que não falta são temas de conversa, e há tanto em que concordamos, e tanto mais em que as nossas discordâncias nos fazem crescer.
Mas nisto não... Nisto são vocês a repetirem que os nossos esforços são inúteis, contraproducentes até. E nós, apesar de nos debatermos no conflito permanente entre a entrega e a frustração, entre preserverar e desisitir, queremos continuar. Se fosse para desistir, já o tínhamos feito há muito. São tantos os obstáculos a ultrapassar que, transpostos estes, não são os vossos argumentos insistentes que nos vão tirar do caminho.
Há quem ache que somos os maiores do mundo, há quem ache que somos uns aventureiros apenas, há quem ache que somos sonhadores inconsequentes. Podemos apenas ser? Podemos apenas ser pessoas como outras quaisquer? Com uma profissão qualquer? Podem não se demorar em nós só para dizerem que o que fazemos é inútil? Podem parar de tentar convencer-nos que é impossível? Se não ajudam, pelo menos não atrapalhem. Se não constroem, pelo menos não destruam.
Deixem-nos encher os dias de poesia, de clichés até. Deixem-nos acreditar, deixem-nos trabalhar. Não precisam elogiar. Prefiro até que não o façam. Mas deixem-nos descansar a frustração nos exemplos que nos inspiram a continuar. Deixem as convicções e os ideais seguirem sem serem constantemente atacados.
E não se ofendam com o que digo. Não o digo apenas a vocês, mas também a mim. E uso-vos, a vocês sem nomes e sem caras, de muitos nomes e muitas caras, para defender aquilo em que acredito. Porque às vezes, quase precisamos que nos contestem para que, num impulso de defesa, aumentemos a confiança em nós próprios.
Eu, confesso, também queria acreditar, ter a certeza de que era impossível. Ai, ia ter tão mais com que me entreter! Mas não... Não consigo, não quero, ainda, não já, desistir. Preciso tentar.
Quase como os adolescentes que vemos a descobrirem o mundo e a vida. Não vamos sentar o adolescente de 15 anos, olhá-lo nos olhos e dizer-lhe: "Eu sei que estás muito apaixonado, mas olha que o mais provável é que isso não dure tanto quanto pensas e que venhas a sofrer horrores com o fim do teu primeiro amor! Mais vale termirares já essa relação." Não fazemos isso. Primeiro, porque seria demasiado cru, demasiado duro; são aprendizagens da vida que ele tem que fazer, que nós já fizemos. E, segundo, porque não temos a certeza de que não será, de facto, aquele amor a acompanhá-lo até ao fim dos seus dias. E a vida não é feita de probabilidades.
Então sim, talvez seja nesse aspecto ainda uma adolescente a descobrir o mundo. Mas, se desistir, que seja porque tentei tudo o que tinha para tentar, que dei tudo que tinha para dar. E ainda assim, esperarei, no segredo do meu coração, que um outro alguém venha a tornar possível o impossível, numa das suas muitas tentativas.
Nas últimas semanas tenho estado a estudar um pouco algumas questões da pobreza no mundo, através de uma formação à distância. E não, não tive, não tenho, nem me parece que venha a ter, respostas formidáveis e novos caminhos nunca antes pensados. Mas colecciono vontades e inspirações, novas perspectivas e novas ideias, partilhadas por pessoas que têm estudado muito tudo isto, e continuam sem certezas. Ninguém consegue provar que é possível. Ninguém consegue provar que é impossível.
Mas estas pessoas continuam a estudar e a procurar porque acreditam. E eu quero acreditar com elas.
"I believe we can.
And I hope we will."
Esther Duflo

As coisas que nunca disse

Em tempos em que sigo profundamente apaixonada pela vida mas por ninguém em particular, Mia Couto tem a capacidade de me fazer suspirar encantada nas leituras que desenham vida nas palavras, que inventam significados nunca antes pensados, que casam sentidos que dão novos sentidos. Custa-me parar de o ler. Como menininha enamorada, volto à leitura sempre com a certeza de que o meu mundo ficará mais bonito no fim de cada página. Fala de tudo e de coisa nenhuma e, quase sem contar, aparecem frases como esta, que nos devolvem explicações de coisas que nunca nem tínhamos tentado perceber:
"Ele há dessas coisas tão subtis, incapazes mesmo de existir.
Como essas estrelas que chegam até nós mesmo depois de terem morrido."
E fico a pensar nas estrelas. Essas explosões imensas de luz que, de tanto se demorarem na viagem dos céus, não podem nunca retribuir os olhares de contemplação.
Às vezes temos mania de estrela, sensação de eternidade, e adiámos numa viagem imaginada esse brilho que vive em nós, porque não sabemos se outras luzes o irão fazer passar despercebido, ignorado, e é mais fácil guardá-lo protegido de olhares que não o nosso. E é um brilho que não brilha. Escondido na sua vergonha, no medo de não ter o que iluminar.
Há coisas que não existem porque não são ditas, não são partilhadas, e é então como se elas nem nunca existissem. Mas delas sempre fica um brilho disfarçado. Uma intensidade densa de sentir guardada no silêncio do coração.